Passava uns minutos das 8 horas de ontem quando um grupo de cinco homens discutia acaloradamente o empate do Corinthians com o Vitória da Bahia em 1 a 1. “Pra mim ele perdeu o campeonato ali. Já está fora”. A sentença que condena o Corinthians ao vice-campeonato Brasileiro faltando ainda duas rodadas do final da competição partiu daquele que acredita ser o barbeiro vivo mais antigo de Franca, Arlindo Raiz. Aos 82 anos, ele protagoniza todas as segundas e quintas-feiras o mesmo ritual. Detrás das cadeiras originais da década de 30 em sua barbearia na Estação, debate com clientes-amigos os resultados dos jogos de futebol da noite anterior. “Só muda quando é ano de política como este em que estamos. Aí falamos dos candidatos também”, disse Seu Arlindo.
Com tanta conversa, um corte de cabelo que não demoraria mais do que dez minutos leva quase o dobro do tempo. O ritmo mais lento, no entanto, em nada prejudica o trabalho de quem hoje lida com a navalha apenas por gosto. “Já estou aposentado, mas não aguento ficar parado. São 70 anos chegando às 7 horas todos os dias. É o costume da gente”. Natural de Cristais Paulista, o barbeiro lembra que escolheu a profissão aos 13 anos. Sete anos depois, em 1942, se mudou para Franca, cidade que acreditava ser maior e cheia de oportunidades. Uma época em que as ruas eram de terra e da linha da Mogiana para cima (Zona Leste) ainda não havia construções, só mato. “Naquele tempo o povo vinha da roça de trem. Quando parava ali na Mogiana descia aquele monte de gente. E ninguém ia para a cidade, todo mundo fazia compras aqui na Estação”, lembrou ele.
Apesar da idade avançada, mantém os atributos que, de acordo com ele, o tornaram um bom barbeiro: mãos firmes, vista acurada, bons ouvidos e excelente memória. Seu Arlindo marca a passagem do tempo relacionando-o aos prefeitos e às ruas que asfaltaram. “A primeira rua em que se pôs asfalto em Franca foi a General Osório. Na verdade, paralelepípedos. Foram colocados por Antônio Barbosa Filho. Depois, Ismael Alonso y Alonso trouxe calçamento na Rua Voluntários da Franca até a ponte e o Hélio Palermo quando ganhou, atravessou para cá. Aí, ficou a Rua General Telles sem fazer. Foi quando veio Onofre Sebastião Gosuen”. O barbeiro também lembra que a situação do bairro começou a melhorar mesmo em 1955, mas, em compensação, com o fim da Mogiana (em 1976) o movimento foi caindo. “Hoje a Voluntários é uma rua morta na Estação. O Centro dominou”, disse.
Entre as lembranças de Seu Arlindo, a Associação Atlética Francana também tem lugar garantido. Ele descreve lances, enumera jogadores e critica cartolas. É especialmente apaixonado pelo time de 1947. “No gol estava o paraguaio Marreco. Os beques eram Antero e Amauri. Tuti, Tim e Tidão jogavam no meio e Tonho Rosa, Luizinho Rosa e Canhotinho, na linha. Muitos grandes times que vinham jogar até batiam um pouco, mas apanhavam bastante. Porque o time era bom”, lembrou.
CLIENTES ILUSTRES
Seu Arlindo se orgulha de ter cuidado do visual de pessoas importantes da história de Franca, como os prefeitos Flávio Rocha (1960-1963) e Hélio Palermo (1964-1968) e até do ex-governador Ademar de Barros. Os também prefeitos Ismael Alonso y Alonso (1952-1955) e Onofre Sebastião Gosuen (1956-1959) foram fregueses assíduos do Salão Esport. Muitas vezes, no entanto, seus serviços iam além do tradicional trio “barba, cabelo e bigode”. “Fiz campanha para todos eles. Era bom demais. Alonso, por exemplo, entrou e saiu pobre da Prefeitura. Gosuen era ‘do tipo da gente’. E com Ademar, subi no palanque”, disse.
Depois que começa a falar sobre política, Seu Arlindo se anima. Lembra da eleição mais surpreendente que viu na cidade, em 1968. “Os candidatos eram José Lancha Filho e Fábio Meirelles. Quando faltava uma urna só, do Coleginho, o Fábio já começou a festa. Eu era fabista. Fizemos até passeata para comemorar a vitória. Mas foi o Lancha quem ganhou a eleição. Na última urna. Foram 262 votos de diferença. Isso deve fazer uns 35 anos. As ruas já estavam asfaltadas...”
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