Luta pela liberdade


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Uma das cenas capturadas pelo fotógrafo quando esteve na África do Sul entre os meses de abril e julho.
Uma das cenas capturadas pelo fotógrafo quando esteve na África do Sul entre os meses de abril e julho.

Por Marcos Limonti

Desde 2003, comemora-se em 20 de novembro, no Brasil, o dia Nacional da Consciência Negra. Desde que foi aprovada a lei, as escolas passaram a ter a obrigatoriedade de ensinar história e cultura Afro-Brasileira e africana, além da luta dos negros no Brasil e o negro na formação da sociedade nacional. Porém, a existência desta data visa mesmo lembrar a resistência do negro à escravidão e nos fazer refletir sobre a importância do negro em nossa sociedade. Por exemplo, em todo o país, movimentos negros, universidades e instituições organizam palestras e eventos educativos em homenagem a este dia. Em Franca, o Instituto Praxis de Educação e Cultura exibirá em sua sede o filme “Besouro” e realizará várias atividades durante o dia todo, como palestra, dança e teatro.

Toda vez que pensamos em luta por liberdade, nos lembramos do apartheid e da África do Sul, país que sediou a última Copa do Mundo de futebol da FIFA. Apesar de Brasil e África do Sul terem histórias semelhantes no que se refere ao preconceito, na terra de Mandela nenhum negro embarcou em nenhum navio para ser escravizado do outro lado do continente africano. Ao contrário, sofreram dentro de seu próprio país, injustiças raciais, preconceito, maus tratos e exclusão.

Pode-se dizer que tudo começou quando o português Bartolomeu Dias dobrou o Cabo da Boa Esperança em 1497 dando abertura para que os europeus chegassem à África do Sul. A região foi então povoada nos anos seguintes por holandeses, franceses, ingleses e alemães. Os descendentes dessa minoria branca começaram a explorar os recursos naturais e a criar leis, que garantiam o seu poder sobre a população negra local. O que conhecemos, portanto, como apartheid, foi a política de segregação racial, um dos regimes de discriminação mais cruéis no mundo, no qual os negros sul-africanos eram controlados pela minoria branca do país, descendente desses europeus.

Foram 42 anos de controle da minoria branca sobre os negros, que não tinham direito de participação na política e eram obrigados a viver em residências separadas das zonas dos brancos, dando início às township. “Se você vivesse em uma província fora de Joanesburgo, como Soweto (maior township sul-africana), você tinha que ter uma permissão para trabalhar. Se você fosse encontrado no lugar errado, depois do horário, apanhava e ia preso. O que se esperava de você era que fosse trabalhar na parte branca da cidade e depois do trabalho voltasse”, relata o sul-africano Johaness, 46 anos, morador de Soweto e pai de sete filhos. A maioria dos negros trabalhava nas minas, comandados por capatazes brancos e viviam em situações precárias nas township, sem água, saneamento básico, energia, educação, lazer e pouca alimentação. Em 1945, até o casamento entre branco e negro também se tornou ilegal.

Com o passar dos anos, a população negra começou a se revoltar contra o regime do apartheid e é neste contexto que surge a figura de Nelson Mandela, condenado à prisão perpétua em 1962, acusado de terrorismo, sem nunca ter apoiado a luta armada. Isso durou até 1991, quando houve a intervenção da comunidade internacional e da Organização das Nações Unidas (ONU), levando o então presidente Frederick de Klerk a condenar oficialmente o apartheid, libertando presos políticos da Robben Island, entre eles, Nelson Mandela.

Após sua libertação, Mandela se tornou o primeiro presidente negro na África do Sul (1994) colocando fim ao regime da segregação racional, utilizando, como símbolo de união, a entrega do troféu de campeão do mundo para o capitão da seleção sul-africana de rúgbi no estádio Soccer City, onde também foi realizada este ano a abertura e final da Copa do Mundo de Futebol.

Entretanto, após quinze anos de liberdade, o sul-africano negro ainda sofre com os problemas herdados por essa triste época: as township estão espalhadas por todas as partes do país e nas mesmas condições de anos atrás. O governo vem trabalhando para diminuir a desigualdade entre brancos e negros ao incluir o negro no mercado de trabalho, por meio de incentivo às empresas e oferecendo uma educação melhor para todas as crianças africanas.

Mesmo tendo este pesado passado, a África do Sul tem outras facetas. O turismo, por exemplo, é parte importante da economia sul-africana atualmente. As maiores atrações são as reservas de animais, os estádios da Copa, a Robben Island e a Table Mountain na Cidade do Cabo, considerada uma entre as dez mais belas cidades do mundo. Além disso, a África do Sul também se destaca na mineração e na produção de vinhos, ficando entre os cinco maiores produtores mundiais.

Parece evidente que o pós-Copa na terra de Nelson Mandela tenha renovado a autoconfiança da nação sul-africana e mudado a imagem criada do país no exterior, pois, o governo sul-africano, mesmo desconfiado pelos europeus, cumpriu a tarefa de organizar o maior evento esportivo do mundo. Por isso, a nação negra sul-africana é quem merece o troféu de campeã, pois deu uma lição ao mundo com seu comportamento atencioso, educado e alegre, cumprindo o papel de mostrar aos estrangeiros o que de melhor o país tem a oferecer.

Por fim, a humanidade, enredo da festa de abertura da Copa, foi a grande celebração durante os 31 dias do evento, num país onde a diversidade cultural é grande, fundamentalmente pelas 11 línguas oficiais, pois todos parecem utilizar a linguagem da união. Mais do que isso, os sul-africanos mostraram ao mundo que brancos e negros podem viver juntos e trabalhar com o mesmo objetivo, como irmãos. Ou seja, o Brasil, sede da próxima Copa do Mundo, tem o que aprender com a África do Sul. Não só infraestrutura, mas também humanidade.
 

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