Mãe de bebê que nasceu sem cérebro fala da saudade da filha


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RETOMANDO A VIDA - Cacilda Galante fala com saudade da filha Marcela que morreu há dois anos após viver por um ano e oito meses
RETOMANDO A VIDA - Cacilda Galante fala com saudade da filha Marcela que morreu há dois anos após viver por um ano e oito meses

O sorriso no rosto ainda é o mesmo. A tranquilidade em nada mudou. A fé continua inabalável. Assim está Cacilda Galante Ferreira, 39, dois anos após a partida da filha Marcela de Jesus, o bebê que nasceu sem cérebro na Santa Casa de Patrocínio Paulista e que viveu um ano e oito meses. A história de Marcela foi conhecida em todo o país e ela se transformou em um ícone anti-aborto.

A vida de Cacilda retomou o seu ritmo normal com algumas mudanças. Ela voltou a morar no sítio, a 16 quilômetros da cidade, com o marido Dionísio, 50, e passou a cuidar do sogro que tem 93 anos e está doente. As filhas Dirlene, 18 e Débora, 23, se mudaram para a cidade.
Durante a semana, Cacilda acorda às 5 horas para se ocupar dos afazeres domésticos e dos trabalhos do sítio como cuidar dos animais. Os domingos são sagrados. É dia de visitar o túmulo da pequena Marcela no cemitério de Patrocínio. Diante dele, ela reza e conversa com a filha. Sempre encontra flores e velas deixadas por desconhecidos, o que a deixa muito feliz.

Cacilda não está triste. Fala com saudade da filha, mas não chora. Diz que nunca chorou porque aceitou a partida da criança. Só fica magoada com comentários de que é uma pessoa fria. “Essas pessoas não sabem o que eu passei. Estou tranquila porque fiz tudo o que podia para minha filha que nunca vou deixar de amar”.

Por conta de todo esse amor, mesmo após dois anos, Cacilda ainda mantém o quarto de Marcela. Só o berço não está mais lá. “Dei para minha neta”, conta sorrindo. É, ela agora é avó de uma menina de sete meses. A maioria das roupas continua no guarda-roupa. “Sinto o cheiro dela quando entro no quarto e principalmente quando seguro as roupas. Mas aos poucos vou passar para minha neta. O importante é que a Marcela permanece viva no meu coração”.

As lembranças da filha também estão guardadas em uma pequena caixa de papel com os inúmeros recortes de jornais com reportagens sobre Marcela. Já perdeu a conta de quantas vezes leu as mesmas matérias. Na época chegou a receber críticas de que estava expondo demais a filha. Ela pensa diferente. Acha que deveria ter mostrado mais. “Quem conheceu a Marcela viu que nada é impossível para Deus”. As fotos também são preciosas para ela. As preferidas são do dia do aniversário de um ano. “Foi uma festança”, sorri ao lembrar.

Também guarda as cartas que escreveu para a filha como a que foi lida no dia do velório e quando completou um ano da morte. Com a fala mansa, Cacilda acha mais fácil expor seus sentimentos no papel. Quando quer por para fora tudo o que está sentindo, escreve. Guarda só para ela. Também mantém o diário que fez quando a filha estava viva. “Se fosse para viver tudo novamente com a Marcela, eu enfrentaria da mesma forma”. 

Comércio da Franca - Como foram esses dois anos sem a Marcela?
Cacilda Galante Ferreira -
Fiquei morando uns tempos na casa na região central de Patrocínio Paulista, onde vivi com a Marcela por quase dois anos. Neste período, sempre visitava o túmulo dela. Depois mudei para o sítio e passei a ir lá todos os domingos. A minha rotina voltou a ser a mesma de antigamente, sempre cuidando dos afazeres domésticos e das filhas que, mesmo grandes, são eternas crianças. Mãe sempre pensa assim. Também ajudo nos serviços do sítio como molhar a horta, capino, trato dos porcos e das vacas. E ainda cuido do meu sogro que está com 93 anos e doente.

