Aloysio Nunes diz que pretende defender economia calçadista


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COMPROMISSO - Senador mais votado da história do País, Aloysio Nunes disse que vai retribuir cada voto com trabalho, seriedade e dedicação: “Vocês podem ter certeza de que não vou decepcioná-los. Vou lutar para que o Senado Federal recupere a autoridade m
COMPROMISSO - Senador mais votado da história do País, Aloysio Nunes disse que vai retribuir cada voto com trabalho, seriedade e dedicação: “Vocês podem ter certeza de que não vou decepcioná-los. Vou lutar para que o Senado Federal recupere a autoridade m

 

Aloysio Nunes Ferreira é uma das figuras mais respeitadas do PSDB em nível nacional. Foi vice-governador, cinco vezes deputado federal e ocupou dois ministérios - a secretaria-geral da Presidência e o Ministério da Justiça - no governo Fernando Henrique Cardoso. Até abril, era o chefe da Casa Civil do Estado durante a gestão do governador José Serra. Nesta última função, fazia o elo entre o governo e os municípios em ações políticas de descentralização administrativa e de busca de parcerias com prefeituras. Desincompatibilizou-se para disputar as eleições para o Senado. Respeitado politicamente como administrador, não tinha um nome popular junto ao eleitorado, pois passara a maior parte da carreira pública dentro de gabinetes.

Durante visita a Franca, em junho, disse que seu maior desafio era tornar-se conhecido. “Sempre ocupei uma posição mais resguardada, de articulação, de coordenação interna de governo. Isto não me permite ter o recall, que é um nome conhecido de outros embates eleitorais. Agora, pretendo me tornar conhecido fazendo campanha, participando de debates e palestras. Sobretudo, mobilizando uma rede imensa de agentes políticos no Estado”. Nem ele imaginava o quanto se tornaria conhecido.
 
O começo da campanha foi desanimador. Aloysio aparecia nas pesquisas com inexpressivos 2% de intenção de voto. Com um programa eleitoral bem feito e com propostas objetivas, foi melhorando sua aceitação, mas nada que remetesse a chance clara de vitória. Nos primeiros dias de setembro, o também candidato Orestes Quércia, que disputava o Senado pelo aliado PMDB, anunciou que estava se retirando da campanha para se tratar de um câncer de próstata. O ex-governador declarou apoio a Aloysio. Em troca, o francano Aírton Sandoval Santana passou a ser o primeiro suplente do tucano. Em consequência do acordo, Aloysio Nunes ocupou, na propaganda de TV, o tempo das duas vagas ao Senado da chapa. 
 
O amplo espaço aliado a um perfeito trabalho de marketing e à reconhecida competência de Aloysio catapultaram a candidatura. A três dias das eleições, pesquisas mostravam que ele tinha atingido 19% das intenções de voto. Apesar de relevante, o índice ainda era insuficiente. Marta e Netinho, da coligação adversária, com percentuais na casa dos 30 pontos, lideravam. O Estado tinha apenas duas vagas e, se o cenário se confirmasse nas urnas, o candidato do PSDB estaria fora. No dia 3 de outubro de 2010, Aloysio Nunes contrariou todas as pesquisas e se tornou o senador mais votado da história do País ao receber 11,1 milhões de votos. De eleitores francanos, levou 107,8 mil, mais do que conseguiram Geraldo Alckmin, governador eleito no primeiro turno, e José Serra.
 
A votação recorde transformou Aloysio numa referência. É voz ativa e um dos principais articuladores da campanha de José Serra à Presidência. Na quinta-feira, concedeu esta entrevista exclusiva por telefone ao Comércio. Falou de sua histórica eleição, de sucessão presidencial e de sua relação com Franca, cidade que já visitou três vezes este ano e que deverá retornar nesta semana. Saiba o que pensa o homem de 11 milhões de votos.

Comércio da Franca - O senhor recebeu 11 milhões de voto e se tornou o candidato ao Senado mais votado da história do País. A que se deve este expressivo resultado?
Aloysio Nunes -
Acho que este resultado se deve a uma série de fatores. Antes de qualquer comentário, quero agradecer imensamente a todos os eleitores de Franca e região que me deram esta votação que é muito expressiva. Eu tive na Franca uma votação percentualmente, se não maior, equivalente a que tive em São José do Rio Preto, que é minha cidade natal. Foram 107.859 votos em Franca. Na região, chegou a 182.855 votos. A minha primeira palavra é de profundo agradecimento pela confiança. Quero reafirmar os compromissos que assumi durante a campanha de ser um bom senador por São Paulo, de estar sempre à disposição dos munícipes de Franca e região, de lutar para que São Paulo tenha melhor atendimento do que vem tendo até agora por parte do governo federal. Vou lutar pela defesa da Constituição, pelo equilíbrio federativo, pela força dos municípios que vêm sendo debilitada pela erosão da sua base financeira e tributária. Enfim, lutar para que o Senado Federal recupere a autoridade moral que vem perdendo nos últimos anos.

