-Olha aqui no lápis. Está escrito direitinho...
O velho estivera zanzando pra lá e pra cá, parecendo ler as tabuletas, as inscrições nas fachadas, os números nas paredes. Um pouco condoída, um pouco curiosa, a gerente da loja, Neusa Emiko, aproximou-se, especulou, descobriu que ele procurava uma firma chamada Irmãos Minervino. Ela nunca ouvira falar em tal loja, por isso, perguntou às colegas de trabalho. Elas também ignoravam aquele nome.
- Olha aqui no lápis. Está escrito direitinho.
Neusa Emiko examina o lápis, lê em voz alta:
Irmãos Minervino
Mármores granitos sanitários- azulejos - petrificados
Rua do Comércio, 1994 - Caixa postal 15.
- O senhor tem razão, o número 1994 é aqui...mas o senhor está vendo... a nossa loja chama Reino das Crianças. Vai ver que essa propaganda é doutra cidade.
A irritação do velho é evidente, seus lábios tremem, mas ele se contém. Retoma seu lápis da mão da mulher.
- Deixa que eu vou perguntar lá na esquina, perto da casa do Valter Amêndola e do Dr. Breno.
O homem leva à mão à aba do chapéu, em mudo gesto de despedida e se vai com sua bengala, seu terno branco, sua gravata, seu chapéu e sob o peso de quase um século de vida. Fica parado um tempão, lá na esquina das ruas do Comércio e General Carneiro. Em seguida caminha lentamente até a Praça Nove de Julho.
Para diante do monumento ao soldado da Revolução Constitucionalista de 1932. Depois de examinar de longe o monumento, aproxima-se, sobe os degraus com dificuldade. Com dificuldade, lê os nomes dos mártires. Com muito maior dificuldade, examina a placa pequena que informa a data da inauguração do monumento: 25 de novembro de 1938. Circunda o monumento, examina cada pedra de mármore e não localiza qualquer informação sobre a autoria daquele trabalho..
Uma nuvem de desalento perpassa o rosto do homem. Então, encostado ao monumento, abre porta de gaiola, deixa passarinhos de lembrança voarem por quarteirão da Rua da Estação. Passam por sobre o Curtume Carioca, a loja Riachuelo, a Ótica Melani... Lá na esquina ficavam as Casas Pernambucanas, o Banco Hipotecário... Virando à esquerda a gente chegava na marmoraria... Quem atendia o freguês era o Humberto... O Guerino e o João e o Giusepe trabalhavam com as pedras... O escultor de verdade era o Giusepe. Ele formou na Escola de Belas Artes de São Paulo, foi discípulo do professor Latorre, professor famoso. Eles eram os Irmãos Minervino. Eles é que fizeram este monumento. Eles é que fizeram os túmulos mais bonitos lá do Cemitério da Saudade. Tem anjo lá que parece anjo de verdade. Vem gente de longe pra olhar, pra tirar retrato... E aquela mulher vem falar que é propaganda doutra cidade...
- Que gente danada de esquecida.
O velho se apruma e, cuidadosamente caminha, desce os degraus, apoiando-se na bengala. Atravessa a rua, entra à direita, sobe o calçadão da Rua Voluntários da Franca.
Está compenetrado, muito compenetrado, por isso vê mundos: a Associação Italiana, as lojas Riachuelo...Aqui nesse lado da esquina ficavam as Casas Pernambucanas, ali ficava o Banco Hipotecário. Aqui era a Cristaleira, da Luíza Trajano e, na esquina, era o Banco do Brasil.
O toc-toc da bengala no cimento, nos ladrilhos, nas pedras das calçadas, descortina um mundo ainda concreto e vivo.
É a Farmácia Normal, o cartório do Juquinha Vilhena... tantos estabelecimentos, tantas residências.
A bengala e seu toc-toc chegam ao museu José Chiachiri, são recebidos por voz alegre e hospitaleira.
- Bom-dia, Sô Chico.
- Bom dia, menina Margarida.
- Faz tempo que o senhor não aparece. Entre, vem tomar um cafezinho.
- Hoje não, menina Margarida. Vou almoçar. Até já estou atrasado. Vim só pra trazer um presente.
-Um presente pra mim ?
- É... quer dizer, é pro museu. Tome.
- Um lápis ? É pra eu escrever a História...
- Não, não, menina. A História já está escrita no lápis.
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