Imagens ao vivo da superfície e das profundezas do deserto de Atacama testemunharam o desfecho feliz da história épica propiciada pela engenhosa operação de resgate dos 33 trabalhadores confinados a mais de 600 metros de profundidade.
A transmissão foi feita para uma audiência global de um bilhão de pessoas num grande, demorado e emocionante espetáculo. Valores como a coragem, esperança, solidariedade, liderança e espírito de grupo foram abordados exaustivamente pela mídia do mundo inteiro do primeiro ao último resgate, durante quase 24 horas, e após mais de dois meses de medo, sofrimento, dúvida, cuidados e, por fim, alegria.
O presidente chileno, com a popularidade antes em baixa, recuperou-se a partir do momento em que mobilizou forças logo após o acidente em agosto. Marcou presença no local, ampliando a celebridade. Houve quem o criticasse por se aproximar demais da cápsula e abraçar mineiro resgatado antes mesmo de familiares, em alguns casos. Difícil nesse momento separar o sentimento humanitário e nacionalista do desejo de notoriedade inerente a um político como ele.
Um mineiro fez as primeiras filmagens no buraco, divulgadas no dia 28 de agosto, e que serviram para mostrar como se encontravam. Atuou como um repórter em causa própria. Enquanto isso, jornalistas disputavam o metro quadrado para se posicionar melhor. Um cinegrafista e um fotógrafo brigaram por causa da visão privilegiada sobre uma pedra. Outro fez um diário do confinamento – que certamente terá um valor de ouro bruto para a edição de livro e inspiração para roteiro de filme.
Escritores e cineastas fazem projetos. Já há tentativas de negociação para entrevistas exclusivas a canais de TV. A cena da cápsula rústica descendo e subindo será lembrada como uma das imagens do ano – e quem sabe, da década. Ao trazer das profundezas uma sacola de pedras, o mineiro Mário Sepulveda criou um ícone, consciente ou não do valor do gesto.
REALIDADE E FICÇÃO
Em fatos desse tipo, é comum se recorrer à literatura ou à arte para se encontrar similaridades e explicações sobre o comportamento humano. O cinema é uma fonte riquíssima. E é incrível que, em muitas dessas ocasiões, como agora, uma obra de ficção distante no tempo forneça elementos de reflexão graças aos elementos de coincidência e inspiração.
Em 1951, o filme A Montanha dos Sete Abutres abordou os estragos éticos que podem ser provocados por um jornalista mal-intencionado, apenas interessado em suas reportagens exclusivas. O repórter Charles Tatum (interpretado por Kirk Douglas, pai de Michael Douglas), defende a ideia de que um jornal pode manipular os fatos para aumentar a comoção entre os leitores. Na época não existia internet e a televisão era incipiente, mas a ideia de ampliar a audiência já existia. “Se não tenho uma notícia, saio e mordo um cachorro”, dizia o personagem, numa referência a uma lei no jornalismo segundo a qual “Se um cachorro morde o homem não é notícia, mas o contrário, sim”. E no filme, ele teoriza: “Descobri que notícia ruim vende mais. Notícia boa não é notícia”.
A ligação do filme com o episódio no Chile está no enredo. O repórter Tatum envolve-se então numa operação de resgate de um sujeito prensado nos escombros de uma caverna. Entra no local antes mesmo da equipe socorrista. O fato ganha repercussão e atrai jornalistas de todos os cantos, que montam barracas para o plantão num parque de entretenimento formado por cerca de 3 mil pessoas, mesmo número estimado para a concentração dos últimos dias no Chile.
A sua influência era tamanha que consegue convencer a Defesa Civil da época a optar por uma alternativa de salvamento mais demorada, para prolongar o espetáculo e gerar mais reportagens. Nesse meio tempo, negociava a venda de detalhes exclusivos e ingressos para quem quisesse assistir ao drama de perto, ao vivo. Ao perceber que a vítima corria risco de morte, exclama: “A história tem que ter um final feliz, não posso fazer tanta gente de trouxa”, mostrando que até a falta de escrúpulos tem limite. Era tarde. O homem morre no sexto dia, sufocado.
A Montanha dos Sete Abutres é uma obra-prima do jornalismo. É um clássico que se transformou em referência no meio por ter representado um brado contra o sensacionalismo de parte da imprensa da época – e que ainda sobrevive em jornais de segunda linha e na televisão menos qualificada. Por isso, o filme ainda é contundente. O filme aborda o egoísmo, a ausência de ética, jogos de poder, ambição, projeção a qualquer custo e tudo o que possa remeter ao pior da natureza humana — o oposto do que predominou no Chile. Ao menos agora, a humanidade dá sinais de evolução. A realidade é melhor do que a ficção. Notícia com desfecho feliz também gera emoção e audiência.
Wilson Marini
wmarini@apj.inf.br
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