A aposentada Maria Nobre, 60, moradora do Jardim Petraglia, vive atormentada dentro de sua própria casa. Sua filha S., de 37 anos, e sua neta, B., de 20, são viciadas em crack e, segundo a aposentada, estão fora de controle. Elas roubam objetos e dinheiro, agridem verbalmente Maria, provocam escândalos, não têm pudor, somem por dias sem dar notícias e, quando retoram, xingam, gritam e ficam agressivas. A situação é tão dramática que a aposentada se viu obrigada a instalar uma grade entre o quintal e a casa para se proteger das investidas das duas.
Maria não é a única a sofrer com o vício das duas. Na casa que a aposentada mantém sozinha, com R$ 576 mensais (que recebe de pensão), ainda moram três crianças: o filho de S. - de apenas seis anos - e as filhas de B., uma garoti- nha com dois anos e a outra com um ano. “Não aguento mais essa situação. Temo pelo meu neto e pelas minhas bisnetas. As crianças sofrem demais com tudo isso. Elas não merecem passar por essas coisas. São tão novinhas...”, disse a aposentada.
De acordo com Maria, S. usa crack há muitos anos. “Sinceramente, não sei dizer exatamente quando esse inferno começou. Só sei que a situação piorou muito há cinco anos, quando minha neta também começou a se drogar”, diz.
A vizinha da família, Ângela Cristina Jardim, acompanha de perto o drama de Maria. “Ela tem que cuidar das crianças e, muitas vezes, a filha e a neta a enfrentam. Choro junto com ela porque sinto demais tudo o que ela sofre”, disse.
Ontem pela manhã, a reportagem esteve na casa de Maria. Ela enfrentava um outro lado do mesmo problema: o sumiço da filha. “Ela sumiu desde segunda-feira. Não faço ideia de onde ela esteja. Não sei o que ela fica fazendo nas ruas e fico muito mal. Tenho medo de que algo muito ruim aconteça”, disse a mãe, que se preocupa com a ausência da filha e, ao mesmo tempo, com os problemas que ela causa assim que retorna para casa. “É um sofrimento que parece que não tem fim”.
B., a neta, dormia. Ela foi acordada pela avó, mas não quis conversar. “Ela chegou tarde ontem”, disse a avó, com um tom desconsolado na voz. “Ela estava falando coisas sem sentido. É sempre assim...”, se emociona. “Agora ela dorme direto. É essa a rotina que vivemos”, completou.
GRADE DE SEGURANÇA
A casa da família tem apenas uma televisão na sala e alguns móveis espalhados pelos cômodos. O pouco que resta na casa, Maria tenta proteger da maneira que consegue. Logo na entrada, ela colocou uma grade para separar o quintal do restante da casa. Maria disse que se viu obrigada a instalar a proteção para impedir que a filha e a neta furtem coisas da casa durante as crises causadas pelo efeito do crack. “Minha casa está toda arrebentada. Elas pegam tudo e vendem para comprar drogas. Quando percebo antes, fecho o portão. Mas aí é um tormento. Elas tentam entrar de qualquer jeito. Eu fico doida aqui dentro com as crianças”, disse Maria que, sempre com lágrimas nos olhos, afirmou que não sabe mais o que fazer. “Na segunda-feira, recebi R$ 66 do Bolsa Família para comprar comida para as crianças. Mas elas roubaram. Chamei a polícia aqui, mas não adiantou nada. Os policiais disseram que não podem fazer nada porque elas são minhas parentes”, disse em desespero.
A princípio, pode parecer absurda a resposta que Maria ouviu dos policiais. Mas ela tem fundamento. De acordo com o artigo 181 do Código Penal, quando furtos são realizados entre pais e filhos ocorre a isenção da pena. “A lei diz claramente que, no caso de furto entre ascendentes e descendentes, não existe a punição”, disse o advogado Denilson Carvalho.
Ainda assim, o registro da ocorrência pode e deve ser feito, explica o delegado Daniel Radaeli. “Precisa haver a submissão à autoridade policial. A ocorrência, nesse caso, deveria ter sido realizada”, afirmou.
INTERNAÇÃO
Para Maria, a única saída seria a internação das duas, muito embora ela mesma diga que já tentou esse caminho e não obteve resultado, uma vez que, pela legislação brasileira, ninguém pode ser internado contra a própria vontade. “Consegui vaga e elas passaram um tempo na Amafem (Associação Mão Amiga de Amparo Feminino), mas não ficaram mais de sete dias. Elas vão embora e ninguém pode fazer nada...”, lamenta. “Na verdade, não sei o que fazer. Só sei que minha neta, principalmente, precisa de tratamento psiquiátrico. Hoje eu fiquei impressionada quando ela tirou um pão da boca do cachorro e comeu”, disse chorando. “Elas já roubaram até as coisas das crianças. Não tenho mais forças para enfrentá-las. Até hoje não fui agredida fisicamente, mas não sei até que ponto podem chegar. Já cheguei a pensar que poderia até matar uma delas um dia, de tanto desespero que sinto”, desabafou.
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