Morto nem vela tem


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A vida serve de base para a arte narrativa. No entanto, muitas vezes a ficção fica tão real que até parece o contrário. Uma prova clara disso está no conciso conto Uma vela para Dario, escrito pelo paranaense Dalton Trevisan.

Em poucas palavras, Dario é um cidadão comum a caminho do trabalho. De repente, sente-se mal na calçada. Alguém faz sinal para um táxi. Transeuntes colocam o corpo agonizante no carro. Como ninguém se dispõe a pagar a corrida, o motorista volta o inerte passageiro para o meio-fio. Dentro em pouco, o homem dá o último suspiro.

Até a hora do almoço parte dos pertences do morto já não está mais com ele. Quando a polícia chega, nada pode fazer. Deixa a remoção do corpo para o serviço funerário. Pelo resto da tarde, Dario fica estendido na calçada.

No fim do dia, resta-lhe tão somente a cueca como vestimenta. Já escurecendo, um menino de rua acende uma vela para o cadáver.

A realidade hoje anda ainda mais dura que a ficção. Se alguém passar mal na rua, dificilmente recebe ajuda. Ninguém se dá ao menor trabalho solidário de socorrer um estranho agonizante.

Até mesmo os órgãos de preservação da vida viram as costas para quem não se sente bem repentinamente. Terça passada, um pedreiro de 48 anos teve dores no peito. Pouco antes das 10h, avisou aos colegas de serviço que iria à UBS/AMA Santa Cecília (São Paulo, Capital), localizada nas proximidades da construção em que trabalhava.

Na Unidade de Saúde, o pedreiro recebe informação de que ali o atendimento era só para consultas agendadas. Emergência médica seria possível apenas no pronto-socorro, localizado na quadra ao lado, a cerca de 60 metros.

O homem sai. Na calçada, as dores aumentam. Pede ajuda a uma mulher que cuida dos carros estacionados. Ela lhe mostra o Pronto Socorro Municipal Álvaro Dino de Almeida, conhecido como PS Barra Funda, administrado pela Santa Casa de Misericórdia.

O pedreiro dá uns 20 passos e cai. A guardadora de carros corre até o Pronto Socorro e pede ajuda. Só que ninguém foi buscar o homem caído na calçada, atrapalhando o tráfego de pedestres. Tudo quase imitando um dos versos de Construção, de Chico Buarque.

UBS ou PS nada fez. Um pedestre chamou o Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência). Apesar do pomposo nome, a ambulância só chegou ao local por volta do meio-dia.

Como o pedreiro já estava morto, seu corpo foi deixado na calçada para ser removido por uma viatura do Instituto Médico Legal.

A remoção do cadáver ocorreu somente depois das 14h. Enquanto o corpo ficou estendido no chão, pedestres apenas se desviavam dele. Os alunos de uma escola estadual, localizada em frente, a tudo assistiam das janelas das salas de aula. Um pouco mais de respeito aos vivos, principalmente por parte da assistência pública à saúde, seria o melhor jeito de se reverenciar os mortos.

Antônio Araújo
Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br

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