Menos de 24 horas depois do fim das eleições, Antônio Donizete Mercúrio, 48, o Donizete da Farmácia, já estava atrás do balcão do seu estabelecimento na Avenida Brasil atendendo os clientes. São pelo menos 200 por dia. Na véspera, ele havia recebido 11,5 mil votos para deputado federal, a maioria vindos da zona Leste da cidade. A votação ficou longe de garantir uma cadeira no Congresso Nacional. Em princípio, o desempenho parece ter sido fraco. Não foi. Donizete perdeu as eleições, mas ganhou respeito político. Adversários ligaram para cumprimentá-lo. A dois anos da próxima disputa eleitoral, seu nome já começa a ser sondado para eventuais composições. Ter alguém com o seu perfil, de fácil penetração junto às camadas mais humildes da sociedade, pode ser um trunfo valioso.
Nas eleições para vereador, em 2008, Donizete recebeu 2.906 votos. Foi o oitavo candidato mais votado. Como o seu partido, PMN, não conseguiu atingir o quociente para garantir uma vaga, ele ficou fora. O desempenho rendeu um convite para integrar a administração, mas o comerciante preferiu continuar tocando sua farmácia. O contato com o público, principalmente com os idosos, o satisfaz.
Convencido pelo diretório municipal do PMN de que teria chances de se eleger deputado federal com uma votação baixa, concordou em se candidatar. Os dados a seguir revelam porque seus 11,5 mil votos devem e estão sendo respeitados. Ao contrário de Ubiali, Graciela, Vanderlei Tristão e Paulo Afonso, que cumprem mandatos e têm espaço na mídia, ele não ocupa qualquer cargo público. Também não teve apoios de peso, como os destinados pelos ruralistas do Estado a Tirso Meirelles, por exemplo.
A estrutura que teve à disposição para enfrentar concorrentes não seria suficiente nem mesmo para uma campanha de vereador. Durante os dois meses que antecederam às eleições, três pessoas ajudaram diariamente na sua divulgação. Donizete afirma não ter investido um único centavo. “Não tirei nem um Melhoral da minha farmácia para a campanha”. A única doação foi de R$ 3 mil, feita por uma grande rede de supermercado. O diferencial foi o apoio de voluntários, garante ele.
A campanha do candidato centralizou-se nas regiões dos Jardins Paulistano, São Luiz, Brasilândia e Vila Aparecida. Donizete não fez divulgação fora de Franca. Foi votado em 19 cidades. Sem ter ido a Ribeirão Preto, obteve 33 votos. De São Paulo vieram 39. Na manhã de quinta-feira, entre um atendimento e outro na farmácia de sua propriedade, ele recebeu a reportagem e detalhou a receita usada para conseguir os mais de dez mil votos sem contar com uma estrutura mínima de campanha.
Comércio da Franca - O senhor recebeu 11,5 mil votos nas eleições de domingo e ficou longe da esperada eleição. Você se sente derrotado?
Donizete da Farmácia - Na verdade, me sinto vitorioso. E vou explicar o motivo: a eleição para deputado não depende apenas do candidato. É preciso levar em consideração que há toda uma estrutura por trás, que envolve, principalmente, muito dinheiro. A nossa condição financeira era bem abaixo da dos outros concorrentes. Este fato dificultou muito. Era possível ampliar a votação, mas a nossa estrutura (de campanha) precisaria ser melhor para que eu pudesse chegar em outras regiões da cidade e municípios vizinhos. Com as limitações, fiquei muito concentrado na minha área, que é a zona Leste. Se levarmos em consideração as dificuldades encontradas, acredito que a campanha foi positiva.
Comércio - Mesmo com a falta de estrutura, você esperava uma votação maior?
Donizete - Quando você entra na campanha, o otimismo é muito grande. É claro que eu esperava receber mais votos, mas, ao visitar amigos nas regiões do Aeroporto, Santa Efigênia, Vila São Sebastião e Vila Nova, constatei que a minha região representava uma pequena parte do eleitorado e que era preciso avançar para outros setores. Foi quando eu percebi a dificuldade, mas como existia a estimativa do partido de que poderíamos ser eleitos com 25 mil, 35 mil votos, o que não aconteceu, fui para a rua trabalhar. A partir do momento em que percebemos a dimensão da cidade, vi que o lado financeiro iria pesar.
