Goste mais de você


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Não importa a idade ou a condição física do aprendiz, a figura do professor exerce papel importante no modo de agir dos alunos. Para o bem ou para o mal, o progresso na educação depende das atitudes tomadas pelo educador em sala de aula. Às vezes, até fora dela.

Há algum tempo um rapaz sofreu um acidente de trânsito. Ficou tetraplégico. Depois de muita fisioterapia, ainda não anda nem fala, mas ouve e consegue escrever com dificuldade. Com apoio da família, voltou a estudar. As aulas passaram a ser o centro de sua vida.

Mais ainda. Além da interação conseguida junto aos colegas, tem auxílio da turma na sala de aula. Uma pergunta serviu para despertar no aluno o gosto pela leitura. No pátio, sentado em sua cadeira de rodas, ele quis saber quem era o Neruda citado nos versos de Chico Buarque (“Devolva o Neruda que você me tomou/ E nunca leu”) numa questão da prova.

Seria muito mais fácil trocar em miúdos, explicar a metonímia dos versos, conforme pedia a questão da prova. No entanto, o professor foi além. Sugeriu a leitura de Canto Geral do poeta chileno Pablo Neruda. No outro dia, o aluno mostrou os poemas que mais lhe agradaram, copiados em seu caderno por sua prima.

A homenagem a um professor pode vir fora de seu dia. Principalmente quando o carinho parte de um aluno que não enxerga. Certa feita, o encarregado de guiar o colega pelos corredores da escola o avisou da aproximação do final da aula. Ao saber que deveria guardar o material, sem perceber o professor por perto, o estudante privado da visão diz: “Ah, não! Já acabou a aula do meu querido professor...”.

O professor pode também mudar o rumo de uma vida. Toda vez em que passava por locais da Estação onde havia concentração de andarilhos ou moradores de rua, lá vinha o ex-aluno cumprimentá-lo. Fazia questão de dizer em alto e bom som que ali estava o ‘meu professor’. Em troca, recebia algumas recomendações para deixar aquela vida.

O morador de rua já era usuário de drogas desde a época escolar. Aliás, na maior parte dos casos, o começo está ai. Depois de casado, a mulher não suportou a pressão e passou a viver somente com os filhos. Para manter o vício o homem ficava em ponto de ônibus, na porta de comércios ou de igrejas pedindo dinheiro para manter a dependência.

Num domingo pela manhã, o ex-aluno está parado na calçada. Vê o professor passando do outro lado da rua. Grita então: ‘Meu professor! Eu te amo’. Recebe de volta: ‘Eu também gosto de você. Mas ficaria muito mais contente se você amasse mais a você mesmo’.

O professor continua a andar, quando ouve ao longe: ‘Que palavras bonitas, professor. Nunca vou me esquecer delas. Muito obrigado’. Um tempo depois, novo encontro. O homem estava limpo e barbeado. A seu lado, a mulher e os dois filhos. Na maior alegria, disse: ‘Meu professor, voltei a trabalhar’.

Antônio Araújo
Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br

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