Olhe pra mim


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Por Antonio Coutinho,

Jornalista, escritor, autor de Contos Irreverentes; Mude o Canal, Coração; Sorria, Monalisa; Couro Cru

 

-Dê um tempo, filho. Fique. Vá quando estiver preparado.

- Não agüento mais aqui, não suporto, não aguento.

- Não jogue tudo pra cima, querido. Faltam só três anos pra terminar sua faculdade, são só três anos pra ter uma profissão, pra começar uma vida diferente da minha. Meu bem, olhe pra mim!

- Vou ter, mãe, vou ser, não se preocupe. Não é o fim do mundo, se atrasar um tempo. O que muda? Ele vai continuar redondo e achatado nas bordas.

- Não brinca, é sério.

- Eu preciso, eu quero ir.

- E vai viver como? O dinheiro que tem dá pra um mês, mesmo morando em pensão de rodoviária.

- Me viro.

- Se virar como, Jesus Cristo!, se não sabe lavar a cueca que usa?

- Sem drama, até parece que fui convocado pela Guarda Nacional para combater o narcotráfico, caramba!

- Você só tem 19 anos. Preste atenção: você só tem 19 anos. Seu lugar é aqui, por enquanto. Entenda: por enquanto. Querido, você não se vê. Olhe-se no espelho. Você ainda é criança. Olha, olha...

- Calma, dona Maria, calma. Me abraça. Calma. Mãe, a senhora sempre me disse que desgosto mata, mais rápido que facada na barriga; semp...

- Facada no coração.

- Isso. Sempre disse que o poder da pobreza é a facilidade da mudança, não precisa pensar duas vezes (se nada deixa); sempre disse que a vida é uma só, mas sabendo usar ela se multiplica; sempre disse...

- Você entendeu errado. A vida não é como entrar num supermercado, coisa e tal. A vida... Eu falei tudo isso que você disse, amorzinho?

- Mãe, não chore. Olhe pra mim, olha.

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