A latinha de refrigerante cheia de arroz imita o ganzá; a lata de goiabada tem o mesmo som do tamborim; o balde, do surdo; e o escorredor de macarrão lembra a caixa. Dá para imaginar que destes utensílios domésticos sai um som de qualidade e com muito gingado? Nas mãos de crianças e adolescentes do projeto Batuque no Balde, os objetos artesanais ganham outra função inusitada: a percussão. O psicólogo e músico Otraganiz Tobias de Moraes Neto completa a bateria, criada no ano passado em Franca, mas que já colhe bons resultados.
“Esse projeto que produz música de maneira ousada é uma releitura de um projeto de bateria que já foi realizado na Unesp, onde a gente mescla harmonização, voz e bateria de torcida. Surgiu de uma peça para o Desafio Anual de Baterias. Lembra um pouco o Monobloco”, explica Neto. “Acredito que os utensílios domésticos aproximam os jovens dos instrumentos musicais. Eles percebem que a sua própria musicalidade está bem perto, num instrumento próximo que faz parte do seu cotidiano”, ressalta o professor.
A ainda amadora bateria de escola de samba já coleciona quesitos importantes para ganhar fama: harmonia, percussão, voz, força de vontade e talento de quase 40 estudantes que moram em bairros carentes de Franca e são assistidos pelo Cras (Centro de Referência em Assistência Social).
“Aquela família que esteja em situação de pobreza, vulnerabilidade, tem no Cras o seu ponto de partida. Tentamos dar uma alternativa para que as pessoas façam do seu tempo uma coisa produtiva”, afirma o secretário de Ação Social, Roberto Nunes Rocha. “Só o fato das crianças não ficarem perambulando pelas ruas, suscetíveis às drogas e à criminalidade, já é um ganho muito grande”, completa.
Nas aulas semanais, os futuros candidatos a grandes músicos aprendem conceitos de formação musical e tomam conhecimento da diversidade de gêneros e ritmos na prática. “Os alunos aprendem a ouvir, a entender que embora você tenha sua voz interior é preciso conciliar isso socialmente na música. Também ensino um pouco da história da música brasileira, a contextualização do que a letra propõe, o estilo, a dança”, enfatiza Neto.
Gratidão, entusiasmo e alegria fazem parte da rotina do professor que tem a oportunidade de conviver com esses jovens e apurar talentos musicais. “É bacana garimpar novos músicos e, além de tudo, sensibilizar os homens também, porque acredito que por meio dessa coesão entre a música e o ser humano, entendemos um pouco sobre o comportamento social”, conta.
A recompensa vem das palavras e das atitudes dos próprios alunos. “Esse projeto é bastante legal. Como diz aquele ditado ‘quem canta os males espanta’, a música é muito interessante. Você fica mais feliz, mais alegre, seu astral muda”, fala empolgada Juliana Damasceno Borges, 14, que mora no Jardim do Éden.
A intimidade com a música é tanta que os alunos já sonham com um futuro promissor e feliz. “Espero muito seguir uma carreira musical”, deseja Richard Nascimento Silva, 12, morador do Parque Vicente Leporace, que sabe tocar vários instrumentos como violão, tambor, flauta.
O PROJETO
O Batuque no Balde é mantido pela prefeitura de Franca por meio da Secretaria de Ação Social. As aulas gratuitas acontecem em quatro regiões da cidade (norte, sul, leste e centro) divididas em seis turmas e reúnem quase 40 crianças e adolescentes com idades entre 8 e 25 anos. A exceção é o Jardim Aeroporto, onde acontecem duas aulas por semana. Uma vez por mês as turmas se unem para ensaiar juntas na sede recreativa da Associação Atlética Francana.
Para participar do projeto, os interessados precisam se cadastrar no Cras, que também exige obediência a alguns critérios: além da idade, o jovem deve estar estudando. Todos os inscritos recebem auxílio transporte e lanche após as aulas.
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