Comércio - O que mudou na sua vida depois da Marcela?
Cacilda Galante -
Minha vida mudou bastante com a chegada dela. A Marcela mudou o meu jeito de pensar e ver a vida. Hoje encaro as coisas com mais fé e esperança. Também passei a acreditar que, para Deus, tudo é possível. Foi o que a Marcela mostrou e que ainda continua mostrando não apenas para mim mas para várias pessoas. Quem viu a Marcela passou a acreditar nisso também.

Comércio - Como foi o período que passou no hospital com a Marcela?
Cacilda Galante Ferreira -
Passei quase cinco meses no hospital com a Marcela e só depois fui morar com ela em uma casa em Patrocínio. Apesar de ter sido uma mudança radical, não achei difícil porque Deus me apoiou bastante. Eu também tive muito apoio das pessoas, mas o que achei mais importante foi que Deus nunca me abandonou. Minha fé aumentou ainda mais.

Comércio - Teve algum momento em que você sentiu medo por não saber cuidar dela?
Cacilda Galante Ferreira -
Em nenhum momento. Por incrível que pareça, nunca senti medo de nada. Sempre pedi a Deus que Ele me iluminasse e me mostrasse o que eu deveria fazer. A Marcela me ensinava muito isso também. O que ela aceitava e o que ela não aceitava no jeito de cuidar dela. Então não tive medo do desconhecido nem de como não saber cuidar dela. Acho que fiz tudo certo.

Comércio - Você sabia que era uma mulher forte?
Cacilda Galante Ferreira -
Não sabia. Me surpreendi bastante comigo mesma. Só mesmo passando por uma situação desta para a pessoa saber se aguenta ou não. O que me ajudou também é que eu tenho muita fé em Deus.

Comércio - Qual foi a lição que a Marcela te deixou?
Cacilda Galante Ferreira -
Ela me ensinou muito. Foi uma lição de amor, de fé e esperança. Passei a acreditar principalmente que Deus é o Deus do impossível. Foi essa a mensagem que ela passou para mim e para as outras pessoas também principalmente quem a conheceu.

Comércio - Você se arrependeu de alguma coisa que fez desde a gestação até a morte da Marcela?
Cacilda Galante Ferreira -
Acho que não. Eu vivi cada segundo com ela. O que eu tinha que falar para ela eu falei. O que eu podia fazer por ela eu fiz. Cada momento que eu tive com ela foi muito importante para mim porque tive a oportunidade de falar a todo momento que eu a amava e a amo ainda. Apesar dela não estar mais comigo, amo mesmo.

Comércio - Como são suas visitas ao túmulo da Marcela?
Cacilda Galante Ferreira -
Eu rezo. Também converso muito com ela. Falo que estou com saudade e que ainda sinto o cheiro dela todas as vezes que entro no quarto onde ela dormia. Sempre que fico com saudade aperto os meus braços contra o peito e sinto o cheiro dela. A Marcela não está mais comigo, mas ainda a amo muito. Nunca vou deixar de amar porque ela continua viva no meu coração.

Comércio - Logo que ela morreu o túmulo era muito visitado. Ainda continua?
Cacilda Galante Ferreira -
Ele ainda recebe muitas visitas. Continua sendo o túmulo mais visitado do cemitério de Patrocínio Paulista. Sempre tem velas e flores lá na sepultura. São pessoas que não conheço, mas sempre passam lá e deixam flores naturais ou artificiais.

Comércio - O que você sente quando percebe que alguém que você nem conhece visitou o túmulo de sua filha e que levou flores e velas?
Cacilda Galante Ferreira -
Fico muito feliz. Agradeço muito a Deus pelas pessoas que não estão esquecendo dela. Não estão deixando ela morrer porque isso só acontece quando a pessoa permite que ela não saia do coração. Acho que a Marcela nunca será esquecida.

Comércio - Na época em que ela ainda estava viva, muitas pessoas criticaram você por expor a Marcela. Para você, não tinha problema ela sair em jornais e televisão. Você se arrependeu por ter feito isso? Se fosse hoje faria diferente?
Cacilda Galante Ferreira -
Não me arrependi em nenhum momento. Acho que tinha que mostrar ela mesmo. Na verdade, acho até que ela tinha que ter aparecido mais.

