Carta para o além


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Hoje tem reunião na Câmara Municipal. Por ser excepcionalmente o primeiro dia da semana, devido ao feriado de ontem para comemorar a Proclamação da República, a pauta não será muito extensa ou controversa.

Mesmo antes de 15 de novembro de 1889, época em que imperava a Monarquia no Brasil, já havia reunião de vereadores. O cargo não nasceu com a implantação da República. Na era imperial, toda comarca tinha edilidade para legislar e fiscalizar os atos do intendente, que era nomeado pelo rei com a finalidade de administrar o município.

Não importa a época, seja vereador monarquista ou republicano, a pauta de trabalho mantém semelhança. No tempo de D. Pedro II, a Câmara do Rio de Janeiro quase pegou fogo por causa da votação para dar nome a um hospital psiquiátrico. Por fim, a denominação ficou sendo Casa Verde. Depois, até edil acabou internado nela para recuperação mental.

A preocupação atual dos vereadores também está na denominação do futuro prédio da área de saúde. O prefeito quer um nome para o futuro pronto-socorro. Parte dos edis não concorda com a proposta. Alega que imóvel para atendimento emergencial deve continuar a ser chamado de Dr. Janjão. E, com isso, haja requerimento viabilizando o assunto relevante.

Os vereadores também estão inquietos com a prevenção de doenças. Um deles acha um descalabro para a saúde médico usar jaleco branco fora do consultório ou do hospital. Em vista disso, apresentou requerimento propondo a proibição da vestimenta em locais que não sejam de atuação do profissional. O presidente da Câmara não deve ter gostado da ideia!

Boa ideia não falta entre os vereadores. Depois de liberar o uso de bebida alcoólica no recinto da Câmara descobriram logo um jeito de matar dois coelhos com uma só cajadada.

Sem ler (e ainda aplicaram teste de leitura ao Tiririca, se edil não lê, deputado também não precisa ler!) o requerimento apresentado, aprovaram homenagem a todos os vereadores que já passaram pela legislatura.

Trata-se de excelente projeto. Por ocasião da entrega do diploma de honra ao mérito para o ex-vereador haverá a inauguração da placa comemorativa fixada nas paredes da Câmara e pode-se servir um coquetel (oba!). No caso de ex-colegas mortos, os familiares estarão presentes e serão gratos na próxima eleição. Dupla comemoração: bebida presente e voto futuro!

Isso se não acontecesse de um ex-vereador já ter morrido e o ofício-convite para a homenagem fosse enviado a ele mesmo. Parentes não saberiam como honrar o convite.

Na eleição municipal passada teve vereador que enviou carta pedindo voto a eleitor morto há mais de 20 anos. A viúva ficou sem saber o que fazer. Rasgar a correspondência, devolver ao remetente ou reenviar para o além?

Antônio Araújo
Professor de redação – tonin.palavras@uol.com.br

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