Comércio - Franca concentra o maior polo produtor de calçados masculino do País. Qual é o compromisso do senhor com a cidade?
Aloysio Nunes -
É o compromisso da defesa da economia calçadista. Já temos várias ações em andamento por parte do Governo do Estado, na área da formação profissional e também na área tributária. Creio que há uma preocupação especial no plano federal com a política de defesa comercial. Em um bom momento, o governo federal instituiu uma sobretaxa em relação ao calçado vindo da China, mas hoje em dia há outras formas de concorrência predatória. Outros países do sudeste asiático estão concorrendo com o calçado francano em condições extremamente desleais. É preciso continuar e aprimorar esta política de defesa comercial e manter, aqui, esta política que vem se adotando de matéria tributária, de desoneração da cadeia produtiva e da formação profissional.

Comércio - No começo da campanha eleitoral, o senhor era o terceiro colocado nas pesquisas de intenção de voto. Chegou o dia da eleição e o senhor foi eleito em primeiro lugar com uma votação surpreendente. A que fatores o senhor credita a arrancada na reta final?
Aloysio Nunes -
Eu credito a basicamente dois fatores importantes: primeiro, uma identificação crescente da minha candidatura com o campo político em que ela estava inserida, que é o campo do PSDB, das alianças do PSDB reforçadas, extraordinariamente, este ano com a presença do PMDB, pela primeira vez coligado conosco, da identificação da minha candidatura com as candidaturas do governador Geraldo Alckmin e do presidente José Serra. Foi, digamos, assim, um movimento geral de opinião pública. Por outro lado, houve um intenso trabalho militante dos prefeitos, a começar pelo Sidnei (Rocha) de Franca, dos vereadores, dos dirigentes partidários, dos deputados e dos candidatos que fizeram um fantástico trabalho de formiguinha. Foram os jovens que se mobilizaram pela internet. Por um lado, tivemos um trabalho de artilharia pesada na televisão, com o marketing mostrando minhas ideias e minha identificação com a política do PSDB e, por outro lado, o trabalho militante que foi, no meu entender, o fator decisivo, fator de desempate, fator que impulsionou este crescimento extraordinário exatamente na reta de chegada da eleição. Este crescimento, aliás, foi captado por uma pesquisa feita aí na Franca. Na última vez que estive aí (30 de setembro), recebi uma notícia positiva de que minha candidatura estava crescendo, tendência que se confirmou em todo o Estado. Isto, se deve, na verdade, a este trabalho de militantes que repercutiu extraordinário efeito, especialmente, nos últimos 15 dias de campanha.

Comércio - Acredito que outro fator relevante foi a migração de votos dos eleitores de Orestes Quércia. Em Franca, por exemplo, ele liderava as intenções de voto e, com a desistência do ex-governador por problemas de saúde, os votos dele foram destinados ao senhor.
Aloysio -
Sim, sim, claro. Não só em Franca. Estive com o Quércia em Franca no começo da campanha. Era visível sua popularidade, o carinho e o respeito das pessoas com ele. O Quércia, não apenas teve uma atitude muito digna, muito correta ao perceber que suas condições físicas não lhe permitiam seguir e, ao mesmo tempo em que renunciava, declarou com muita ênfase o apoio dele a mim. Em função disto até, incorporei como meu primeiro suplente o ex-deputado por Franca Aírton Sandoval. A presença do Quércia na campanha, por meio de suas mensagens, da presença da sua filha Andreia no horário eleitoral, da presença de militantes do PMDB, o Aírton, tudo isto contribuiu muito.

Comércio - As pesquisas mostram que a diferença pró-Dilma está crescendo e chega a 12 pontos. É possível José Serra reverter esta tendência negativa na reta final da campanha presidencial?
Aloysio -
Eu me lembro bem da pesquisa do Ibope para o Senado Federal divulgada na quinta-feira antes das eleições de 3 de outubro. Márcia e Netinho estavam na casa de 30, 33% cada um, em torno disto, e eu com 19%. O que você acha que aconteceu? Eu tive 11,1 milhões de votos e a Marta teve 8,3 milhões. Foram quase 3 milhões de votos em cima dela. Este é um exemplo. Pelas pesquisas, não haveria segundo turno no País. Os petistas já estavam em festa. As pesquisas diziam que a Dilma venceria no primeiro turno, todas elas. Eu acho que há uma margem de erro na elaboração das amostras que é estrutural nas pesquisas que são feitas no Brasil. Elas têm errado sistematicamente. Corrige um pouco na boca de urna, mas mesmo assim, erram feio. Há um fator que as pesquisas não captam, que não depende da metodologia, que é o fato político. Quando há uma eleição muito polarizada há um número muito expressivo de eleitores - em São Paulo está beirando a 20% - que ainda não se decidiram. Por que há o segundo turno? No País, existem 135 milhões de eleitores. Um universo deste tamanho é muito difícil de se captar em uma pesquisa. Há um número muito expressivo de eleitores que disseram o seguinte: “Olha, gente, pedimos mais tempo para pensar, para ver qual dos dois candidatos tem mais condições de dirigir o País, qual deles me dará mais segurança de que, quando estiver sentado na cadeira, poderá pilotar este Boeing chamado Brasil nas crises internacionais, na correção de rumos da economia, na impulsão dos problemas sociais, qual deles tem uma biografia mais estruturada, conhecida, qual deles tem compromissos mais fortes com a democracia e a liberdade”. É isto o que está na cabeça de uma faixa grande de eleitores que votam mais motivados por valores do que propostas. Compromissos, capacidade governativa, biografia. Isto é o que está sendo pesado por milhões de instituto de pesquisas. Sabe como chama este tipo de pesquisa? Consciência do eleitor.

