Pedra no sapato


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Continua o debate tenso, pesado. Escolas não podem ser fechadas. Esta semana, a OAB se manifestou. Quer ouvir as autoridades responsáveis. Sinal de vida inteligente que fazia falta...

Recebi, em visita, o professor Wagner Campos que muitos contestam e outras tantos aplaudem. Trata-se de profissional que dedicou os melhores anos de sua vida ao ensino de crianças e adolescentes. Criou e praticou pedagogia que deslumbrou e suscitou aplausos e apupos na mesma medida. Tirou estudantes das salas de aulas e levou-os a conviver com a natureza e com a comunidade para aprenderem, na prática, Geografia, História, Matemática, Português e outras ciências, mesmo contrariando métodos e determinações.

Respeito-o. Em sua visita, deixou-me um texto, resultado de anotações em seu caderno de “contas a pagar e a receber” ideias sobre minhas duas últimas colunas e observações pessoais sobre o fechamento de 7 escolas. Li. Concordo com ele. Penso que as observações do experiente professor podem ampliar o debate e, - tomara - estimular autoridades, deputados principalmente, a entrarem na briga. Publico: “Luiz Neto pegou pesado mas com sabedoria. Victor Hugo escreveu: ‘Quem fecha uma escola, abre um presídio’. O Estado ‘presenteou’ Franca com uma Febem (atual CASA), um Recanto do Aconchego, um CDP, uma cadeia feminina. Agora, fala em fechar 7 escolas! O que diria Victor Hugo?

Quem disse ser necessário fechar unidades para municipalizar? Querem ser legalistas? Então municipalizem os dois ciclos do Ensino Fundamental, do 2º ao 9º ano, pois é o que reza a lei: “ensino fundamental com o município; médio com o Estado e superior com a Federação”. Cumprir a lei pela metade é crime!

Franca resistiu 16 anos à municipalização. O poder dominante, institucionalizado ou não, leva vantagem sobre o professorado desunido e omisso. Não se faz educação sem alma. O Estado age assim, com política vertical, de cima para baixo. Desumano! A maioria omissa, medrosa, às vezes, incompetente ao lado de famílias que não se incluem, recebendo tudo como determinismo: ‘não tem jeito, deixa pra lá’. Não concordo. Nada de resignação! Fora com o fatalismo. Se a municipalização vier, que se instaure com transparência, diálogo e sem cinismo pós eleitoral.

Que o governo que sairá em 31 de dezembro assuma que não quer deixar um rabo de foguete para Geraldo Alckmin, esse sim, obcecado pela municipalização, adepto da bandeira do descarte desta ‘coisa’ chamada Ensino Fundamental. Insisto: são dois ciclos, do 2º ao 9º ano!”.

O QUE VEM POR AÍ
Em sabatina no Comércio, Alckmin prometeu mexer na educação e anunciou sua nova bandeira: ressuscitar a Escola da Família (em boa hora extinta por José Serra), a implantação de 3 ciclos no Ensino Fundamental e a escola em período integral em alguns locais. Somando à escola técnica que prometeu, haja prédios! Por aqui, certamente não haverá problemas a partir de 2013.
Já conhecemos as cores destas bandeiras que não resgatam a qualidade de ensino, mas a comunidade estará anestesiada e, enquanto esperançosa e otimista, esquecerá o governo. Alto lá! Em educação não lidamos com ‘coisas’, e sim, com gente! Fechar escola é desrespeitar educadores, educandos, comunidade... É implodir o chamamento, a sensibilidade e o amor ... E sem amor, o saber pedagógico perde sentido. Só há valorização do fazer teórico burocrático, em detrimento do saber teórico prático. Os professores sempre sonharam com duas aposentadorias, como no meu caso de 36 anos no município e 31 anos no Estado. Agora, o campo de atuação diminui e metade do sonho do professor vai para o lixo.
Repito: para distrair o povo, o administrador lança bandeiras. Não perca a conta: (1) Ciclo Básico (governo Montoro), extinto mas embrião da Progressão Continuada; (2) Separação de ciclos, com crianças e adolescentes em prédios separados para viabilizar a municipalização; (3) Escola Padrão (extinta); (4) Progressão Continuada, sem preparar os professores para essa estratégia, cujos cursos afins vieram mais tarde, mas aí, o apelido de promoção automática já se consolidara; (5) Amigos da Escola; (6) Escola da Família (extinta); (7) Bônus escolar; (8) Saresp, avaliação estadual da rede; (9) Cursos Letra e Vida, para ensinar, dois anos depois, a trabalhar com a psicogênese da leitura e da escrita - Progressão Continuada; (10) Municipalização do Ensino Fundamental, lançada em 1995; (11) Concurso interno para aumentar salário (apenas para 20% dos aprovados!); (12) Escolas técnicas. Tudo isso não trouxe melhoria na qualidade de ensino e tão pouco o farão as bandeiras já anunciadas para 2011. São apenas bandeiras para desviar o foco de atenção das famílias. Uma pena!

LUTEM!
Municipalizar não resgata qualidade. O resgate está nas mãos do alfabetizador, educador na acepção do vocábulo. Com ou sem municipalização, lutem, a educação é a única saída. Conscientizem e incluam a família. Somos doutrinadores de opinião, fazemos o ‘parto’ do aluno crítico.
Não se deixem asfixiar pelo poder truculento do Estado autoritário, sempre a burocratizar a mente dos profissionais da educação. Muitos são adeptos do silêncio. A dignidade desse silêncio não encontra eco nos gabinetes frios e insensíveis do Palácio dos Bandeirantes. Não basta o olhar incrédulo ao ler o sentimento de uma quase traição.
Unam-se! Apareçam, façam coro ao que demonstram as matérias produzidas pelo GCN quanto ao fechamento de escolas! O Estado continuará pressionando o Prefeito e vereadores a aprovarem mas eles precisam ouvir a opinião da classe. Se vier mudança de tal porte será irreversível. Então, que seja feita por consciência da maioria e não por discurso fatalista. E que não se fechem escolas, pois os eleitores estarão atentos ao nome de quem assinar o atestado de óbito de alguma escola. Não, subalternos não assinam óbitos: somente o poder maior do Executivo e Legislativo. As crianças de Franca parecem ser uma pedra no sapato do governador eleito Geraldo Alckmin. Com todo o respeito, aos 66 anos e 5 meses de minha vida, assino este desabafo”.

Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br

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