Marina Garcia Garcia
Pedagoga e professora de Português
Apareceu. Ninguém soube dizer de onde vinha. Alguns arriscaram que tinha pertencido à avó. O que se sabe é que o casaco de lã marrom, um pouco surrado pelo uso, estava pendurado sobre uma das cadeiras da cozinha.
Ela empreendeu então uma investigação minuciosa para descobrir algo sobre aquele insólito objeto. Olhou-o demoradamente. Tinha um pouco de neve das colinas áridas de uma aldeiazinha da Espanha. Um pouco de cheiro guardado de oliveiras. Suor antigo de terras da África. Em um dos bolsos, encontrou medo de criança perdida na igreja da Virgem Del Saliente, lotada de peregrinos. Examinando o forro, conseguiu ouvir gritos de menino vendendo lenha pelas calles de Albox. Desabotoando os botões, sentiu choros de despedida no porto. Assustou-se ao ver um trecho de Cervantes embrulhado no aroma de pão feito no forno de pedra. Havia ainda noites quentes e dias gelados, carinho de mãe, brincadeiras de menino e a voz troante do professor tomando a taboada.
Encostou-o ao peito e não conteve as emoções.
Vestiu-o. Agora, não era apenas ela. Apoderara-se de todas as outras histórias. Tornara-se uníssona a todos os antepassados.
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