Faz tempo que não vejo o França, com sua célebre bolsa a tiracolo. Eu o encontrava sempre que ia levar meu pai ao barbeiro nos sábados, a cidade rugindo com o trânsito congestionado, as pessoas encantadas e ao mesmo tempo desesperadas em atender o apelo do consumo das lojas e supermercados e ele com sua fala mansa, tranquila, contando histórias de uma Franca que não há mais. Eram dias propícios para chutar os cones, mas o principal interessado na atividade anda meio macambúzio, preocupado com sites pornôs, aterros de construção velha e outras platitudes.
Por falar em chutar os cones, a aparição na TV de uma entrevista com Newton Cruz, um dos sinistros generais da ditadura militar, me fez lembrar dos seus porões infames, em especial da sede do antigo DOI-CODI em São Paulo, onde ficou preso o dr. Alfredo Costa, que foi restaurada e transformada num apêndice da Pinacoteca do Estado e vale uma visita.
O França entra na história porque, se não me engano, foi ele o introdutor da butique em Franca. Hoje existem centenas delas, muitas sofisticadíssimas e dedicadas a nichos de mercado, esparramadas por todos os bairros. Mas foi ali, na rua Monsenhor Rosa, ao lado da sede antiga da CTBC, próxima à AEC, que o França abriu, em meados dos anos 60, a primeira butique da cidade, que se chamava Porão, pois era meio enterrada mesmo em relação à rua, num prédio antigo. A atendente da loja, uma moça loura, ficou conhecida como a Loira do Porão, todo mundo queria passar diante da butique e ver as novidades fashion que vinham da capital, mas que só os mais ricos podiam comprar. E, claro, ver a loira do Porão. Era algo inusitado na pequena cidade, tão diferente como o primeiro boliche que a cidade teve, na rua Voluntários, onde hoje é a loja do Magazine Luiza.
Mas havia ainda outro porão, bem mais divertido, o da minha casa. O insuperável porão da dona Helena, onde montei a sede da Prudentina, com biblioteca de gibis e área para jogos, garantia de diversão para todos os meninos dos quarteirões próximos. Depois, foram minhas irmãs que invadiram o porão com festas de aniversário e reuniões de estudo, frequentados por tanta gente que alguns, quando nos encontramos, como o Palito, ainda se lembram de detalhes dos sabores do Q-Suco (outra novidade da época, um pó que substituía as frutas de verdade para fazer o refresco) que era servido ou das receitas dos bolos que minha mãe fazia para aquela galera sempre esfomeada.
Estas coisas ficam acondicionadas noutros porões, os da memória, mas sempre que acionadas, retornam com o sabor de Q-Suco das tardes ensolaradas e vazias de uma cidade tranquila e pequena, onde os vizinhos se conheciam e que resiste apenas em nossas lembranças.
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