Entre o cinema e a realidade


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Ao atingir um público superior a 4 milhões de pessoas em sua segunda semana em cartaz nos cinemas brasileiros, o filme ‘Tropa de Elite 2’ torna-se a produção brasileira mais bem sucedida nas últimas décadas. Quando o primeiro filme foi lançado, em 2007, foi visto por menos de 3 milhões no cinema (um número considerável, em se tratando de um filme nacional), mas estima-se público de mais de 11 milhões por causa das cópias piratas em DVD que surgiram semanas antes do filme estrear. Desta vez, cercado de toda a segurança, ‘Tropa 2’ teve uma estreia de blockbuster, ocupando quase 700 salas em todo o País (número só alcançado por fitas lançadas por grandes estúdios norte-americanos). E o sucesso - que já tinha sido verificado no primeiro filme - se repete, pois ‘Tropa 2’ investe no chamado cinema-verdade, retratando a realidade de milhões de brasileiros. A violência hoje extrapola os chamados grandes centros e torna-se corriqueira as ações criminosas envolvendo tráfico e violências também nas cidades pequenas. Ou seja, o filme revela - em tons mais fortes ou menos fortes - aquilo a que o brasileiro está acostumado a vivenciar no seu dia a dia. A manchete de hoje deste Comércio é mostra dessa triste realidade.

Por essa razão, estranha-se que a causa da maior preocupação da população - a violência - esteja sendo praticamente ignorada na campanha dos candidatos à Presidência da República, Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB). Até agora, neste segundo turno, nem um dos presidenciáveis apresentou algo consistente que contemple não só Rio de Janeiro e São Paulo. O próprio diretor do filme, José Padilha, critica os governos dos últimos dezesseis anos (oito de FHC e quase oito de Lula) por não ter implementado nenhuma ação efetiva de combate à violência.

Enquanto a petista apela para as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadoras), uma iniciativa isolada do governo do Rio de Janeiro visando à redução da violência dos morros cariocas, e o tucano fala em termos genéricos sobre o tema pesado, a população brasileira fica à espera de um plano de governo que mostre qual será a conduta de um e de outro neste sentido. Se há propostas, pelo menos nada de efetivo foi discutido até agora. Há, sim, promessas, e não um planejamento efetivo do que pode ser feito para modificar a realidade com a qual milhões têm de conviver no seu cotidiano. Uma porcentagem muito grande da população sonha com o momento em que as situações apresentadas por ‘Tropa de Elite 2’ sejam realmente só ficção. Porém, no que depender do que os dois candidatos a presidente apresentaram até agora, ainda vai demorar muito para isso acontecer. Ouvindo o programa eleitoral, é como se o país em que todos vivemos fosse diferente para os que querem nos governar. Ou então os candidatos sofrem de algum problema grave de percepção do real, que os impede de ver o perturbador avanço da violência urbana no Brasil.

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