Cinema


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Por Mauro Ferreira, 

Arquiteto, professor e escritor

Sempre gostei de cinema. Na infância e adolescência, o cinema competia com o prazer de ler e de jogar futebol entre minhas diversões. Entrar naquela caverna escura (geralmente cheirando a mofo) dos cinemas de Franca era sempre um encantamento, ver filmes em preto e branco de cowboy, da II Guerra Mundial, da Sarita Montiel, da Marisol, as chanchadas nacionais da Atlântida com o Zé Trindade, Oscarito e Grande Otelo, o cinema mudo d´O Gordo e o Magro e do Chaplin, comédias italianas. Lembrei disso porque, ao assistir o vídeo de um concerto com valsas de Strauss regido pelo maestro Zubin Mehta, percebi que o palco da orquestra havia sido montado no palácio de Schonbrun em Viena, onde estive em 1994 para ter o prazer emocionado de passear em suas aléias ajardinadas. Era o palácio de Sissi, a Imperatriz, filme com a linda Romy Schneider que minha mãe me levou para assistir no cine Avenida, numa longínqua e abafada noite do início dos anos 60.

O cine Avenida ainda era novo em folha. Como chegamos cedo e não havia o que fazer, fiquei lendo um exemplar do Mensageiro de Santa Rita, um informativo católico que minha mãe assinava que era feito na Capelinha. Ele tinha mais propaganda que texto, o frei Custódio se encarregava de rechear suas páginas com muitos anúncios para bancar sua impressão. Havia pouca coisa para crianças, assuntos religiosos para adultos dominavam a revista, motivo pelo qual logo me distraí e passei a admirar, com espanto, o gigantesco painel pintado pelo artista Bassano Vaccarini na parede do cine Avenida, aquela onde ficavam pequenos furos quadrados para o projetor.

Era um painel sobre o café, o maior afresco mural já feito em Franca. Nunca mais houve outro daquele tamanho. O artista, um italiano que veio para o Brasil após a II Guerra Mundial e se fixou em Ribeirão Preto, já havia pintado dois painéis para o mercado da cidade a pedido do prefeito Onofre Gosuen (já demolido, claro, pelo governo Sidnei Rocha, aquele que não preserva o passado). Vaccarini assumiu uma posição de destaque na arte regional, pelo seu vanguardismo. Sua obra é reconhecida e esparramou-se pela região. Infelizmente, além dos dois painéis demolidos, o do cine Avenida foi recoberto com tinta quando o cinema fechou e virou igreja. Ou seja, de Vaccarini, não sobrou nenhuma obra pública em Franca. É a mesma coisa que vai acontecendo com a obra muralista de Salles Dounner. Nada restará.

Os cinemas de rua em Franca acabaram, tragados pela televisão e pelas mudanças sociais que levaram os espaços públicos da cidade serem substituídos em parte pela assepsia e monotonia dos shoppings. Não importa, na minha memória o painel de Vaccarini ainda existe e, espero, chegará o dia em que a preservação do patrimônio cultural da cidade seja uma prioridade da sua população e do seu governo.

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