Um tibapora


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Mauro Ferreira
Arquiteto, professor e escritor


Quando os leitores do Comércio receberem este Letras, pretendo estar em viagem para uma missão gratificante: cumprimentar o amigo, professor e engenheiro Ioshiaqui Shimbo em São Carlos pela passagem dos seus sessenta anos de vida intensa e profícua. Esse “japa sexavisionário”, que conheci num encontro sobre habitação social em 1988, embora talvez não saiba, é personagem fundamental na minha trajetória.

Em 1989, eu trabalhava na prefeitura de Jaboticabal quando resolvemos procurar apoio técnico na Universidade Federal de São Carlos. Lembro como se fosse hoje. A universidade em greve, lixo por toda parte, não havia sequer energia elétrica. A reunião, realizada no escuro, foi iluminada pela presença entusiasmada do professor Shimbo, que nos convenceu da parceria e das possibilidades de encontrar soluções inovadoras para os problemas da cidade. Comecei ali um período de intensas mudanças na carreira profissional e no modo de encarar os problemas sociais e urbanísticos das cidades que mudou minha vida.

Shimbo me ensinou a pesquisar e a olhar a realidade de outra forma. Pesquisador e professor com convicções certeiras e críticas da realidade brasileira, cujo horizonte utópico é uma sociedade mais solidária, democrática, justa e fraterna, ele demostrou com seu trabalho, energia e dedicação, como poderia ser diferente nosso país se houvessem mais “shimbos”, principalmente no setor público. É claro que ele formou dezenas de “shimboys” ao longo dos anos, alunos engajados e dedicados à transformação social, muitos que se tornaram meus amigos também e que hoje trabalham em prefeituras e governos.

Sua generosidade é proverbial. Sua casa, uma extensão deste modo de vida ao mesmo tempo simples e acolhedor, que construiu junto com sua companheira Maria. Quando fiz o doutorado em São Carlos, era lá que me abrigava, mesmo viajando ele deixava as chaves e a confiança irrestrita nos amigos. Inventor da célebre “caminhada produtiva”, cantada em verso e prosa no meu livro Onze Janelas, torcedor do velho freguês da Francana, o Marília (cidade onde nasceu, filho de imigrantes japoneses), viajante curioso e incansável, incentivador e mestre da economia solidária e das cooperativas populares como forma de melhorar a vida e a organização dos trabalhadores, este brasileiro visionário merece todas as honrarias, inclusive a comenda da Ordem do Mérito Científico Nacional.

Enfim, o dia é para comemorar com Shimbo, Maria, as filhas, genros e agora os netos. É dia para celebrar, relembrar e rir. Como um episódio em Jaboticabal. Foi ele quem levou um grupo de técnicos e estudantes no famoso carro da UFSCar (sigla da Universidade Federal de São Carlos) para apoiar as construções feitas em mutirão nos finais de semana pela população de baixa renda. Quando o carro estacionou na rua, os mutirantes saíram correndo da obra gritando “corre que os fiscar tão vindo aí”. Sua empreitada atual é a implantação da ecovila Tibá, parece que se tornou um tibapora legítimo. Só quero garantir minha vaga no lugar, quando precisar. Evoé, Shimbo.

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