Sempre que é possível e logo pela manhã, passo em uma padaria próxima da minha casa para tomar um pingado e comer um pão com manteiga antes de ir para o batente. Encontro sempre um grupo de amigos para um rápido bate papo. São empresários, profissionais liberais e representantes comerciais.
Conversa-se de tudo um pouco. Política, futebol, casos pitorescos novos e antigos. Conta-se uma boa piada e dá-se uma rápida olhada nas manchetes dos principais jornais que circulam pela cidade. Em seguida, vamos todos trabalhar mais leves e felizes.
Observo, porém, que vamos todos para o trabalho com uma vontade imensa de continuar um pouco mais com aquele bate-papo descontraído, com aquela confraternização matinal que funciona como um verdadeiro carregador das nossas baterias físicas e emocionais.
O psiquiatra Augusto Cury, em sua obra Dez leis para ser feliz publicada pela Editora Sextante, inclui entre as regras a serem observadas para se ter uma vida mais feliz, ‘Fazer coisas fora da agenda’. Segundo o festejado psiquiatra e escritor, ‘Fazer coisas fora da agenda é fazer coisas inesperadas, romper a rotina, quebrar a mesmice. É gastar tempo com aquilo que lhe dá lucro emocional e não financeiro. É ter um caso de amor com a vida’.
Pensei, comigo mesmo: será que o criador, quando concebeu o ser humano coroa da sua criação, imaginou que nos tornaríamos uma máquina de trabalhar e de assumir compromissos?
Conheço pessoas – e não são poucas – que são verdadeiros escravos do celular. Não desligam o aparelho em lugar algum. Nem para o necessário repouso. Vão à escola, ao culto religioso, ao cinema, ao teatro, ao velório e a todos os lugares, sempre com ele ligado. Penso que gente assim não tem senso do ridículo. Vive uma rotina estafante, não aprecia um bom diálogo. Vive escondida dentro de si mesma. Atarefada.
Confesso que tenho desesperadamente tentado, algumas vezes sem sucesso, mudar um pouco dessa rotina.
Tenho procurado estabelecer para mim um tempo para realizar coisas que não me proporcionarão qualquer resultado financeiro, mas muitos dividendos emocionais. Visitar parentes e amigos. Jogar conversa fora, falar das coisas da minha terra e da minha infância, relembrar pessoas amigas que foram e que ainda são importantes na minha vida. Exercitar a generosidade desinteressada. Tentar ser mais tolerante com os outros e comigo mesmo. Ser mais fraterno, solidário, receptivo e de alto astral. Enfim, tentar fazer da vida a verdadeira arte da convivência e do encontro e, principalmente, perdoar quantas vezes forem necessárias.
Também, tentar, dentro do que é possível em um planeta com tantas desigualdades, ser feliz, agradecendo diariamente ao criador a graça de estar vivo e em condições de gerenciar o próprio destino.
Reconheço que não são tarefas fáceis, porém, não custa tentar.
Lembro sempre da recomendação de Chico Xavier: ‘Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora a fazer um novo fim’.
Setímio Salerno Miguel
Advogado empresarial e professor da Faculdade de Direito de Franca
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