Fátima Cassis, especial para o Comércio
Hoje, na sede campestre do Centro Médico, o Cinema e Psicanálise exibirá Quase Deuses, com comentários de Lenise L. Azoubel, médica e psicanalista, analista didata da SBPRP (Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto) e membro efetivo da SBPSP (Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo). Este filme leva a pensar o modelo médico e o psicanalítico. Freud, grande cientista da mente humana, teve primeiramente formação médica, tendo feito residência no Hospital Geral de Viena. Ali conseguiu bolsa de estudos para estagiar em Paris com o já famoso Charcot. Brilhante médico, este diagnosticara a histeria como verdadeira enfermidade, refutando conceito vigente de que era refúgio de doentes imaginários. O contato com Charcot levou Freud a se interessar pelas manifestações da mente. Estas passaram a ser daí em diante sua principal preocupação como pesquisador.
O método usado por Charcot para tratar as doenças nervosas, principalmente a histeria, era a hipnose. Os neurologistas buscavam então explicá-las com base em alguma causa orgânica, sem sucesso. Baseado na observação das experiências hipnóticas de Charcot, Freud concluiu que se a intervenção do médico dava resultados e os sintomas deixavam de existir, então a origem das doenças não era realmente orgânica, mas psicológica. Isso mudou seu pensamento.
Posteriormente, sempre se pautando por resultados da clínica, percebeu que só a hipnose era inútil, já que os pacientes despertos do transe não se lembravam do que haviam experimentado nem verbalizado. Ficou, portanto, demonstrado que embora os sintomas desaparecessem, não eram de fato tratados, pois migravam para alguma outra área do corpo. A continuidade de suas investigações clínicas trouxe uma outra possibilidade: a fala sem censuras, o que foi chamado de “talking cure”. Surgiam então os primeiros pilares da teoria psicanalítica que era o método de pesquisa através da associação livre.
Nesses primeiros anos de pesquisa, Freud teve uma paciente que o ajudou muito a entender a mente humana - Anna O. Foi através dela que pode perceber a existência do inconsciente, a sexualidade reprimida como fonte importante de doenças nervosas, a teoria da transferência, em que o paciente repete com o médico um mesmo padrão de comportamento. Com o passar dos anos, surgem outros pensadores: Melanie Klein, Bion, Winnicott...
Hoje tem-se como certo que a medicina tradicional não serve como modelo único. O médico vê, ausculta, apalpa, usa o olfato, pede exames e pode devolver o equilíbrio orgânico que foi perdido ou que pode ser primeiramente instaurado como no caso do filme Quase Deuses. Mas é a psicanálise que trata de experiências que não dependem dos sentidos. A ansiedade não tem forma, cor, cheiro, som. O analista usa seu aparelho mental para enxergar o analisando.
Não se pensa mais em cura e sim em desenvolvimento psíquico. Mas o que vem a ser isto? É um conceito complexo. Tem a ver com um ganho de percepção sobre a realidade da vida, rupturas com papéis estereotipados e consequente aquisição de um sentimento de identidade, a obtenção de autonomia e responsabilização sobre os próprios atos, a melhora das relações consigo mesmo e com outras pessoas, a obtenção de uma capacidade de suportar frustrações, absorver perdas e fazer um luto pelas mesmas, a aceitação da condição humana de dependência em relação ao outro.
Sem dúvida, o ser humano precisa do médico clínico para as mazelas do corpo físico, assim como precisa de psicólogos, psicanalistas e psiquiatras para o tratamento de doenças nervosas. Todos temos consciência das grandes dores por que passa o ser humano. Outras demandas além das físicas pedem respostas, como percebeu Freud. Hoje, os psicanalistas são os profissionais que ajudam o paciente a encontrar essas respostas. E a psicanálise abre-se cada vez mais a outros campos do conhecimento. As artes constituem um deles. No contexto delas, o cinema.
Por isso, a psicanalista Lenise Azoubel vai comentar na tarde deste sábado Quase Deuses. Os atores Mos Def (Vivien Thomas) e Alan Rickman (Alfred Blalock) interpretam a história real dos responsáveis pela primeira cirurgia feita no coração. Filme vencedor de três Prêmios Emmy, produzido em 2004 nos EUA, tendo com roteirista Peter Silverman e como diretor Joseph Sargent, mostra uma história que começa em Nashville em l930 e revela a persistência, a humildade e a determinação de Vivien Thomas ao lado do cirurgião Alfred Blalock, reconhecido na profissão. Vivien era um hábil marceneiro e tinha um grande sonho, o de ser médico. Mas em meio a grande Depressão de 30, perde todo o seu dinheiro com a falência do banco onde depositara suas economias.
A narrativa nos revela a relação inicial do cirurgião com o marceneiro, que foi contratado para servir como funcionário de limpeza do laboratório de pesquisas médicas e cuidados especiais com cachorros cobaias. É uma obra inteligente, humana, em que ambos desafiam as leis médicas e os desígnios religiosos; estes, expressos pelo padre ao aconselhar o casal aflito, pais de um “bebê azul”, a não permitir a primeira cirurgia experimental.
Quase Deuses nos leva a repensar o preconceito racial, a reação ao novo, o medo do desconhecido, a liberdade de criar, as parcerias transformadoras, assim como o narcisismo e a arrogância. São todas facetas de nossa humanidade.
SERVIÇOS
Evento: Cinema e Psicanálise
Filme: Quase Deuses
Quando: neste sábado, dia 23
Horário: 15 horas
Onde: sede campestre do Centro Médico de Franca
Inscrições: R$ 5
Informações: (16) 3723-2815
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