Comércio - Foi um erro acreditar que seria possível se eleger com 30 mil votos?
Donizete - Sim. Temos de reconhecer que não dava. Fui envolvido nesta possibilidade, mas cheguei a uma conclusão que não é por aí. É preciso um trabalho mais abrangente. Para que os eleitores possam ter uma ideia, um outro candidato tinha à sua disposição 300 pessoas trabalhando para ele diariamente. Nós tínhamos apenas três. Desta maneira, fica uma briga muito desigual. Eu gostaria de dizer que não entrei para atrapalhar ninguém, não entrei para tirar votos ou para tentar fortalecer alguém lá de cima. Minha intenção era ganhar a eleição. Eu via uma possibilidade muito grande de dar certo. Infelizmente, não deu, mas foi um aprendizado muito grande.
Comércio - O senhor tocou a campanha com apenas três pessoas?
Donizete - Exatamente. Contei com o Daniel, conhecido como Shangai; o Zé Osmar e a Arlete. A vantagem que eu tive foi a ajuda dos amigos. Tenho conhecidos por todos os lados. Este pessoal fez um trabalho interessante nas horas de folga. Não tive estrutura financeira mas, por outro lado, o apoio de voluntários foi muito grande. Por isto, consegui chegar a quase 12 mil votos. Sei de candidatos que, de repente, fecham com entidades ou igrejas e conseguem de três a quatro mil votos numa cartada só. Já o nosso eleitorado, foi buscado um a um. Cada voto foi sofrido.
Comércio - Você não fez campanha fora de Franca e foi votado em 19 cidades. Como conseguiu?
Donizete - Isto é resultado da amizade. Não fizemos panfletagem em nenhuma cidade vizinha. Estes votos foram conseguidos com a ajuda de amigos, de parentes ou de conhecidos do futebol. A votação de fora foi surpreendente, já que não tivemos gasto nenhum na região.
Comércio - O deputado Marco Aurélio Ubiali (PSB) sugeriu que candidaturas como a sua, a de Vanderlei Tristão (PTB), Paulo Afonso (PT) e da própria Graciela Ambrósio (PP) provocaram a divisão de votos e custaram a não reeleição dele. O senhor concorda com esta visão das eleições?
Donizete - Acho normal este tipo de comentário. Quando a pessoa não consegue seu objetivo, ela tenta buscar justificativas. Respeito muito o Ubiali, mas acho que não é por aí. Na primeira campanha, quando ele ainda não era deputado, ele também pode ter atrapalhado alguém. Democracia é isto. Todos têm o direito de expor suas ideias e de se candidatar. Um exemplo é o Tiririca. Sabemos que ele não tem preparo, mas se a lei permite, o que vamos fazer? Ele levou 5,2 mil votos de Franca sem ter nenhum compromisso com a região. Isto, sim, acho que foi prejudicial. Da minha parte, vocês podem ter certeza de que não tive o objetivo de atrapalhar ninguém. O objetivo era ganhar, mas a falta de estrutura financeira e o próprio partido não me deram esta condição.
Comércio - Na sua opinião, o que provocou a derrota de Marco Aurélio Ubiali nas urnas?
Donizete - Acredito que posso falar sobre isto com segurança. Eu ando por toda a cidade e recebo dezenas de pessoas todos os dias em minha farmácia. Com este contato com o povo, percebi que a razão principal foi o episódio da mudança para Ribeirão Preto, mas não votar nele por isto foi uma grande bobagem. Na minha opinião, ele poderia trabalhar bem pela região, independentemente de estar morando em Franca.
Comércio - Qual foi a grande surpresa dessas eleições?
Donizete - Acredito que não teve surpresa. Era esperado que a delegada Graciela tivesse uma expressiva votação pelo trabalho na Câmara e na Delegacia da Mulher. Em relação ao Ubiali, a gente percebia uma queda por causa da divisão com a Graciela e pelo fato da mudança para Ribeirão. O Gilson de Souza e o Engler fizeram um bom trabalho e a reeleição deles era esperada. Gostaria de aproveitar e cumprimentá-los por continuarem representando a cidade por mais quatro anos.
