Bom, todo mundo diz que Franca é cidade hospitaleira, receptiva, que recebe o estrangeiro (sinônimo local de qualquer um que more fora dos limites de 607 km², que é a área da nossa unidade territorial) de braços abertos.
Francamente, eu não acho. Acho o francano festivo, gesticulador, sorrridente, mas desconfiado, talvez herança dos mineiros da região contígua à nossa. Em contrapartida todo mundo diz que Franca é fim de linha, que estamos fora do eixo da modernidade, que sua localização é mais ou menos o lugar onde Judas perdeu as botas. Francamente, eu não acho. Há muita gente que escarnece garantindo que somos provincianos e até meio caipiras. Francamente, não concordo. Bem, tirando o sotaque evidente em algumas palavras – diziam até que Vicente Celestino se torcia na cova quando a gente cantava Porta Aberta – a maioria da população já viajou, saiu dos limites da cidade, e há um contingente que fala um segundo idioma com fluência. E temos taxa de alfabetização invejável: 94,9%. Nada mal, hein? (Convém esclarecer que ‘todo mundo’ é maneira de falar, é uma generalização até perigosa, mas é uma coisa francana, é uma francanice. Aqui quando se diz ‘todo mundo’ quer-se dizer tanto ‘a maioria’ quanto ‘quase ninguém’ ou, pode ser, até arranjar um bode expiatório para alguma acusação que está na ponta da língua... Quem não é francano não acompanha o raciocínio. Nem vale a pena tentar... Ah! O mesmo se aplica com a expressão ‘a gente’).
O povo francano. A cidade cresceu um bocado, mas peguemos a Praça central como amostra estatística. Quando a gente senta num banco da praça, olha em volta e observa, saca na hora que a cidade tem contingente para encher Céu, Purgatório e Inferno. Tem agiotas; tem mulher que passa rebolando, francamente procurando; tem criança desacompanhada; tem um monte de mães e avós correndo atrás de menino que levou para tomar sol. Tem gente correndo pra lá e pra cá aproveitando o horário de folga, tem comerciantes depositando a féria do dia, tem vendedores ambulantes. Não tem mais uma livraria! Tem casais de namorados namorando. Percebo, através deles, que a cidade está mais tolerante com relação às manifestações da ebulição hormonal própria da juventude. No domingo à noite, na praça principal, – entre levar meus filhos e agora levar netos tive um intervalo de alguns anos – dia desses me emocionei. Não tinha banda, mas tinha um grupo de teatro infantil. Tinha o trenzinho colorido, cheio de figuras das revistas em quadrinhos para animação e, curiosamente, mais adultos que crianças. Claro: pai, mãe, avós e tias para levar a criaturinha de colo que nem sabe o que está acontecendo e outras, já desmamadas quais sejam as escolares, de curso infantil a colegial. Bom, essas vão sozinhas, numa farra danada.
Franca tem vistas maravilhosas: a do final da Avenida Brasil, por exemplo. Tem córregos nos quais a geração dos sessenta aprendeu a nadar. Sorveterias! Se Deus come, a sobremesa só pode ser sorvete, costumo dizer. E francano! Tem Cavalhadas! Musicando! Orquestra Sinfônica! Cinco hospitais. Trinta e uma agências bancárias. Altitude de 996 metros que por minha conta aumentei para 1100, sei lá o motivo. Tardes fantásticas, céu noturno sem igual, pôr-do-sol que só Diogo Rivera poderia reproduzir. Quando eu morrer, não quero choro, nem vela. Quero uma fita amarela terminada com um laço em volta da urna com minhas cinzas. Não vai dar um volume assim tão grande, acredito. Mas vou pedir que elas sejam jogadas um pouco no córrego dos Bagres, outro pouquinho na Rifaina – que é suficientemente francana, ora essa! E o restante, jogadas de helicóptero sobre a vegetação da Serra da Canastra, desbravada por francanos.
MARCA
A disparidade entre as bitolas das ruas como as do Parque Progresso e a vizinha Parque dos Lima. Disparidade é marca francana. Por exemplo, não temos uma livraria, mas temos escritores aos montes. Basta dar uma olhada no caderno Nossas Letras, aqui do Comércio. Ou pesquisar: ‘quase todo mundo’ já publicou um livro... Até hoje ouvem-se vozes indignadas contra a demolição do Hotel Francano. Muitos têm nas salas uma pintura do Cariolato, ou dos Schirato - o pai ou o filho e olham com tristeza, reverência e saudade o quadro com o imenso e majestoso prédio amarelado na tela assinada por eles. Pergunto: o que fizemos de efetivo com a descaracterização do prédio da AEC?
GENTE
Franca teve e tem tipos humanos fantásticos, que pessoalmente reverencio. Geraldo Palotão. Tonho e sua irmã Toco. Luzia. Paulim Chinelo que declarou sua homossexualidade num tempo em que isso era pecado e, no que me toca, ainda é meu amigo, a quem respeito e admiro. Disparada. Toinzinho Dá-um-pulinho. Professores e profissionais cujos nomes estão perpetuados nas ruas e escolas. Nomes conhecidos e respeitados como Rio Negro e Solimões, Gian e Giovanni. Dizem, Regina Duarte.
CAMILA
E Franca tem Camila! Não sei é nascida francana, mas como tem ligação com a cidade, atribuo-lhe o título por puro merecimento. Ela tem 19 anos e é fã de Paul McCartney. Na despedida, o artista foi atraído por um cartaz que, parece, dizia assim: ‘Paul, you are not real! I want to touch you!”. Era de Camila e amigas. Foram chamadas ao palco: haviam tocado o ídolo através da mensagem carinhosa.
Veja aqui o vídeo (ou acesse o link http://www.youtube.com/watch?v=iMC8aXk89do)
Dizem, a inveja é um traço francano. No caso da Camila, embora eu também seja fã do artista desde bem mais jovem que ela, pude sentir admiração e respeito pela oportunidade que ela, de certa forma, buscou. Talvez seja isso: sorte tem quem acredita nela...
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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