Estatísticas e pesquisas podem falhar. São criações humanas, podem falhar. No entanto, depois dos resultados e da ressaca eleitoral, admito: se em muitas situações podem não acertar, pelo menos com relação à vitória da candidata à presidência... as prospecções foram corretas.
Está ela aí, eleita, maioria de votos, francamente à sombra do presidente, quiçá sob o tacão do partido. Como mulheres são imprevisíveis e fortes, de repente ela poderá nos surpreender a todos. Vamos imaginar que, ao receber uma ordem do ex-chefe agora instalado no gabinete ao lado do seu, ela bata o pé e diga: ‘Muito obrigada por tudo, mas quem manda agora aqui sou eu! E, por favor, bata na porta antes de entrar!’. Primeiro passo. Aí ela que saia caminhando, estanque, olhe diretamente nos olhos do interlocutor que a segue na surdina e diga: ‘Zé, cala a boca e escuta o que vou dizer: há um interesse maior que o do partido: é o interesse do povo. E eu vou defender a Constituição!’. Mais duas ou três atitudes como essas... e eu passo para o lado dela. Nunca seremos amigas, mas entro para o seu time. No bom sentido, claro.
Mas falando em pesquisas, li que está sobrando mulher aqui em Franca. Mais exatamente, ‘sobram’ 7.685 mulheres entre solteiras, viúvas e descasadas. Isso dá, quer dizer, perfaz, 0,02% de mulher-extra para homem. Duvido que meu marido reclame a parte que lhe caberia caso fossem fazer uma divisão, visto que tem medo de lhe entregarem - ao invés do filé ao qual teria direito pelo peso que carregou até aqui - outro pedaço de carne de pescoço, dura e indigesta. Vai sobrar mais um pouquinho para alguém que se interesse. Se essa falta - não ter homem disponível para todas nós - foi problema nos tempos antigos, ser solteira hoje em dia é uma opção das mais cobiçadas. Senão, vejamos. Viagens. Honestamente: quem de nós precisa de homem para fazer uma viagem? Tirando alguns países onde mulher não vale um pedaço de couro, qualquer uma de nós pode fazer as malas, passar numa agência de viagens, escolher um lugar e ir visitá-lo. Sozinha, pode escolher entre ficar na cama do hotel, escarrapachada e absolutamente estirada vendo televisão ou sair para conhecer um museu de seu agrado; cair na balada noturna ou levantar cedinho para ver como as pessoas do local se movimentam para suas rotinas de trabalho. Pode olhar dos lados para observar as pessoas. Pode andar na velocidade que quiser. Pode parar para ver uma vitrine ou entrar em todas lojas se bem lhe aprouver... E pode fazer de conta que não está a fim de nada, como que jogar a isca para ver se há peixes para capturar... Mulheres sabem o que querem e vão à luta. Melhor: mulheres sabem lutar. Maternidade: prescindimos do auxílio masculino nos moldes antigos, se bem que o método antigo era bem mais interessante e prazeroso. Ter e criar filho sozinha é uma possibilidade atraente: a mulher é reconhecida como ‘pãe’ - mistura de pai e mãe - , sem se obrigar a discutir qualquer aspecto da educação da criança: ela mesma resolve os quando, porquês, resultados e consequências de seus atos e atitudes com relação ao filho. Mulheres precocemente viúvas são exemplos competentes da capacidade de agregar, conservar e fazer sobreviver uma família apenas com a lembrança e presença imaterial do marido.
Bem, essas são algumas poucas razões pelas quais não há necessidade de homem para mulher viver. As razões pelas quais precisamos de um companheiro, no entanto, são muito mais numerosas e consistentes. Muito mais. Sabe companheiro? Aquele que divide o pão, a mesa, a cama e a vida conosco. Aquele que nos segura, quando fraquejamos. Que nos dá a mão, quando escorregamos. Que nos suporta, quando surtamos. Que olha nos olhos quando conversamos e realmente nos escuta. A gente não precisa mesmo de marido. A gente precisa é de alguém da nossa espécie com quem possamos interagir: falar e ouvir; chorar e consolar; alternar polaridades: razão e amor; empurrão ou acolhimento, positivo e negativo. Esse tipo de relação, as estatísticas não aferem. Uma pena.
AFONSO
A notícia do falecimento de Afonso Celso Rodrigues foi surpresa e muito ruim. Ele foi gerente do Bemge, banco do qual fui correntista por anos. Brincava que ele havia inspirado o antigo comercial de televisão da instituição mineira: o do ‘gerente que falava a língua do cliente’. Sempre atrás da mesa de atendimento, num estabelecimento bancário, a personagem ora aparecia de avental trocando receita com a dona de casa; ora de cabelo punk discutindo o ensaio de rock com jovens; ora de lenço na mãos, chorando por causa do relato da novela que uma mulher lhe fazia. É exatamente assim que vou me lembrar dele. Um abraço à família.
RAPIDEZ
Tudo bem, o tempo é invenção humana. E está passando mais rápido: não parece, é absolutamente certo. Ontem mesmo guardava as caixas com a parafernália de Natal. Nem empoeiraram, já estão sendo novamente descidas das prateleiras para serem abertas e terem conteúdo utilizado nos próximos dias. Acho que este ano nem vou desmontar a árvore.
MITOS
Deméter - deusa da agricultura, a Ceres dos romanos, teve sua filha Perséfone raptada por Hades, a quem Zeus prometera em casamento. A mãe ficou desolada e abandonou campos e colheitas para prantear a filha, levada para os confins da Terra. A terra secou, desapareceram rios e matas, flores, frutos e frutas. Humanos, deuses e animais começaram a passar fome. Palavra de Zeus não volta atrás. O jeito foi combinar: seis meses Perséfone ficaria com a mãe, seis outros, com o marido, no Inferno. Os meses de fartura, bonança, correspondem à Primavera e Verão, quando mãe e filha estão juntas. Os outros, de desolação, seca e cinza, se referem ao Outono e Inverno. Minha Primavera particular está prestes a ter início. Mesmo que o marido seja absolutamente oposto a Hades, filha e neto estão chegando do outro lado do oceano para alguns dias do meu lado.
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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