Jogo é jogo. Treino é treino. Didi imortalizou esse adágio popular ao contradizer o ‘filósofo’ e antigo técnico da Seleção, Vicente Feola. Isso porque o treinador queria mais empenho durante os treinamentos e o jogador pretendia levar na maciota. Por fim, o famoso meia viu que se não houvesse treino com as mesmas regras do jogo, seria impossível ganhar a taça.
Se o preceito do primeiro técnico de futebol a ganhar uma Copa do Mundo para o Brasil valesse para o ensino público, as regras destinadas ao aproveitamento das aulas seriam bem diferentes.
Como então querer que o aluno encare o Saresp (Sistema de Avaliação de Rendimento do Estado de São Paulo) com a finalidade de obter um resultado classificatório benéfico a si?
O aluno sabe perfeitamente que passa de ano. Pode faltar o quanto quiser das aulas, pode não alcançar a nota média para aprovação, pode desrespeitar as normas da escola, pode não saber ler, escrever ou fazer conta, que não fica retido (tomar bomba, que expressão mais antiquada e politicamente incorreta!). A política correta é a progressão continuada. Desafio para quê? A vida é um mar de rosas!
Só se empenha na sala de aula da escola pública aquele estudante que tem um mínimo de projeto pessoal quanto ao futuro. Este sabe que o cotidiano das aulas funciona como treinamento. Sabe também que o jogo principal será realizado no momento de ingressar numa universidade ou até para garantir uma boa performance profissional. Ou mesmo na vida.
Os demais estudantes seguem as normas ditadas pelo sistema escolar. Sabem muito bem que estão na escola por imposição. De outra parte, o professor hoje chega ao ponto de nem exigir que uma prova seja feita com caneta. Ainda por cima, recebe a avaliação escrita em uma folha de caderno, com todas aquelas rebarbas provocadas pelo espiral de arame.
Depois, quando o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) proíbe o uso de lápis durante as provas, a gritaria se torna geral. Só pode dar nisso. Ninguém treinou com bola de cobertão. Usou somente lápis nas provas. Sem costume, a pelota oficial atrapalha o desempenho no exame.
Aliás, se existe o Enem, ultimamente bagunçado e desacreditado, mas que não deixa de ter algum valor pois, pelo menos, habilita os participantes a concorrer por vagas em universidades particulares como bolsistas, para que aplicar o Saresp aos alunos do ensino médio?
Bastaria utilizar o resultado do exame federal para verificar a aprendizagem no Estado de São Paulo. Não haveria despesa alguma para o cofre estadual. O Saresp avaliaria a aprendizagem do ensino fundamental. Afinal, não conta ponto para o aluno.
A razão sempre esteve com os poetas. Comprove nos versos de Carlos Drummont de Andrade: ‘O poeta municipal/ Discute com o poeta estadual/ Qual deles é capaz de bater o poeta federal/ Enquanto isso o poeta federal/ Tira ouro do nariz’.
Antônio Araújo
Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br
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