Tudo o que sabemos


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Penso 99 vezes e nada descubro. Deixo de pensar, mergulho no silêncio, e a verdade me é revelada.                                                                                                                          Albert Einstein

Ficou famoso, e com frequência é mencionado, o encontro promovido nos anos 90 pela Unesco, órgão das Nações Unidas para educação, ciência e cultura, com sete ganhadores do Prêmio Nobel. A reunião se deu em Paris num fórum de debates intitulado “Encontros Filosóficos”. Cada notório deveria discorrer sobre “O que eu não sei”.

Eis trechos do que disseram eles:

Jean Dausset, francês, Nobel de Medicina em 1980 por descobertas sobre imunidade: “O que não sei: tudo ou quase tudo. Houve um tempo em que o homem podia adquirir todo o saber de sua época. Hoje, não. Há apenas pequenos sábios que sabem tudo sobre quase nada. Sou um deles”.

Naguib Mahfouz, egípcio, Nobel de Literatura de 1988: “Quando criança, relacionei uma série de livros importantes para ler. E, à medida que eu lia, essa lista aumentava, porque descobri obras que nem imaginava. Por mais que aprendesse todos os dias, eu conservava a sensação de ser perseguido pela ignorância”.

George Palade, romeno, Nobel de Medicina em 1974 por trabalhos sobre a organização de células: “Cada descoberta nova constitui uma nova etapa que obriga a nos interrogarmos uma vez mais. O processo científico é uma longa cadeia de interrogações. Cada questão que encontrou uma resposta abre novo campo de investigação a explorar”.

Ilya Prigogine, russo, Nobel de Química de 1977 por pesquisas sobre a energia térmica: “O que sei? Minha resposta é clara: muito pouca coisa. Essa resposta não é ditada por modéstia excessiva. Ela exprime uma convicção profunda”.

DESCOBERTAS POR FAZER
Depois que o encontro foi realizado, o tema pegou fogo na França e a revista L’Express convidou 16 especialistass nas mais variadas áreas do conhecimento humano para responder à mesma pergunta – o que não sabemos? Xavier Le Pichon, professor de Geofísica, disse que estamos diante de uma Natureza extremamente complexa e que não captamos a realidade em sua totalidade. Existem mais enigmas que certezas. Yves Coppens, paleontólogo, disse que a origem do ser humano “é uma verdadeira confusão”. O acaso é responsável por transformações oportunas demais para se acreditar, desconfia ele. Hubert Reeves, cosmólogo, disse que o grande desafio da astrofísica é entender a longa evolução do Universo. Etienne Bautieu, professor de medicina, disse que na área de hormônios a ignorância se estende a tantos aspectos que ele não seria capaz de enumerá-los. Luc Montagnier, do Instituto Pasteur, co-descobridor do vírus da aids, questionou se não existiria uma linguagem secreta do DNA: “É sempre uma surpresa maravilhosa para um biólogo ver que um organismo inteiro, um ser humano, forma-se a partir de uma célula embrionária, e que a complexidade extraordinária de um ser vivo resulta de uma espécie de diálogo entre os genes”. Claude Hagège, linguista, destacou o enigma das línguas mortas: dácio, parônio, etrusco, ligúrio e cartaginês, idiomas desaparecidos. Jacqueline Romilly, acadêmica, disse que conhecemos da literatura grega apenas um fragmento em comparação com o que se tinha. Perdeu-se quase tudo. Ésquilo, Sófocles e Eurípedes escreveram mais de 100 peças cada um. E a autenticidade do que sobrou é questionada a todo instante. E assim os especialistas foram desfiando suas interrogações. A ciência evoluiu enormemente desde então e deu passos para a concretização neste começo de século 21 de feitos que antes pertenciam ao terreno da ficção. No entanto, a angústia do cientista permanece a mesma: a sensação de que quase tudo está por ser descoberto.

NA POLÍTICA
Pouco sabemos sobre a Lua, e agora a humanidade quer chegar a Marte. Queremos saber mais sobre os buracos negros, entender o tempo e o espaço. Acumular coisas e conhecimentos. Mas são tempos em que não sabemos quem são e o que fazem os nossos vizinhos.O que dizer então dos políticos? É caótico, para o cidadão medianamente informado, verificar como os nossos políticos, eleitos ou não, estão sempre cheios de certezas, são donos da verdade e revelam possuir tão poucas dúvidas. Em tempos de eleições, especialmente, todos são donos da verdade e querem expressar certezas absolutas. A lógica do discurso político é expressa nos debates entre candidatos: o bem está do lado de cá, o mal se manifesta do outro. Esses políticos prestariam um enorme serviço à inteligência se adotassem a postura dos consagrados ganhadores do Prêmio Nobel – admitir seus limites e dúvidas. Seria esperar muito? Talvez, considerando-se que se abrigam em grupos que carregam intrinsicamente a consciência apenas da “parte”, de um pedaço da realidade, por isso são “partidos”. Como então poderiam enxergar o todo?

Wilson Marini
wmarini@apj.inf.br

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