Nem tão ingênuo assim


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Everton de Paula
Acadêmico e editor. Escreve para o Comércio há 42 anos


Conheci um professor cujo êxito com as crianças era tão grande que, certa feita, transformou uma menina de dez anos, teimosa, rude e turbulenta numa encantadora senhorita.

Seu segredo? Simples: não toma conhecimento dos defeitos de ninguém e se concentra nas virtudes de todas as pessoas que conhece. Todos conhecem seus defeitos, dizia ele, quando comentavam o milagre, mas poucos de nós reconhecemos as virtudes. O tempo inteiro, os coleguinhas e conhecidos de Juliana vêm dizendo tudo o que ela tem de mau. Ninguém jamais mencionou o encanto que ela possui até em seus piores momentos. Limitei-me a não tomar conhecimento de suas teimosias, acessos de fúria e grosseria, e lhe dizia muitas vezes que a achava encantadora. Quando eu a apresentava a alguém, dizia que era a Juliana, a menina mais encantadora da nossa turma!

É claro que deu certo. Se alguém nos diz constantemente que somos encantadores, acabamos acreditando e sendo mesmo. Por outro lado, se passamos o tempo todo dizendo a alguém que ele é uma pessoa má, acaba-se tornando má, mesmo que sua natureza seja de uma pessoa boa.

Que pena vivermos numa época em que o elogio tornou-se coisa rara. Já perceberam como a competição por lugares melhores (na família, no emprego, na sociedade...) tem levado as pessoas a torcerem pelo insucesso das outras? E surge a culpa de todos os modos; e surge a inveja em todos os seus matizes. Um homem que ostenta sua riqueza, por exemplo, é como um mendigo que me exibe sua pobreza. Ambos estão pedindo esmola; o rico, a esmola da minha inveja; o pobre, a esmola da minha culpa.

Culpa, inveja, mágoa, ressentimentos não cedem espaço para o elogio! Só perdemos com isto.

Às vezes, porém, o problema não é tão simples assim.

Num certo ano, quando dava aulas de português numa escola particular de Franca, no antigo primeiro grau, eu tive em sala uma menina que era, sem sombra de dúvida, a pior aluna em comportamento que eu já conhecera. Levei dias, meses em vão tentando encontrar-lhe uma virtude; estava difícil.

Então, numa manhã notei que essa menina tinha o nariz excepcionalmente bem feito. E mais: que suas redações revelavam, lá no fundo, uma criatividade ímpar de crítica social. Eu lhe disse isso. Os seus colegas, em classe, se espantaram com o elogio. Mas o resultado veio de imediato: ela parou de dar pontapés na carteira da frente. Daí por diante, tanto quanto podia, falava sempre do lindo nariz de Ana Helena. Quando se mudou para outra cidade, Ana Helena ainda estava longe da perfeição, mas havia melhorado muito. Talvez porque seja difícil ser uma pessoa má quando se sabe que se tem um lindo nariz!

Claro, não estou escrevendo isto à toa. Hoje, 24 de novembro, 19h15, acabo de assistir aos telejornais que narraram e mostraram cenas da criminalidade crescente no Rio de Janeiro. Não quero e nem pretendo traçar comparativos entre Ana Helena e a necessidade de os criminosos, bandidos de morro, traficantes de drogas receberem elogios. Mas penso cá comigo: seria a bala de um fuzil o único diálogo possível? Estariam esgotadas alternativas?

Vejamos: o que restaria aos bandidos do Rio se se tomassem as seguintes medidas, todas ao mesmo tempo:
a) descriminalização de drogas;
b) conscientização intensiva das famílias quanto à nova liberdade e seus malefícios;
c) abertura de escolas, locais de trabalho e lazer nas favelas;
d) oportunidades pertinentes de inclusão social (graduais e metódicas);
e) policiamento preventivo.

Que restaria aos bandidos?
Ressaltar o nariz de Ana Helena e elogiar-lhe as redações não basta. Ana Helena precisa vislumbrar um futuro e aí se encaixar como cidadã com as mesmas oportunidades de seus pares, conhecidos ou não, amigos e contrários.

A história da formação de civilização brasileira está repleta de exemplos de repressão que não deu certo. Talvez o caminho seja o contrário do que se projeta. Não foi assim na guerra de Canudos? Em vez de exterminar literalmente os nossos patrícios, não teria sido mais eficaz se os tivéssemos incorporado à nossa civilização? Quem o diz é o próprio Euclides da Cunha: “Por que não enviaram mestres-escola no lugar de fuzis?”

A pergunta do autor de Os sertões continua atualíssima se levarmos em conta o modus operandi repressivo da sociedade.

Até provarem a ingenuidade de meu raciocínio, morrerão outros bandidos e bravos soldados em busca de uma sociedade mais justa que, a continuarem os procedimentos empregados hoje, nunca virá.

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