O ângulo sob o qual abordei ‘fechamento de escolas’ sábado passado, suscitou dezenas de comentários de pais, professores, alunos, mas nenhum de autoridade de qualquer nível (leia em http://www.gcn.net.br/jornal/index.php?codigo=111589)
É assim mesmo. Autoridades políticas que efetivamente façam diferença em debates que interessem à população são raras. A maioria prefere enfiar a cabeça na terra, como o avestruz, quando a coisa fica ameaçadora. Estão no Executivo, no Legislativo e também no Judiciário.
O povo, sempre isolado, perdeu a noção de sua força. É chamado de dois em dois anos para votar e escolher representantes. Vai à urna obrigado, deposita lá uma escolha qualquer e, fora da obrigação, também enfia a cabeça no chão, pelo menos até que algo aconteça.
Fechamento de escolas, a exemplo. Uma espécie de dedo na tomada. Tem pais de cabelo arrepiado por causa do anúncio da dirigente regional de ensino, Ivani Marchesi, sobre “7 escolas que fecham até 2013 ou 2014”. Não. Não é por preocupação de cidadania. É, isto sim, por perder a tranquilidade de saber o filho estudante perto de casa; ou, sem escola pública e gratuita, preocupação com gastos que terá de enfrentar.
Fosse por cidadania, teríamos a matéria prima de fomento a movimentos adequados, capazes de forçar os agentes políticos a explicarem, em detalhes, o que significa esse negócio de “fechar escolas e abrir presídios”. Ou então, contar, tin tin por tin tin sobre as razões que remetem governos a empurrarem goela abaixo dos municípios, suas obrigações constitucionais com a Educação.
O problema é que cidadania foi parar no “sexto arquivo”, popularmente conhecido por lixo. Está em voga, cada vez mais, o conceito individualista do “eu sou eu e o resto é bosta”. Se caminho pela calçada, os outros que se desviem, que se virem. Neste mundo vaidoso do “quem gosta de mim sou eu”, reunir gente para brigar por causas públicas é quase impossível. O (mau) político gosta disso. Ninguém, com voz de multidão, vai incomodá-lo.
Bem. Tá dito de novo. A municipalização do ensino fundamental é programa de governo. Vai acontecer. Se ninguém copiar o exemplo das professores da Escola Estadual “Josephina Zinni Almada” (leia em http://www.gcn.net.br/jornal/ index.php?codigo=112052) que, mesmo se expondo a levar um pito de Dona Ivani, estão colhendo assinaturas para levar o assunto à Promotoria Pública, nada restará a ser feito.
O segredo é ampliar o debate. Por enquanto, a Prefeitura tem se mantido à distância do imbróglio mas chegará o tempo em que o prefeito Sidnei Rocha terá que se posicionar para valer sobre abraçar as escolas fundamentais do 1º ao 5º ano que o Estado quer cuspir para longe de si, em golpe definitivo contra a formação de cidadãos minimamente informados. Perderá, certamente, os parcos fios de cabelo que lhe restam. Não o invejo!
TEM MAIS
O Estado vinha indicando, desde muito tempo, que pretendia deixar essa “coisa de educação” para lá. Afinal, gente com pouca ou nenhuma escolaridade vai para o mercado informal e exige menos formação e menos preocupação financeira. O assunto, demonstrei no texto de sábado passado. Também em função disso professores mal remunerados e despreparados – seria outra estratégia para arrebentar com tudo? – estão fazendo, em sala de aula, o outro lado do jogo: leiam os bilhetes que escrevem para os pais, nos cadernos de seus aluninhos. Há erros de concordância (uau!), de ortografia (credo!), de sentido, de má escolha de palavras. Pais antenados, ao observarem tais derrapões vão à escola, tentando entender. Alguns são recebidos com paus e pedras. Há outros que, incomodados, tiram seus filhotes e levam para outras escolas. Afinal, a alfabetização é o momento mais importante da vida da criança. (Está claro que não são todos os professores, nem todas as escolas. Segundo pais que não se preocupam com escola e nem com seus filhos, o que fazem os “tios” e “tias” em sala de aula “é problema deles e não é nosso”.
O FUTURO
Agradeço aos professores que tive, alguns deles me obrigando a escrever cem vezes algumas palavras que eu, costumeiramente, escrevia errado. Eu os via como bravos, exigentes. E eu os respeitava apesar de puxarem minhas orelhas. Mesmo nas raivas momentâneas, jamais pensei em agredi-los ou matá-los. Com seus ganhos, meus professores trocavam de carro todo ano. Havia médicos, empresários, juízes e profissionais liberais entre eles e o salário que recebiam era um eterno convite a que se dedicassem só à Educação. Hoje, não. Há um punhado de guerreiros que ensinam apesar de tudo, submetidos a experiências desnecessárias criadas por burocratas de gabinete. Há professores que fazem do ato de ensinar, um sacerdócio mas é só o que ainda os compara àqueles antigos mestres. O resto, está nas mãos de agentes políticos preocupados em economizar o dinheiro da Educação, o único dinheiro que jamais poderia deixar de ser gasto. Estará nos presídios o nosso futuro?
Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br
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