É bem provável que estejamos, pela primeira vez na história da humanidade, presenciando discussão que certamente resultará em transformações profundas na política monetária internacional. É certo, também, que não há possibilidade alguma de precisarmos o tempo que isso demandará e, muito menos, qual a forma e consequências dessas transformações.
O atual fluxo de recursos financeiros (e especulativos) presente nos mercados emergentes foi o principal ponto da discussão da reunião do G-20 (grupo formado pelas maiores economias mundiais e que tem a finalidade de tratar de assuntos financeiros internacionais) realizada semana passada na Coréia do Sul. Infelizmente, o resultado desse encontro sugere, em um primeiro momento, agravamento das atuais tensões monetárias porque o seu relativo insucesso fatalmente levará os Estados nacionais a produzirem políticas internas que comprometerão, com consequências ainda não previsíveis, retrocesso no livre comércio internacional com a adoção crescente de medidas protecionistas. De concreto, apenas o sinal verde dado aos países para que adotem medidas de controle desse fluxo de capital que tem levado suas moedas a se supervalorizarem.
Esse cenário internacional, diferente da grande crise de 1929 que também teve origem cambial e monetária, envolve interesses de todos os países do mundo. É consenso entre os economistas que a atual crise financeira e monetária é resultado da falência do modelo adotado no grande acordo de Bretton Woods, que teve a supremacia e a hegemonia econômica americana como determinante na adoção do dólar como moeda padrão internacional. Agora, os países estocam essa moeda e seu emissor, os EUA, detém o mais alto déficit financeiro proporcional do mundo.
O imbróglio que envolve a discussão por uma nova ordem monetária internacional, a guerra cambial, o maléfico capital especulativo, as políticas protecionistas que ressurgem e outros temas pertencentes a globalização econômica e financeira estará, nos próximos anos, no foco das preocupações da Presidente Dilma.
Importante destacar que traçar políticas que garantam a continuidade do crescimento que o Brasil tem experimentado ao longo dos últimos anos e que pavimente os investimentos públicos e privados necessários no curto e médio período da nossa história futura deverá ser resultado de uma ação coletiva que reflita o Brasil como um todo. Sabemos que equilibrar o câmbio no Brasil, e no mundo, depende de ações concretas a serem efetivadas pelas maiores economias mundiais.
Entretanto, nossa política econômica contribui para o desequilíbrio cambial nacional. Isso fica evidente na manutenção ortodoxa de uma das maiores taxas de juros do mundo que levou o Brasil a se tornar rota preferencial dos especuladores, contribuindo para a desvalorização do dólar frente ao real. Além de intervir na taxa de juros, a Presidente Dilma terá que efetivamente trabalhar uma reforma tributária que desonere a produção e aumente a nossa competitividade. Essas devem ser as razões para uma ação governamental consequente e não o atual discurso equivocado e oportunista de uma possível desindustrialização brasileira.
Cassiano Pimentel
Agente de exportação e professor universitário
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