Comércio - Por que você acha isso?
Cacilda Galante Ferreira -
Para mostrar para as pessoas que ali estava a presença constante de Deus. Quem não acreditava em Deus tinha que ter visto a Marcela. Tinha que ver o jeito que ela era. A força, a vontade e a luta dela para sobreviver. Então acho que tinha que ter mostrado ela ainda mais.

Comércio - Teve algum comentário que te magoou?
Cacilda Galante Ferreira -
Só uma matéria que saiu na revista Veja que tinha o título de A menina sem estrela. Essa reportagem me deixou muito triste e muito magoada. A Marcela não foi uma criança sem estrela. Ela foi uma estrela. Foi totalmente o contrário.

Comércio -Muitas pessoas também te criticaram dizendo que você abandonou suas outras filhas por conta da Marcela. Você sentiu isso? Teve essa cobrança por parte das suas filhas que na época tinham 14 e 18 anos?
Cacilda Galante Ferreira -
As minhas filhas sempre me apoiaram. Toda a minha família se envolveu bastante com a Marcela. Todos amaram ela e se dedicaram por completo. Quem falou essas coisas é porque não conviveu com a gente. Não viu como era a convivência da família com ela. As minhas filhas nunca me cobraram nada.

Comércio - Você conheceu muitas pessoas naquele período. Todas elas sumiram ou ainda mantêm contato?
Cacilda Galante Ferreira -
Ainda mantenho contato com muitas pessoas. A doutora Márcia Beani (pediatra que cuidou da Marcela) sempre me liga. Tem a mulher de um deputado que fez até a foto da Marcela que está até hoje na parede da minha sala na casa em Patrocínio que às vezes me liga também. Tem muita gente.

Comércio - O que você mais sente saudade?
Cacilda Galante Ferreira -
Ah! Sem dúvida de pegar a Marcela no colo. Agora eu mato a saudade pegando minha neta que está com sete meses.

Comércio - Você ainda mantém o quarto da Marcela na casa em Patrocínio?
Cacilda Galante Ferreira -
Sim. É uma forma de me manter próxima a ela por mais um tempo. Mas aos poucos vou me desfazendo. O berço, por exemplo, passei para minha neta. Ela também começou a usar as roupas. Com o tempo vai tudo. Vou manter a Marcela viva em meu coração.

Comércio - Por algum momento, você acreditou que aconteceria um milagre mesmo com o diagnóstico dos médicos? Acreditou que ela nasceria perfeita?
Cacilda Galante Ferreira -
Para mim, ela nasceria conforme a vontade de Deus. Se fosse para ela nascer normal, claro que eu ficaria contente. Mas que também aceitaria se ela nascesse do jeito que estava previsto. Foi o que aconteceu e aceitei de coração.

Comércio - Como foi o momento quando você voltou para casa e percebeu que não teria mais aquela rotina de hora para dar banho, para dar comida e cuidar dela?
Cacilda Galante Ferreira -
Nos primeiros dias eu trocava o lençol do berço diariamente como eu fazia antes. Ficava lembrando dela. Mas não sofri porque aceitei de coração a partida dela.

Comércio - Você costuma chorar de saudade dela?
Cacilda Galante Ferreira -
Não chorei nem no velório dela. Eu prometi para ela que não ia chorar. Muitas pessoas falaram que eu era fria e que tinha o coração de pedra. Não foi nada disso. Vivi um segundo de cada vez com ela e estava preparada para o momento que ela partisse. Eu pegava ela no colo e falava: ‘ah! minha filha se a mamãe tivesse escutado conselhos de pessoas que me recomendaram tirar sua vida, você não estava aqui gordinha nos meus braços’. Não me arrependo de nada. Se fosse para passar por isso tudo novamente, eu passava. Do mesmo jeito.

Comércio - Na época, você mantinha o costume de escrever cartas para a Marcela. Ainda faz isso?
Cacilda Galante Ferreira -
De vez em quando. É uma forma de conversar com ela e com Deus. A última escrevi no dia que completou um ano do falecimento dela. Não lembro de todas as palavras, mas disse tudo o que sentia para ela naquele momento.

Comércio - Você pensa em engravidar novamente?
Cacilda Galante Ferreira -
Não tenho planos, mas se for da vontade de Deus. Agora também estou curtindo a minha neta.  

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