Não são ‘tios’...


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Tinha a dona Isolina. Acho que era com s, mesmo. Ou Izolina? Não sei. Mas se o nome me deixa confusa, sua lembrança é clara, bem como o que representava.

Era professora da classe do Jardim de Infância. A foto mostra aluninhas simetricamente distantes, colocadas uma ao lado da outra sobre os degraus da escada do pátio da escola, usando avental xadrezinho e - todas - com enorme laço de fita nos cabelos. Uma menininha coça a mão, a outra torce o nariz, a outra coça o tornozelo com a ponta do pé desocupado. Belíssimo instante captado por habilidoso fotógrafo no qual a professora, que usava um turbante de crochê sorri, poderosa, atrás dos óculos escuros. Ela não era tia, era professora mesmo. Não admitia que os pais fossem lá reclamar privilégios para seus rebentos. Era exigente, era até brava. Ficou na memória como uma figura rígida, amorosa e competente. Ela ensinou coisas que até hoje utilizo: ensinou-me a esperar; repartir meu lanche; recolher o que eu tivesse esparramado; ficar em silêncio enquanto as colegas dormiam; fazer as tarefas com capricho; não mentir; manter minha palavra. Não saí de lá lendo ou escrevendo, mas aprendi a me comportar com dignidade.

Depois teve a Dona Celeida. Dois anos de ‘ponteirada’ na cabeça, pois ela nos levava para a frente do quadro negro e nos fazia ler o que estava escrito ali. Em caso de erro ... ponteiro! - uma haste comprida de madeira com arestas - quando poderia ser arredondado, que ia doer menos, ao ser usado na cabeça da gente. Também era útil quando tínhamos que falar a tabuada, de cor e... salteado! Não, não era tia. Era dona, mesmo. Durona, apenas seus olhos sorriam toda vez que conversava conosco. Aprendi a ler, escrever, fazer contas, uns princípios de ciências, rudimentos de geografia, de história. Aprendi com ela, sobretudo, a ser carinhosa com meus livros. Nunca soube de algum pai que tivesse ido lá na escola reclamar das ‘ponteiradas’ da dona Celeida. Professor, naquela época era uma autoridade. Era uma criatura superior. Tinha dignidade. Era respeitado ainda que os métodos se desviassem da ortodoxia pedagógica...

Depois, em outras etapas, vieram dona Lúcia Ceraso, Dona Helena Barbosa, Dona Irene Motta, Dona Maria Inês Vilhena, Dona Meire Spessotto, Dona Alzira, Dona Branca. Nenhuma era tia. Eram professoras. Ainda tinha o Dr. Palermo, Dr. Valeriano, Dr. Blücher, por uns tempo o Chola, “Seu” Pedro Nunes Rocha, “Seu” Nicanor, “Seu” Luiz Martins. Nenhum era tio. Eram professores. Eram autoridades. Ganhavam bem: o salário de professor era compatível com o de juiz de direito, dizia-se. Trabalhavam bastante; eram competentes no que faziam; o que nos ensinavam era suficiente para que enfrentássemos vestibulares fora dos limites da cidade e nos mostrássemos muito bem preparados. Mas o mérito maior ficava para a batalha do cotidiano que vencíamos com garbo, galhardia e distinção.

Lá um belo dia professor virou ‘parente’, virou tio: maior intimidade e incentivar afetividade, justificava-se. As escolas, antes templos do saber, viraram a casa da avó - pois cheias de tios. E a vaca foi para o brejo. Começou aí a queda de status do professor, acho. Os pais relegaram para seus ‘irmãos’ o básico da educação dos filhinhos, qual seja aprender a dizer “obrigado”, “por favor”, “dá licença” e “desculpa”. Bem, se somos todos parentes, vamos ser mais descolados no vestir: calças jeans, camisetas, sandálias de dedo. Acabou o glamour, acabou a preparação esmerada para um momento solene, como antigamente se usava. Acabaram pompa e magnificência no encontro de ‘tios e sobrinhos’. Por conta da proximidade ficou mais difícil reclamar de abusos e mais fácil aceitá-los. Por conta da ‘vizinhança’ a remuneração justa deu lugar à desvalorização da tarefa de ensinar. Escola não é mais o lugar de instruir, transmitir conhecimentos. É lugar cheio de ‘tios’ onde qualquer ‘sobrinho’ entra, arrebenta, suja, magoa, destrói e sai impune.

MALCRIAÇÃO
‘Ô tia!’. Assim o marmanjo abordou a mulher, que o olhou, respirou fundo e respondeu: ‘Rapaz, não sou irmã do seu pai. Nem da sua mãe. Por que diabos, sou sua ‘tia’?”. Então... Você escolhe: pode me chamar pelo nome! Pode me chamar de ‘dona fulana’ caso me ache velha e fique ‘sem jeito’. Você pode - apropriadamente - me chamar de ‘doutora fulana’: defendi tese. Pode nem me chamar, se quiser. Mas sua tia, meu filho, isso eu não sou. Sua, pelo menos... (E a chamam de malcriada...)

FILMES
Filmes que abordam o relacionamento professores e alunos. Prediletos: Ao mestre com carinho (Sidney Poitiers); Sociedade dos Poetas Mortos (Robin Williams), Clube do Imperador (Kevin Kline), Mr. Hollander - Adorável professor (Richard Dreyfuss), O sorriso de Mona Lisa (Julia Roberts), Música do Coração (Meryl Streep), Mentes Perigosas (Michelle Pfeiffer), Gênio Indomável (Robin Williams), Nenhum a Menos, Ana e o Rei (Jodie Foster), Duelo de titãs (Denzel Washington), Com mérito (Joe Pesci), Escritores da Liberdade (Hilary Swank), A voz do Coração (Gerard Jugnot).

PROFESSORES-LENDAS
Angelim. Ângela Bordini. Olga de Faria. Dalel Ribeiro. Carmen Nogueira Nicácio. Laura de Mello Franco. Iolanda Ribeiro Novais. David Carneiro Ewbank. Antonieta Barini. Luiz Páride Sinelli. Maria Pia Silva Castro. Sérgio Leça Teixeira. Sudário Ferreira. Dr. João Alves Pereira Penha. Maria Brizabela Bruxelas Zinader. Olívia Corrêa Costa. Carmelino Corrêa Júnior. Ritinha Ribeiro. Vanda Valério. Através desses nomes, os parabéns da coluna a todos os professores.

EDUCAÇÃO
Sozinha, não transforma a sociedade, no dizer de Paulo Freire. E completa: sem ela, tampouco, a sociedade muda. Educação + Saúde + Segurança: o tripé do progresso e desenvolvimento de qualquer país. Cadê metas e projetos dos candidatos à presidência nesta campanha marcada pela captura de votos?

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br

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