Mergulho na mina


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Todos nos emocionamos com o relato dos mineiros chilenos que ficaram presos por 69 dias, soterrados na mina em que trabalhavam. A situação extremamente constritiva e angustiosa que viviam só foi descoberta 13 dias após o soterramento. Eram 33 almas humanas a experimentarem quase completa ausência de chance de sobrevivência. Felizmente, tudo terminou muito bem, sem perda de uma única vida.

Por que foram soterrados? Por que tanta aflição aparentemente imerecida, atingindo homens em seu trabalho digno e honesto, que – diga-se –, por si mesmo já impunha sofrimento? Sabemos, com a Doutrina Espírita, que nada acontece que não seja em decorrência da Lei de Deus, sempre misericordiosa e justa. Se os 33 mineiros tiveram que enfrentar tal situação é porque precisavam ser testados, diríamos melhor, provados, segundo a maneira como vinham usando o seu livre-arbítrio ao longo das vidas sucessivas. É como que uma mola providencial a empurrar a alma rumo à evolução moral.

O soterramento pode ter caráter simbólico. Pode representar uma ‘morte’ momentânea mas consciente o bastante das circunstâncias que a caracterizam para suscitar as reflexões necessárias. Pode representar um longo sonho, tanto quanto pode sugerir uma necessidade de convivência em grupo restrito, com débitos coletivos a requererem ajustes. Pode, ainda, significar um momento de introspecção.

Seja qual for a causa, trata-se de valiosa oportunidade de análise, de meditação, de reflexão. Este mergulho na mina é um convite para que façamos, tanto quanto possível, um mergulho na nossa individualidade. Ali, sem máscaras ou convenções, reside o nosso verdadeiro ‘eu’, o ‘self’ da psicologia.

Quantos de nós, na azáfama da vida, vamos nos levando de roldão sem uma pausa para a meditação? Quantos não nos deixamos levar pelas exterioridades da existência e, de repente, vemo-nos cada vez mais exteriorizados, sem vínculos com o nosso verdadeiro ‘eu’? É por isso que devemos fazer o mergulho dentro de nós mesmos. Por isso, é que nos cumpre verificar onde estão as nossas falhas de caráter, de sentimento, de ação positiva. E, de posse da relação das nossas falhas, trabalhemos para burilarmo-nos, convenientemente. É para o que nos convida Santo Agostinho na resposta que apresenta à questão número 919 de O Livro dos Espíritos, quando afirma: ‘um sábio da antiguidade já vos disse: Conhece-te a ti mesmo’. Esta mensagem é um convite a que mergulhemos na nossa ‘mina’ interior, no nosso verdadeiro ‘eu’, para aí encontrar a Essência Divina de que somos criados. Essa essência nos dirá dos atos que devemos praticar a fim de conquistar a nossa evolução. E não há enganos, subterfúgios, ilusões, porque estamos diante de nós mesmos, da nossa consciência. Daí porque indispensável este mergulho – se possível, diário – na nossa mina interior.

Verificaremos nossos erros e os prejuízos que causamos. Cabe, em seguida, o esforço de procurar os que prejudicamos para os devidos acertos. Cabe tomar a decisão de pautar a nossa existência pela possível retidão que possamos imprimir aos nossos passos. Aí, sairemos da ‘mina’ para a vida gloriosa da evolução.

Felipe Salomão
Diretor do Instituto de Divulgação Espírita de Franca (IDEFRAN)

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