As relações entre imprensa e poder


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Em 1950, o presidente americano Harry Truman escreveu uma carta ao crítico de música do Washington Post que colocara em dúvida o talento ao piano de sua filha. Bill Clinton apreciava tanto a resposta que ao ser eleito em 1992 mandou emoldurar o texto e colocá-lo na parede de seu gabinete. Nunca se soube ao certo o que Clinton pretendia com isso. Um pôster contra a tirania da imprensa? Inconformismo em relação à invasão de privacidade? Advertência de que tinha ali um modelo de conduta?

O certo é que Clinton adorava ridicularizar jornalistas. Numa aparição pública em Moscou, por ocasião das comemorações dos 50 anos da ONU, caiu em gargalhadas profundas quando o colega Yeltsin fez uma piada sobre erro factual de um jornalista sobre a Bósnia. A zombaria foi registrada para o mundo inteiro como marca do complicado relacionamento entre jornalistas e políticos.

O governo ideal de qualquer homem dado à reflexão, de Aristóteles em diante, é aquele que deixa o indivíduo em paz – um governo que praticamente passe desapercebido. A frase, do jornalista americano Henry Mencken (1880-1958), em O Livro dos Insultos, expressa bem o eterno clima de desconfiança entre a imprensa e o poder político.

Nenhum outro país é tão emblemático em relação à convivência entre imprensa e poder como os EUA. Isso talvez explique a reação de Clinton. Pois foi a petulância de dois repórteres do mesmo Washington Post, na investigação do caso Watergate, que levou à renúncia do presidente Richard Nixon em 1974.

No Brasil, a questão é tão antiga quanto a própria existência do governo e da imprensa no País – início do século 19, Império. Ressalvados os estilos de cada época, não há governo que tenha passado incólume às críticas da imprensa. E não há político que não tenha reagido, com ou sem grosseria. Para compreender os dias de hoje, é bom fazer uma viagem no tempo. A equidistância ajuda a entender o presente e a projetar o futuro.

FHC
Ao responder pergunta de um jornalista sobre o que faria com um salário mínimo de R$ 70, Fernando Henrique Cardoso respondeu secamente: “A mesma coisa que você”. E tentou orientar a conduta do profissional: “Este é o tipo de pergunta demagógica. Temos que ser sérios e não engraçadinhos”. Era a primeira entrevista coletiva do então presidente, fevereiro de 1995. Estava encerrada a lua-de-mel que normalmente marca a relação entre a imprensa e os novos governos, em seus primeiros dias. Estava demarcado o território que separa poder e imprensa. FHC propiciou vários lances de desagrado e discordância em relação ao papel da imprensa. Em outro momento, quando sentiu-se acuado pelos críticos da concorrência para o Sistema de Vigilância da Amazônia, saiu-se com essa: “Vamos evitar que esse espírito de corvo volte a pousar no País, de ver podridão em tudo”. A reação ocorreu depois que uma revista semanal botou lenha na fogueira ao publicar trechos fulminantes de escutas telefônicas feitas pela Polícia Federal na casa do então chefe do cerimonial. Que acabou sendo demitido após o escândalo.

MENEM
Ainda nos anos 90, o argentino Carlos Menem teve vários momentos de explosão com jornalistas. Certa vez irritou-se com uma repórter da rede CNN quando foi perguntado sobre a venda de armas ao Equador em plena guerra com o Peru e sobre a demora na apuração de atentado terrorista. Assessores tentaram interromper a entrevista, afirmando que o povo argentino estava sendo ofendido. Menem chegou a sugerir que a entrevista não fosse ao ar. “Nem o general Pinochet (ditador do Chile), com quem fiz uma entrevista muito mais dura, me tratou tão mal”, disse depois a jornalista. Em outra ocasião, Menem referiu-se ao diário argentino Página 12 como “imprensa amarela”, termo pejorativo, equivalente a “imprensa marrom” no Brasil (de baixo nível, tendenciosa). O jornal, demonstrando espírito de humor, rodou a edição do dia seguinte inteiramente em papel de cor amarela, mandado comprar às pressas.

BRASIL, 2010
Este ano, o presidente Lula reclamou diversas vezes da imprensa. Também o candidato José Serra, dias atrás. Alguma surpresa? Nenhuma. Um soco na mesa, uma frase mal humorada, um processo judicial, uma retaliação ou uma simples irritação – não importa a forma com que o político venha a reagir a uma pergunta embaraçosa ou ao ver publicada uma matéria que o desagrade. Sempre que houver o destempero por parte de um presidente, governador, prefeito, senador, deputado ou vereador, terá sido emitido um sinal de vitalidade da imprensa. Não que o conflito seja imprescindível. Mas o desconforto permanente de governantes diante do trabalho dos jornalistas é sintoma de que os espaços de cada um não se misturam. Felizmente, para a democracia.

Wilson Marini
wmarini@apj.inf.br

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