Marcas de família...


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Família é uma instituição, no mínimo, curiosa. Uma vez estávamos os quatro irmãos sentados na varanda, espinafrando mamãe. No bom sentido, claro. Que filho não fala mal da mãe?

Reclamávamos dela nas suas intermináveis e absurdas exigências; comentávamos da sua insaciável fome de mais e mais atenção; que ela não tinha a santa paciência de esperar por nada: era reivindicar e esperar na porta, sem dar tempo nem da gente voltar do shopping ou do supermercado ou da dona Melica, onde ela teria caderneta de lista de compras, de tão antiga era sua fidelidade com a loja. Bom, mas nesse tempo mamãe era viva, tínhamos absoluta certeza que ela seria eterna. Hoje, lá se vão bons anos, nossos filhos é que ocupam as cadeiras da varanda, com certeza espinafrando as mães deles. Injustamente, claro.

De uma outra vez, exercitávamos as queixas quando um dos agregados se juntou ao grupo e assim, sem mais nem menos, juntou às nossas sua própria voz de protesto, contra nossa sagrada mãe. Foi um desses momentos que só um filme consegue mostrar: de repente nós nos calamos, ficamos olhando fixamente para ele. Ele se mancou, se calou. Aí nós quatro falamos ao mesmo tempo: ‘A mãe é sua?’ Ele, muito espantado, disse um ‘Não!’ bem espremido. E nós falamos, uma frase cada um, como se tivéssemos combinado: ‘Então, meu caro, escute e fique quieto, se não quiser que a gente fale da sua, quando surgir a oportunidade. A mãe é nossa, só nós temos o direito de malhá-la...’ . Demos boas risadas depois disso. Até mamãe ficou sabendo e, claro, defendia o genro das minhas investidas malcriadas, das minhas respostas atravessadas. Dava-lhe pedaço extra do bolo lambuzado de chocolate, que naquele tempo ainda não era politicamente incorreto, provas de que famílias são instituições, no mínimo, curiosas.

Você tem primos, primas, tios e tias, avôs e avós. Um sistema de parentesco ocidental até simples, diante da perplexidade e complexidade do ser humano. Mesmo bisavô, mesma bisavó. Lá pelos tantos descendentes, uma prima herda o nome da bisavó: Rosa (La Greca); um primo herda o nome do bisavô: Vittantonio, que acabou virando José Victor. E, nem sequer sei o motivo, esses dois primos me foram particularmente especiais - uma hipótese plausível é porque me remetiam às minhas origens familiares. Dias atrás escrevi sobre o primogênito de Norma e Benedito Maníglia, irmão de Nicola Maníglia, meu avô. Falei de Jayter e seu gesto magnânimo de doação para a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, repetido aqui em Franca, depois me contaram. Logo depois fui rever meu primo em casa de sua irmã. Não encontrei seus outros irmãos, nem José Victor, mas até combinamos de nos reencontrarmos num futuro próximo. Naquela noite rimos muito das várias semelhanças entre os descendentes de Vittantonio e Rosa La Greca. Os que são muito altos, destoam. Os que são muito gordos, desafinam. Os que são muito magros, saem do tom. Somos de altura média, ficamos no meio da balança, temos olhos claros, orelhas abanadas, cabelos claros: e depois veem me falar da força da genética? Ora pois! Geniosos? Um pouquinho: não sabemos perdoar com facilidade, somos explosivos, caímos numa mudez incômoda (para os outros) quando nos cobram algum posicionamento. Podem contar conosco se damos nossa palavra. Sabemos manter distância se nos desagradam. Quando nos reunimos, os de longe podem achar que estamos brigando mas estamos apenas falando alto, gesticulando, demonstrando nossa alegria. De nossos males, falamos alto; de nossos desafetos, baixo.

Dizia, famílias são engraçadas, bizarras e curiosas. Particularmente tenho um orgulho danado da minha. Estou casada há mais tempo que assinei meu sobrenome de solteira, dado por meu pai. Já devia me sentir mais, em termos de nomenclatura, acostumada com o sobrenome do meu marido. Mas isso não aconteceu. Bato o pé, querendo o meu de origem. Reconheço o gênio forte dos meus parentes; percebo meu estopim curtinho da tolerância com os erros dos outros; mas já sei fazer análise dos meus defeitos e sei o quanto é profunda minha capacidade de amar as pessoas. Meus consanguíneos, principalmente. Famílias não são perfeitas. São engraçadas, bizarras, curiosas e é onde a gente aprende a amar uns aos outros ... do jeito que os outros são. Adoro minha família. A de origem e a que formei com base nos defeitos e qualidades que herdei.

PRAGA
Contratei um taxi para me transportar. Fui a quatro lugares, demorei pouco tempo. O que é combinado não é caro. Não combinei, fui assaltada. O motorista fez este cálculo: ‘Foram quatro corridas, são quarenta e oito reais. Mais o tempo que eu esperei, você me deve sessenta reais’. Paguei mas roguei-lhe uma praga: na vida real, dinheiro que entra fácil, sai difícil. Só no governo que não.

ANIVERSÁRIO
Lucas Maníglia Brigagão Perry vai completar 4 anos dia 1º de dezembro de 2010. Ele mora longe, suas primas – Luísa, Maria Fernanda, Clara e Marina – não estarão presentes em Londres no dia do aniversário. Como só há um dia de aniversário, vamos celebrar a data num dia de desaniversário... Nada por nada, os 22 graus no novembro francano causam um bem estar maior que os 2 graus negativos londrinos da mesma época.

BEM
‘Se cheguei onde cheguei e consegui fazer tudo o que fiz, foi porque tive a oportunidade de crescer bem, num bom ambiente familiar, de viver bem, sem problemas econômicos e de ser orientado no caminho certo nos momentos decisivos de minha vida’ (Ayrton Senna).

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br

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