Ao conquistar quase 56% dos votos do eleitorado brasileiro no segundo turno das eleições para presidente da República, anteontem, a petista Dilma Rousseff consagrou todo o esforço do maior fiador de sua candidatura: o atual ocupante do Planalto, Luiz Inácio Lula da Silva. Depois de seguir por quase dois anos a reboque do presidente, viajando o País inteiro e inaugurando obras onde fosse possível, a nova chefe da Nação tem a partir de agora uma das mais difíceis missões entre as últimas enfrentadas: descolar-se da figura de Lula, andar com suas próprias pernas e, mais do que tudo, enquadrar os seus aliados - que vão do fisiologista PMDB do seu vice, Michel Temer, ao empedernido PC do B e suas convicções ultrapassadas, passando ainda por PRB, PDT, PTN, PSC, PR, PTC e PSB -, os quais, certamente, deverão cobrar apoios em forma de colocações em ministérios e estatais. Dilma vai precisar de pulso firme para evitar que seu governo se torne uma colcha de retalhos, caso contemple com prêmios todas as tendências em demanda.
A primeira coisa que precisa mostrar é que sua pessoa não é a mesma de Lula. Embora tenha passado a campanha toda prometendo a continuidade, vai ser necessário provar que o novo governo terá a sua cara. A petista recebeu quase 56 milhões de votos, mas seu adversário, o tucano José Serra, levou mais de 43 milhões, o que demonstra - em que pesem os esforços do atual governo em dizer o contrário - ser considerável o número de brasileiros que não estão contentes com os rumos que vem seguindo o governo federal e prefeririam na chefia da nação o adversário da candidata do pre-sidente Lula.
Embora tenha recebido no primeiro turno mais votos do que o atual presidente teve em 2006 (47 milhões contra 46 milhões), Dilma Rousseff não foi capaz de repetir o feito de seu mentor no segundo turno: ela teve agora quase 56 milhões contra os 58 milhões que Lula teve em 2006. E com uma diferença considerável: agora, Serra teve 33 milhões no primeiro turno e 43 no segundo; em 2006, o também tucano Geraldo Alckmin recebeu, respectivamente, 39 e 37 milhões. É preciso ainda entender a razão pela qual mais de 29 milhões de eleitores deixaram de comparecer ao pleito. Não se pode esquecer de que são 21% do eleitorado. Somando-se os votos brancos e nulos, são mais de 36 milhões de votos. É um número bastante expressivo e que merece ser avaliado. Há que se pensar que eles seriam suficientes para mudar o resultado do pleito (Serra perdeu por 12 milhões de votos), por exemplo. O fato é que Dilma e sua equipe agiriam com sensatez ouvindo o recado que os eleitores deram no domingo. Parte importante dos brasileiros exige mudanças que levem não só ao crescimento mas também a uma maior participação dos cidadãos nas decisões do País. Cabe a Dilma Rousseff apreender os anseios da população e buscar uma forma de torná-los realidade. Todos esperamos isso e torcemos para que ela consiga acertar, trazendo as virtudes do governo Lula sem que seja necessário carregar os mesmos erros, o pior deles não reconhecer os próprios.
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