De certas situações que ocorrem no dia a dia só tomamos conhecimento pelas estatísticas encontradas em relatórios técnicos ou em matérias jornalísticas. Sabemos que são reais, mas não sentimos de forma presente em nossa rotina diária. E há situações outras que chegam até nós de maneira inversa. Primeiro sentimos. Depois fazemos as considerações técnicas, com números e detalhes.
Como exemplo, cito o aumento da frota de veículos em Franca e no Brasil. De forma jocosa costumo dizer que o brasileiro gosta de levar seu carro para passear, da mesma foram com que alguns levam o cachorrinho. Raramente vemos um veículo com mais passageiros do que o próprio motorista. Quem precisa se locomover pelas ruas francanas sente, na própria pele, o quanto está se tornando insuportável o trânsito local. Por mais que a Administração Pública invista em organizar e reformular trajetos, além de conservar e modernizar sinalizações, sabemos que há um limite.
É óbvio que ter e dirigir seu próprio carro não é apenas uma questão de vaidade e de demonstração de status social (apesar de que, para muitos, isso seja relevante). É, antes de tudo, questão de políticas públicas de transporte coletivo e de educação para a cidadania. A falta histórica de um plano nacional de transporte público de qualidade levou nosso povo a desprezar o transporte coletivo e, assim, ao contrário do que acontece em outros serviços públicos, não se mobilizar para que o Estado investisse prioritariamente nesse serviço.
O povo, e seus representantes, já demonstraram capacidade para mobilizar e lutar por conquistas nas áreas de saúde, previdência, direitos trabalhistas, emprego. Até já presenciamos importantes mobilizações populares com finalidade política como foi a campanha Diretas Já e o Impeachment do Collor, mas, exceto por situações muito pontuais e circunstanciais – a exemplo de aumento de tarifa –, raramente vemos o brasileiro se mobilizar para exigir uma política de transporte público eficiente, moderno, com qualidade e conforto.
Essa característica atual do povo brasileiro precisa ser urgentemente mudada. Não podemos, sob o pretexto do desenvolvimento econômico (geração de riqueza e de empregos), fomentar indefinidamente o crescimento da indústria automobilística. Sinto muito dizer isso, pois sei que há milhares de francanos querendo ter seu próprio carro, mas a sociedade precisa enfrentar esse grave problema atual e suas conseqüências: trânsito congestionado, aumento assustador da poluição gerada pelos automóveis, individualismo intrínseco nesse desejo de ter seu próprio carro e falta de estrutura urbana para receber volume crescente de veículos.
E a situação não muda de um dia para o outro. O brasileiro que sempre gostou de copiar americanos e europeus deveria ter mais acesso a informações que mostrem o modo de vida dessas sociedades que, há muito, adotaram o transporte público e não o carro individual, como transporte prioritário. Aliás, é possível encontrar nos Estados Unidos e em diversos países europeus, profissionais bem sucedidos que não possuem carros próprios demonstrando, assim, que esse não é um valor essencial em uma sociedade que busca, realmente, seu bem estar.
Cassiano Pimentel
Agente de exportação e professor universitário
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