Se alguém perguntar por Evanildo Donizete Montagnini em Restinga, poucas pessoas vão saber dizer quem é. Agora é só falar o apelido “Zetão” que todos têm a resposta na ponta da língua. Funcionário de carreira, desde 1993 integra o quadro de servidores da Prefeitura de Restinga. A porta de entrada foi um concurso para motorista. Há quase seis anos, Zetão é o secretário de Saúde do Município. Ele sempre foi filiado ao PMDB e alimentava os planos de se candidatar a vereador. Uma sucessão de fatores o transformaram na principal autoridade da cidade em pouco tempo.
Em 2007, convencido pelo cunhado Clarindo Ferracioli, o Belão, ele deixou o PMDB e filiou-se ao PSC. Com a aprovação dos partidos que integravam a coligação de apoio ao então candidato a prefeito, ele teve o nome indicado para ser o vice na chapa. A dobradinha venceu as eleições municipais de 2008. Belão assumiu pela quarta vez a Prefeitura e o cunhado Zetão foi nomeado secretário de Saúde, cargo que já havia ocupado nos quatro anos anteriores durante a administração de Amarildo Nascimento.
O homem de origem simples, que estudou até a oitava série e que nasceu na mesma fazenda que Belão, não imagina o que o destino lhe reservava. No último fim de semana prolongado, como não haveria expediente nas repartições municipais por causa do feriado, Zetão foi descansar com a família na região de Peixoto, em Ibiraci (MG). Por volta das 3h30 do dia 12 de outubro, terça-feira, o secretário foi acordado por dois amigos que chegaram apressados à propriedade, onde o telefone celular não pega. “Na hora, eu desconfiei que eles dariam uma notícia ruim”.
O pressentimento de Zetão estava certo. Os dois amigos levavam a notícia de que Belão havia sofrido um acidente de trânsito horas antes e que estava morto. Zetão acabara de perder o cunhado, o amigo. Sem que tivesse tempo de refletir, o homem que sonhava em ser vereador e que foi dormir secretário de Saúde, acordava como o novo prefeito de Restinga. O passeio em família foi suspenso na hora e Zetão retornou imediatamente para sua cidade. Era hora de confortar os familiares e ajudar nos preparativos do velório.
Não houve posse oficial, não houve qualquer tipo de transição. Chocado com a morte de Belão, Zetão afirmou que assumia a Prefeitura com um sentimento de tristeza e ciente da responsabilidade que o esperava. “Não gosto de usar o termo substituir. Para mim, o Belão é insubstituível”. Na manhã de quinta-feira, ele se reuniu com os servidores municipais e entrou pela primeira vez no gabinete como prefeito. “Confesso que foi difícil, foi uma sensação estranha”. No primeiro dia como administrador de Restinga, Zetão recebeu a reportagem do Comércio e falou sobre sua relação com Belão, sobre as propostas e desafios que terá pela frente.
Comércio da Franca - Como foi dormir como secretário de Saúde e acordar prefeito de Restinga?
Evanildo Donizete Montagnini, o Zetão - Pelo lamentável fato que aconteceu, assumo ciente da responsabilidade que terei, mas com muita tristeza pela perda do nosso companheiro. O Belão vinha fazendo um bom trabalho, sanando as dívidas, colocando a casa em ordem e as obras em andamento. Assumo a Prefeitura com tristeza por ter perdido uma pessoa muito querida, mas, por outro lado, com muita responsabilidade e vontade de fazer uma administração bem feita. O Belão era uma pessoa muito trabalhadora, batalhadora. Eu tenho noção da responsabilidade que é assumir o cargo que ele deixou. Não gosto de usar o termo substituir. Para mim, o Belão é insubstituível.
Comércio - Como o senhor ficou sabendo da notícia sobre o acidente?
Zetão - Eu estava passando o feriado com a família na região de Peixoto, em Ibiraci, onde não pega o telefone celular. Dois colegas chegaram por volta das 3h30 e, na hora, percebi que seria uma notícia ruim. Eles disseram que o Belão havia sofrido um acidente e morrido. Quase me mataram do coração. O chão parece que desapareceu. Até agora, de lembrar, eu fico arrepiado. Voltei na mesma hora para Restinga.
Comércio - Além de ser o vice de Belão, vocês são parentes. Sua irmã é mulher do ex-prefeito. Como era sua relação com ele?