Comércio - O foco principal da campanha, que seria o conteúdo programático, está sendo desviado e dando lugar a polêmicas, como a questão do aborto, compra de dossiês e supostas tentativas de agressão a candidato. O plano de governo, que é o que importa, não está ficando em segundo plano?
Aloysio -
Não foi por culpa do Serra. O Serra, simplesmente, disse qual é a opinião dele sobre o aborto. Ele tem uma posição que consiste em manter a legislação atual. Foi perguntado sobre esta questão, no começo da campanha, durante sabatina da Folha e do IG, e disse, muito sinceramente, que é favor da manutenção da lei que prevê o aborto em duas hipóteses: em casos de estupro e em caso que há risco de morte para a gestante. Só isto. O problema da candidata do PT, que nós apontamos, não é o fato dela ser a favor da descriminalização do aborto, de ter declarado isto com toda ênfase, de ter colocado isto no Plano Nacional de Direitos Humanos e de isto constar no programa partidário do PT. É uma posição legítima, que deve ser discutida com serenidade, sem paixões e sem influências de qualquer coisa que não seja a busca da melhor solução.
O fato que nós apontamos é que ela muda de opinião sobre um tema tão fundamental como este, conforme as pesquisas, assim como ela muda de opinião sobre o MST, por exemplo. Quando ela se reúne com ruralistas, com fazendeiros, ela disse que vai proteger as propriedades. Quando vai lá para o MST, ela põe o bonezinho do MST. Quando ela vai falar com investidores, em Washington, ela elogia a privatização da telefonia na busca de investimentos para o Brasil. E aqui, durante a campanha, ela inventou este absurdo que queremos privatizar a Petrobras. Isto é mentira. É o uso da mentira, da mentira deliberada na campanha eleitoral.
Estou confiante na vitória de José Serra, especialmente, depois do que aconteceu no Rio de Janeiro. O candidato sai para fazer sua campanha com seu grupo de apoiadores, pacificamente, e, de repente, vem uma horda petista furiosa, raivosa, para agredir, para impedir que ele faça sua manifestação. Foi um atentado, não contra o Serra, mas contra a democracia. Isto indica um germe fascista no comportamento deste petismo mais militante, que preocupa. Como é que pode um partido que, no poder, viola a intimidade dos outros com espionagem, espionando ilegalmente declaração de renda dos adversários, que sai na sua rua impedindo manifestação de um candidato à Presidência na base da violência, da porrada, da força física. Como é que pode uma coisa desta? Isto vai ser um fato que vai pesar muito na eleição.

Comércio -Comenta-se nos bastidores que o senhor poderia assumir algum cargo no governo do Estado ou, até mesmo, um ministério, em eventual vitória de José Serra. O senhor ficará no Senado Federal ou pretende compor o governo do PSDB?
Aloysio -
Estou batendo aqui na madeira. Esta história de falar em compor governo antes da eleição não dá certo, dá azar. São assuntos que nem passam pela minha cabeça. O que passa pela minha cabeça é o desejo e a vontade de ser plenamente senador por São Paulo.

Comércio - O prefeito Sidnei Rocha teve atuação importante na campanha eleitoral do primeiro turno e deu aos candidatos do PSDB expressiva vitória na cidade. O Sidnei tem o nome cotado para compor o governo do PSDB?
Aloysio -
Seu eu fosse governador ou presidente, ele estaria automaticamente cotado. Ele é um dos melhores nomes que temos. O Sidnei é um administrador de capacidade ultra-comprovada. Tem um estilo de trabalho que eu gosto. Ele fala a verdade, é franco, não enrola, não põe panos quentes, se expõe, prestigia a equipe e assume responsabilidades. É um grande tribuno. Sua presença na campanha foi decisiva para que tivemos expressiva votação, não apenas em Franca, mas na região também. Para mim, ele tem um lugar perene na minha gratidão, no meu coração e na minha admiração.

Comércio - Qual é a mensagem que o senhor gostaria de passar para o seu eleitor e também para a população de São Paulo, já que será um dos três representantes de todo o Estado no Senado?
Aloysio -
Só quero dizer que não vou me esquecer da população. Quando tomar posse no dia 1º de fevereiro para exercer o mandato de oito anos, vou me lembrar a cada dia que eu tive esta votação, que vocês confiaram em mim, que eu tenho a obrigação de retribuir com trabalho, seriedade e dedicação. Vocês podem ter certeza de que não vou decepcioná-los. Vou trabalhar para melhorar os municípios e o nosso Estado. Muito obrigado e boa sorte para nós todos. 

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