Mãe e filha sobreviventes de chacina recomeçam a vida


| Tempo de leitura: 5 min
EXEMPLOS DE SUPERAÇÃO - A cabeleireira Valéria Gomes e a filha  Júlia Massucato sorriem ao comentar a paixão da garota pelo cantor Fiuk. Dois anos após a Chacina da Ouvidor Freire, mãe e filha reaprendem a viver
EXEMPLOS DE SUPERAÇÃO - A cabeleireira Valéria Gomes e a filha Júlia Massucato sorriem ao comentar a paixão da garota pelo cantor Fiuk. Dois anos após a Chacina da Ouvidor Freire, mãe e filha reaprendem a viver

Certo dia, aos 11 anos, Júlia Massucato despertou imóvel sobre uma cama. Alvo do próprio pai, foi baleada no lado esquerdo da cabeça enquanto ainda dormia. No dia em que acordou, não conseguia se mover nem falar. Sua mãe considerou um milagre ela sobreviver.

Sua situação semivegetativa perdurou por um quase dois anos. Há dois meses, também deitada sobre uma cama, Júlia surpreendeu mais uma vez. Olhando para o próprio corpo que começa a se transformar, falou alto e forte: “gorda”. A mãe, a cabeleireira Valéria Gomes Freitas, não esperava ouvir a filha e se emocionou. Júlia, com o braço esquerdo, que voltou a movimentar após meses e meses de sessões diárias de fisioterapia, levou a mão direto ao pescoço, pegou e beijou o santinho que a avó lhe deu de presente e voltou os olhos para o céu. Não precisou dizer mais nada. Apenas olhou para a mãe, que ainda estava atônita por vê-la conseguir falar. “Quando aconteceu o acidente, o neurologista disse que a área mais atingida na Júlia era a da fala, então, vejo a recuperação dela como uma caixinha de surpresa”, disse Valéria.

Depois de “gorda”, outras palavras voltaram a fazer parte do vocabulário da pré-adolescente e ajudam a mãe e outras pessoas a desvendarem como ficou sua memória, quais são suas vontades e paixões. Júlia foi uma das vítimas da Chacina da Ouvidor Freire. A tragédia completa dois anos neste domingo, 24 de outubro de 2010.

O ex-seminarista Hélder Massucato Rezende, 46, tentou dizimar sua família na manhã de uma sexta-feira, na casa de seus pais, no Centro da cidade. Armado com revólver, Hélder atirou contra a mulher Valéria, os três filhos - as gêmeas Letícia e Júlia, com 10 anos, e o caçula Alexandre, de 7. Depois de alvejar a mãe, a aposentada Lourdes Massucato, 75, com um tiro à queima-roupa, o rapaz se matou com um disparo na testa. Ele e a mãe morreram na hora. Letícia e Alexandre, dias depois no hospital. As sobreviventes Valéria e Júlia travam uma luta para retomar a vida. E, aos poucos, estão conseguindo vencer os desafios.

Valéria e Júlia moram na casa onde o crime aconteceu. Mudaram para a residência depois da morte do construtor de imóveis Augustinho Rezende, pai de Hélder, em maio do ano passado. Mãe e filha continuam dormindo no mesmo quarto, juntas. É no local onde perdeu a avó, o pai e dois irmãos e onde quase perdeu a própria vida e a mãe, que Júlia está reaprendendo a viver.
No dia 1º de novembro, Júlia Massucato completará 13 anos e deve comemorar com festa numa chácara. Mocinha, é vaidosa com os cabelos anelados na altura dos ombros e com as unhas, que costumam estar coloridas. Embora não consiga andar, use fraldas e dependa das pessoas para quase tudo, a rotina de Júlia tem traços comuns aos de muitas adolescentes.
Como muitas garotas de sua idade, Júlia é apaixonada pelo ator e cantor Fiuk, o filho do Fábio Jr. Entra em êxtase e não para de dar gargalhadas e beijar a foto dele autografada especialmente para ela. Presente de uma amiga. Repete a frase escrita pelo artista no retrato: “Um beijo para Júlia”.

No exercício diário de retomar a normalidade da fala, Júlia ainda não faz frases inteiras, mas consegue se expressar, fazendo associações. Quando se refere ao local de trabalo da mãe, por exemplo, a menina diz “salão, cabelo, unha”. Não bastasse essas pequenas conquistas do dia a dia, Júlia ainda encanta pelo entusiasmo que demonstra por tudo. “Ela sempre pede para eu comprar alguma coisa que vê nas propagandas. Esses dias a gente estava assistindo televisão e passou a propaganda de dentadura e ela, brincando, pediu uma. Para mim, isso mostra o senso de humor e vontade de viver dela”.

Júlia também voltou a estudar. Valéria percebeu, nos últimos meses, a necessidade e vontade da filha em voltar a conviver com colegas. Com autorização médica, a menina foi matriculada na escola especial da Apae. Todas as tardes, tem aulas e atendimentos com fonoaudióloga e fisioterapeuta. “Faz uns dois meses que está na Apae e está gostando muito. É um momento importante de convívio social e para voltar a ter amizades”, disse Valéria.

A menina faz planos para a carreira profissional. Quer se ser “veterinária de gatos”. Insiste que é apenas dos felinos que quer cuidar, porque os cachorros latem muito e a deixam irritada.

PASSADO

A lesão no cérebro de Júlia foi grave. A menina ficou em coma e só continuou viva com ajuda de aparelhos. Passou por três cirurgias na cabeça e enfrentou quase 80 dias de internação na Santa Casa.

Para poupar a filha de abalos emocionais, Valéria evita falar do crime, mas teve mostras de que Júlia se lembra de como foi a tragédia e tem noção das mortes dos irmãos, do pai e dos avós. “De uns tempos para cá, ela perguntou, do jeito dela, dos irmãos. Fui explicando que estão no céu, com os anjinhos. Acho que fui abençoada na maneira como falei e ela não ficou magoada”, disse a mãe.

A reação ao pedir informações do pai foi diferente. “Ela perguntava do pai de forma agressiva e triste. Mostrava a cabeça dela, no lado atingido, e fazia uma cara fechada. Isso me espantou porque pensei que não se lembrasse das coisas”, disse a cabeleireira. “Expliquei que o pai dela precisava se tratar porque estava doente e fez essa tragédia. Ela ficou bem triste, mas eu disse que, apesar de ter errado, ele também proporcionou coisas boas na vida dela e para mim”.

Valéria disse que perdoou o marido pela tragédia e luta para que o coração da filha consiga o mesmo feito. “A gente tem que perdoar, fazer o exercício do perdão todos os dias”, ensina. 

Leia também ‘Tivemos um milagre de Deus’, diz Valéria Freitas

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários