Luiz Cruz de Oliveira
Professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras
Até o início da década de 1970, não havia agência bancária na cidade de Ibiraci. Então os cafeicultores daquele município João Miarelli, Joaquim Livindo, José Vilhena Monteiro, Nélson Peixoto faziam seus financiamentos agrícolas na agência do Banco do Brasil de Cássia, onde eu trabalhava. Foi assim que conheci o Mário Del Bianco.
Depois, eu fui para São Paulo, e o Mário se tornou prefeito da sua cidade.
Vim para Franca, reencontrei o fazendeiro. Estava morando aqui e era presidente da Associação Atlética Francana. Nessa época, fiscalizei fazenda sua, lá no município de Patrocínio Paulista, mas nossos contatos foram raros. O futebol lhe tomava muito tempo.
Eu me aposentei, e o Mário sumiu por anos. Assim, foi com surpresa que o encontrei no salão do barbeiro Arlindo. Especulei, fiquei sabendo que era fazendeiro no estado do Tocantins. Sugeri-lhe a voltar para Franca, para os amigos da Praça Barão. Argumentei que ele não precisava trabalhar mais, que não era mais menino. Ele me ensinou lição:
- Amigo a gente faz em todo lugar.
Esta semana, deu de cara com o Mário no salão do Valtinho Cabeleireiro. Ele estivera sumido por uns quatro anos.
- Vendi a fazenda, comprei outra. Agora moro em Goiás.
Aproveito o reencontro, especulo sobre versão que corre nos cafés da Praça Barão. Ele confirma, dando risada solta.
Logo que assumiu a presidência da Francana, ele quis reforçar o time. Recorreu a contatos, foi apresentado ao presidente da Sociedade Esportiva Palmeiras, da capital paulista. Foi convidado a assistir ao treinamento do time, uma tarde, lá no Parque Antártica. Depois de meia hora de observação, o Mário dirigiu-se ao anfitrião:
- Aparta pra mim aquele loirinho ali e aquele negro espigadinho.
- Que é isso, senhor Mário. O senhor está de brincadeira. Aquele loiro é o Ademir da Guia e o negro é o Edu. São os craques do nosso time.
Mário interrompe o riso, fala-me seriamente.
- Foi verdade... mas foi muito bom. Todo mundo fica fazendo zombaria, mas foi muito bom pra mim. Depois daquilo, todo mundo ficou sabendo que eu não entendia só de gado e de plantação... Todo mundo ficou sabendo que eu entendo muito de jogo de bola...
Vai-se com seu sorriso maroto e passos firmes que o colocam distante dos oitenta anos de vida, ricos de experiência, de bois, de plantações, de amigos.
Ricos até de futebol.
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