Zetão - Sem dúvida nenhuma. Nós temos ligação de uma vida toda. Eu tenho 43 anos e passei boa parte deste tempo ao lado dele. Nascemos na mesma fazenda, a Alegria, que fica aqui em Restinga. Somos da mesma origem. Ele veio para a cidade primeiro do que eu. O Belão era um pouco mais velho do que eu, dez anos. Praticamente, ele me viu nascer. Convivemos juntos quase a vida toda. A notícia de sua morte foi um choque muito grande. É uma fatalidade que abala qualquer pessoa. Além de termos de cuidar da família, de acolher, a gente sabe que tem a Prefeitura pela frente. É um momento difícil, mas estamos firmes e sei da minha responsabilidade. Tenho consciência do que vem pela frente e, se Deus quiser, vai dar tudo certo.
Comércio - A primeira eleição que o senhor disputou foi como vice de Belão nas eleições municipais de 2008. O seu ingresso na política foi a convite dele?
Zetão - Eu tinha um projeto de ser candidato a vereador, pois sempre gostei da política, de estar no meio, mas nunca havia tido a oportunidade de me candidatar. Conforme o processo foi sendo conduzido, surgiu o convite, não só do Belão, mas de todos os partidos que formavam a coligação de apoio. O grupo chegou a um consenso de que poderia ser o meu nome e eu aceitei o desafio com tranquilidade e naturalidade. Estou muito satisfeito por isto.
Comércio - O senhor está preparado para administrar Restinga?
Zetão - Acredito que sim. Naturalmente, a gente não sabe tudo, mas eu tenho uma experiência de mais de seis anos à frente da Secretaria Municipal de Saúde, que é uma pasta muito importante dentro da administração. É onde a gente vinha aplicando quase 30% do orçamento.Tenho um pouco de noção. Logicamente, a partir deste momento, vou tomar pé de toda a situação da Prefeitura. Pretendo fazer um planejamento e dar sequência ao trabalho que o Belão vinha fazendo. Sei que ele tinha um jeito arrojado e eu pretendo, pelo menos, me aproximar desta linha dele para seguir o trabalho que ele deixou.
Comércio - O Belão era um político popular, autêntico e, às vezes, explosivo. O senhor tem o mesmo perfil? Qual a diferença entre o Zetão e o Belão?
Zetão - O Belão tinha a maneira dele de ser. Ele não tinha uma maquiagem. Sempre teve a mesma personalidade em todas as quatro vezes que ocupou o cargo de prefeito. Mesmo fora da Prefeitura, ele mantinha a mesma linha. Eu pretendo seguir, logicamente, as coisas boas que via nele. Aprendi muito com ele e pretendo colocar isso em prática. É evidente que não somos iguais. Tem uma ou outra coisa que vai ser diferente.
Comércio - Podemos dizer que seu perfil é mais moderado? De mais diálogo?
Zetão - Eu entendo que o diálogo seja o melhor caminho para tudo na vida, não só para a política. O diálogo é fundamental em todos os setores. O entendimento sempre deve prevalecer. Por meio de uma conversa, a probabilidade de acertar é maior.
Comércio - O senhor disse que aprendeu muitas coisas com o Belão. O que ele fez que o senhor não faria?
Zetão - Ele foi atacado injustamente muitas vezes e permaneceu calado. Eu responderia à altura para aqueles que tentaram denegrir a imagem do Belão. Eu acho que ele poderia ter respondido e não respondeu. Ele sempre perdoava os adversários. No mais, sempre dentro das nossas possibilidades, eu vou tentar seguir a mesma meta de fazer o melhor para a sociedade que ele sempre defendeu.
Comércio - Como o senhor pretende se relacionar com os antigos desafetos do ex-prefeito?
Zetão - Eu pretendo conversar com o pessoal. Acho que é importante dividir as responsabilidades. Fomos eleitos juntos com os vereadores e vamos dividir a responsabilidade com todos. A responsabilidade de fazer uma boa administração, de fazer com que a cidade progrida e siga em frente é de todos, não é só do prefeito. Vamos fazer uma reunião e conversar com o grupo para definir os rumos dos trabalhos a partir de agora.
Comércio - A intenção é buscar um entendimento, uma relação mais cordial com a Câmara?
