Por Sônia Machiavelli,
Autora de Um Bolsa Grená, Estações, Jantar na Acemira e O Poço
Quando li há muitos anos Trapiá, primeiro e premiado livro de Caio Porfírio Carneiro, fiquei surpresa com a estrutura da obra. Reunião de contos despertava no espírito do leitor, acostumado com as antologias tradicionais, um espanto com o fato de parecer um romance. Caio foi dos primeiros na literatura brasileira a conseguir este efeito de superação ou ultrapassagem de gêneros, criando algo para o qual até hoje não temos uma nomenclatura. Poderíamos dizer que é quase-romance ou quase-novela. Ainda há pouco tempo, relendo-o, me bateu a mesma impressão inicial de novidade, frescor, singularidade.
Agora, apresentada por uma amiga ao recém-lançado Linguagem de Sinais, de Luiz Schwarcz, percebi que ele traz as mesmas características, embora o resultado final deixe Caio anos-luz à frente. Cada conto do livro de Schwartz corresponde aos conceitos de unidade de sentido, com sua forma e seu fundo independentes, no universo que é uma história fechada e autônoma, compreensível por si mesma. Mas quando lidos dentro do todo representado pela organização das histórias, fica nítido que o gênero explicitamente assumido pelo autor e perfilado pelo cânone, ou seja, o conto, amplia-se para assumir um jeito de romance ou novela. Entende-se então perfeitamente quando o autor revela no seu blog que começou o trabalho de que derivou o livro tentando escrever um romance. Como os personagens se multiplicaram e as histórias se confundiram, preferiu abortar grande parte de ambos, escolhendo alguns que comporiam o livro de que se fala. São onze narrativas: Antônia, O síndico, A voz, Quem é?, Kadish, Lições de anatomia, O cobertor xadrez, Pai, Volta ao lar, Murano, Faro. O que acontece para que estes títulos sejam ao mesmo tempo conta e colar?
Em primeiro lugar, o trânsito dos personagens que desaparecem ou se fecham em um conto para reaparecer ou se abrir em outros. Em segundo lugar, a presença de linguagens diferentes que clamam por um entendimento mas frustram o tempo todo os interlocutores. Antônia ensina linguagem de sinais a surdos, é apaixonada por Beethoven (o compositor que perdeu a audição), mas não se comunica com o marido, “parece viver em outro lugar”. O síndico do título homônimo sofre de um tique nervoso que o leva a repetir sempre o final da frase, como se quisesse se entender melhor e ter certeza de que o outro o ouviu. O passageiro do avião não consegue explicar porque quer desembarcar em Faro se seu destino é Lisboa.- e aqui há o agravante da perda de memória explicada por uma doença, Alzheimer. A memória é também outro elemento de unidade por sua recorrência nos contos. Por ela o autor é reconduzido a situações do passado recente e distante, chegando à infância no comovente Pai, onde o narrador analisa a evolução dos gestos contidos, econômicos, quase avaros dos pais no café da manhã ao longo dos anos.
O tema da incomunicabilidade aparece numa das primeiras páginas, de forma explícita. Ao lembrar seus apelidos de criança, o narrador abre parênteses para inserir outra história, esta real. Trata-se da saga do menino francês Victor de l’Aveyron, nascido no fim do século 18 e abandonado numa floresta pela mãe. Sobreviveu ali até os 8 anos, quando foi encontrado por camponeses em estado de afasia. Depois de comentar que Victor, provavelmente surdo de nascença, jamais chegou a aprender a falar, arremata: “Sem linguagem, praticamente não tinha lembrança”. É a linguagem, em sua função de reconhecimento e nomeação do mundo e dos estados de alma, o assunto que sustenta em níveis profundos as narrativas de Linguagem de Sinais.
As onze histórias são contadas num tom que procura nitidamente se afastar do emotivo. O narrador onisciente, às vezes personagem, distancia-se dos dramas que relata, fazendo uso de um discurso articulado no eixo da objetividade, às vezes da frieza. Vicissitudes, artimanhas, dramas diários, morte, solidão são contados com um filtro, o que leva o leitor a ver os sintomas que acometem as criaturas mas não as doenças que os provocam. Sob este aspecto, o da ignorância, desconhecimento ou indiferença por diagnósticos, é uma obra pessimista. O que não quer dizer que não seja uma obra de arte.
EDITOR E ESCRITOR
Luiz Schwarcz
Luiz Schwarcz nasceu em São Paulo em 1956. Em 1979 formou-se em Administração de Empresas na Fundação Getúlio Vargas e foi trabalhar na Editora Brasiliense, onde galgou posições e chegou a diretor. Em 1986, com a mulher Lilian Moritz Schwarcz, fundou a editora Companhia das Letras.
Desde muito cedo manifestou gosto pela literatura. Mas só em 1986 criou ânimo para publicar o primeiro livro, dedicado às crianças: Minha vida de goleiro. O sucesso o incentivou a escrever Em busca do thesouro da juventude, em 2003. A primeira obra de ficção saiu em 2005, Discurso sobre o capim, coletânea de contos. O tema da memória associada à infância já aparece no conto Acapulco, onde um menino se reconhece numa foto que compõe um álbum de viagem. Mas a temática comum a todos é a da impossibilidade de comunicação dos personagens. Traduzido para o francês e o italiano, ganhou um admirador importante, Alberto Manguel. Outro leitor célebre foi o jornalista e escritor Tomás Eloy Martinez, o primeiro a conhecer os originais de Linguagem de sinais e reconhecer as qualidades literárias do livro, incentivando o autor a publicar.
Indagado sobre escritores que o influenciaram, Schwarcz destaca Oliver Sacks, como ele interessado nos temas relacionados ao isolamento do ser humano. Também gosta muito de Jorge Luiz Borges.
Serviço
Título: Linguagem de sinais
Autor: Luiz Schwarcz
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 104
Preço: R$ 33,00
Onde comprar: nas livrarias da cidade ou pela internet
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