Preconceito


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Analisando os fragmentos do processo eleitoral recém terminado, observo dois temas intrínsecos ao momento econômico e político brasileiro que guardam uma relação contraditória entre si: o aumento do poder aquisitivo das classes C e D e o discurso raivoso desenvolvido na campanha do PSDB que, de forma eloquente, dividiu o Brasil entre pobres e analfabetos do Norte/Nordeste e ricos e alfabetizados do Sul/Sudeste. Esse segundo tema está bem nítido em diversos artigos publicados na mídia tucana e, também, em blogs, twitter e e-mails que circulam pela Internet.

A realidade da inserção no mercado de consumo das classes C e D levou esses segmentos a serem responsáveis por 76% das compras brasileiras. O Ministério da Fazenda, na publicação Economia Brasileira em Perspectiva, informa que em 2010 a classe C já é de 103 milhões de brasileiros e que desde 2002 (primeiro ano do governo Lula) 25 milhões de brasileiros foram incluídos nesse segmento. Informa, ainda, que a classe E (mais pobre) cairá até 2014 dos atuais 28% (49 milhões) da população para 8% (16 milhões) e que os cidadãos da classe A (os de melhor renda) passarão de 8% (13 milhões) para 16% (31 milhões).

A justificativa técnica para essa ascensão econômica do brasileiro é o aumento salarial, a geração de mais empregos e programas como o Bolsa Família, que transfere renda para a população. Portanto, contrariando seus críticos elitistas, foram as classes C e D responsáveis em tirar o Brasil da crise financeira internacional, porque o seu aumento salarial e a renda obtida a partir do Bolsa Família vão diretamente para a base da economia nacional, ou seja, faz com que a máquina do mercado gire e alimente a indústria e o comércio brasileiros.

O outro tema, resultante da campanha eleitoral, trouxe um discurso divisionista no Brasil. Pela primeira vez na história, um grupo político repercute na mídia e na Internet um preconceito social ao culpar os nordestinos pela vitória da Dilma. Aliás, afirmação desbancada pelos números, pois a Dilma seria eleita mesmo com os votos só do sul e do sudeste (29,7 milhões para a Dilma contra 29,4 milhões do Serra). O candidato Serra, por várias vezes, deixou implícito em seus discursos essa questão preconceituosa da elite paulista e isso ficou evidente, também, em manifestações de importantes lideres do PSDB como, por exemplo, do Xico Graziano que deu um tom pejorativo na sua critica sobre a vitória ‘nordestina’ da Dilma no estado de Minas Gerais.

A relação contraditória existente entre esses dois fatos é que parte da indústria das regiões sul e sudeste depende, no mercado interno, desse aumento do poder aquisitivo da região nordeste. Irônico, não? Enquanto o País cresce em média 4% ao ano, o nordeste cresce de 8 a 9%. Muitas empresas (inclusive de Franca) canalizam de 70 a 80% da sua produção para o nordeste.

Assim, a elite sulista (culta, cosmopolita, rica e de biótipo europeu) gosta de vender para o nordeste e fazer turismo nas suas bucólicas praias, mas detesta que o nordestino atrapalhe seus planos e projetos políticos. Só esqueceram um fato, conforme diz o professor Durval Albuquerque Jr., autor do livro Preconceito contra a Origem Geográfica e de Lugar, ‘não se votou em Dilma no Nordeste porque se sente fome, e sim porque o governo fez o povo comer’.

Cassiano Pimentel
Agente de exportação e professor universitário

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