Dia de missa


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Marco Antonio Soares
Professor de Lingua Portuguesa


Quando o sino da matriz soou seis horas, seus olhos descerraram as pesadas pálpebras. Ele se sentou automaticamente, encostou as pernas junto ao peito, abraçando-as. Posteriormente, apoiou o queixo sobre os joelhos, permanecendo assim por alguns minutos. De repente, recordou que o sino havia tocado. Apoiando a mão direita à laje fria, deu impulso ao corpo, levantando-se abruptamente. Era domingo, era dia de missa, e ele havia cumprido a palavra.

Pegou o papelão que lhe servira de cama e o carregou por alguns metros, mas o tremor constante de suas mãos percorreu o caminho de seus braços e, rapidamente, seus farrapos de força deixaram cair a enorme caixa que lhe servira de cama naquela noite. Confuso, correu em direção à igreja, confirmou, era domingo, era dia de missa e ele havia cumprido a palavra.

Volveu o corpo em direção oposta à igreja, as pernas longas e finas distribuíram passadas rápidas e desconexas. Por alguns minutos, sentiu-se perdido, não se recordava da rua, da casa. Seus tremores espalhavam-se agora pelo seu corpo. Monologou por longo tempo com a ânsia e a raiva que tomavam conta de todo o seu ser. Enfim, encontrara a casa.

Do lado de fora do pequeno portão de grades, gritou alegre:

– Seu Luiz! Seu Luiz! Seu Luiz!

Após alguns segundos, a porta se abriu e, de dentro da casa, saiu um homem alto, grisalho, fazendo brincadeiras que alegrassem o moço.

– Abra as duas mãos, porque hoje eu vou-lhe dar um dinheiro bom!

As mãos em concha sentiram o toque suave do que lhe mataria a fome, do que lhe saciaria a sede, do que lhe acalmaria o vício. A face do rapaz alumiou-se. Bradou:

– Seu Luiz, que dia que eu posso voltá, seu Luiz!

Agora, você volta no domingo, no dia da missa, no meio da semana eu estou ocupado.

– Falta quantos dias, seu Luiz?

Você presta atenção, o relógio vai tocar seis vezes de manhã, vai ter mais pessoas na porta da igreja, aí você volta!

– Tá bom, seu Luiz, eu volto só no domingo, tá seu Luiz!

E o menino ganha as ruas com suas passadas ligeiras. Seu Luiz sorri como criança e um anjo, que a tudo assistia, chora emocionado.

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