Zetão - Com certeza. Como eu disse, sempre na base do diálogo porque a população não pode ser prejudicada por brigas entre o Executivo e o Legislativo. Acredito que quem tem a perder com estas brigas é a população. Vamos tentar a conciliação para que todos trabalhem na linha de fazer a melhor administração para Restinga e colocar a cidade no rumo certo. Esta sempre foi a meta do Belão.
Comércio - Por ser um político em início de carreira, são menos de dois anos com um cargo eletivo, o senhor acredita que terá a tranquilidade necessária para trabalhar levando-se em conta a forte oposição existente no município?
Zetão - Não conversei com ninguém da oposição ainda, mas tenho certeza de que eles vão querer o bem da cidade. Então, vou partir para esta linha. Se eles foram eleitos e se querem o bem da cidade, acredito que não será difícil conversar. Espero que não haja problemas.
Comércio - Qual é a principal dificuldade da Prefeitura hoje?
Zetão - O problema é o orçamento reduzido. A crise econômica ocorrida há dois anos deixou a Prefeitura numa dificuldade muito grande. Os repasses caíram e ficou cada vez mais difícil cobrir as despesas. O Belão vinha ao longo deste ano se esforçando para sanar as dívidas e organizar a situação financeira do município. Buscar este equilíbrio e tentar reduzir as dívidas é o que pretendemos fazer para poder dar sequência aos projetos. Se Deus quiser, vai dar tudo certo.
Comércio - Qual é o seu principal compromisso com a população?
Zetão - A principal prioridade é construir as casas populares. O Belão tinha o sonho de fazer estas moradias para a população mais carente e eu, como meta para os dois anos que pretendo ficar à frente da Prefeitura, vou me esforçar para que este sonho se transforme em realidade. A cidade tem gente muito carente necessitando de uma casa própria. Temos um projeto para construir 165 moradias. Esta é uma obra à qual darei total prioridade no meu governo. Há outras obras em andamento, como o CCI (Centro de Convivência do Idoso) e as galerias do alto do Jardim Nova Restinga. O asfaltamento do Jardim Pedreiras e as guias e sarjetas do Alto Boa Vista vão começar em breve. Também pretendo dar início o mais rápido possível às obras de construção da escola do Alto Boa Vista.
Comércio - O senhor tem uma previsão de quando as casas começarão a ser construídas?
Zetão - As unidades já foram aprovadas pela CDHU e pelo governo do Estado. O município também já fez a doação do terreno à companhia. Agora é esperar os trâmites burocráticos para dar início às obras. Espero e vou me esforçar para que seja o mais breve possível.
Comércio - O que o senhor diria aos eleitores que confiaram ao Belão o mandato que acaba de assumir?
Zetão - A mensagem é de muita fé, que a população tenha muita esperança. Da minha parte, vou fazer o que tiver ao meu alcance para não decepcionar. Espero que as pessoas fiquem tranquilas e serenas. Devagar as coisas vão se encaixar, vão tomar uma linha.
Comércio -Os servidores municipais estão apreensivos. Pretende fazer alguma reforma administrativa?
Zetão - Pretendo tomar conhecimento de toda a situação do quadro de funcionalismo. Vou me reunir com todos os setores. Naturalmente, vão ocorrer algumas mudanças, mas não é nada grande.
Comércio - O seu plano era ser candidato a vereador. Antes que isto acontecesse, tornou-se vice e, agora, prefeito. Em 2012, vai se candidatar para exercer um mandato inteiro com sua marca?
Zetão - Ainda não pensei nesta possibilidade. O que eu penso no momento é em trabalhar e cumprir o projeto que me dispus a fazer com o Belão. Pretendo fazer uma boa administração nestes próximos dois anos. O futuro político será consequência do trabalho. É muito prematuro falar em eleições agora.
Comércio - Qual lição o senhor tirou da convivência com o Belão?
Zetão - Foi o aprendizado de muita humildade. Ele tinha aquele jeito dele, mas era uma pessoa de coração muito bom. Sempre conviveu com os mais humildes e olhou para todos. Não fazia distinção. O aprendizado que levo, que pretendo trazer para mim, é este: não ter diferença com o próximo e seguir uma linha de muita paz, de muito amor no coração. Outra lição que levo dele é ouvir mais e falar menos.
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