Comércio - Mesmo com uma estrutura limitada, o senhor mostrou popularidade e foi bem votado, o que lhe garante respeito no cenário político. Em 2012, vai disputar uma vaga de vereador ou tentará a Prefeitura?
Donizete - A convivência no meio do futebol me trouxe ensinamentos. Uma vez, em 2000, fomos campeões e teve uma briga após o jogo. Fiquei nervoso e disse que nunca mais mexeria com futebol. No ano seguinte, estava lá novamente porque gostava. Com a política, é a mesma coisa. Vou aguardar e analisar os desdobramentos futuros. Sou muito pé no chão e sei que a Prefeitura é muito para mim ainda. Entrei na política um pouco tarde. O cargo de vice, de repente, a gente poderia pensar com carinho. Algumas pessoas estão dizendo que, com a minha votação, eu seria um bom candidato a vice pelo acesso junto aos eleitores da periferia, mas é cedo para falar qualquer coisa. É bem provável que, se eu me candidatar, seja para vereador mesmo.
Comércio - Qual foi sua votação para vereador em 2008?
Donizete - Eu recebi 2.906 votos. Só não entrei porque meu partido não atingiu o quociente eleitoral. Faltaram cerca de 300 votos para que o PMN conseguisse uma cadeira. Fui o oitavo mais votado e não consegui entrar. Fiquei feliz do mesmo jeito.
Comércio - Não dá uma certa frustração ficar fora e ver que concorrentes com menos votos foram eleitos?
Donizete - Isto faz parte da regra. Eu tenho uma cabeça muito boa. Mexi muito tempo com o futebol e sei o que é ganhar e o que é perder. Disputei sete finais da várzea, ganhamos quatro e perdemos três. Acho que consigo assimilar bem quando não alcanço nosso objetivo. Não saí frustrado. Pelo contrário, saí fortalecido pelo carinho dos amigos.
Comércio - Qual lição o senhor tirou da campanha eleitoral?
Donizete - A pessoa que for se candidatar para deputado federal não pode entrar pensando só em volta dela. É preciso atingir uma área bem maior e ter um poder financeiro muito forte. Atingir todas as regiões da cidade e municípios vizinhos depende de estrutura e muito dinheiro. Não basta só ter vontade.
Comércio - Por diversas vezes, o senhor citou a falta de estrutura financeira da campanha. Quanto o senhor investiu para a sua divulgação?
Donizete - Eu não gastei nenhum centavo. Quando fui convidado pelo presidente do partido (Gilberto Freitas), joguei bem aberto e disse que não tinha condições de tirar um Melhoral da minha farmácia para fazer a campanha. Ele disse: “Pode deixar que nós vamos viabilizar sua campanha”. O Gilberto fez o que pode, mas só que o limite dele é bem abaixo do necessário. A campanha custou R$ 30 mil. A maior parte dos recursos foi bancada pelo partido. Se colocar na ponta do lápis, a campanha foi custo zero para mim.
Comércio - Sua candidatura recebeu alguma doação?
Donizete - Eu tive uma doação de R$ 3 mil de um supermercado.
Comércio - Uma campanha para deputado é cansativa? O candidato chega esgotado ao final?
Donizete - Sou muito tranquilo em relação a isto. Eu tenho o meu limite e entendo que a saúde deve vir em primeiro lugar. Não ficava me matando. Fiz tudo o que pude dentro do meu limite, sem me prejudicar e sem prejudicar meus companheiros. Desenvolvi a campanha dentro das minhas condições físicas.
Comércio - O senhor teve alguma decepção na campanha?
Donizete - Juro por Deus que não tive. Pelo contrário. Trago um aprendizado muito grande. Não quero bajular vocês, não, mas a sabatina me ensinou muito (referindo-se ao projeto Sabatinas do GCN que, ao longo de dois meses, entrevistou candidatos a deputado federal, estadual e ao governo do Estado). Foi um “trem” grandioso poder passar para as pessoas o que a gente sente, quais são nossas propostas. A entrevista me fortaleceu muito. Fiquei bem mais preparado do que estava antes. Não tenho nada a reclamar. Só elogios. Quero aproveitar a oportunidade para agradecer todas as pessoas que me ajudaram. Foi um votinho aqui, outro ali, bem simples mesmo. Isto me deixou muito feliz. As pessoas dizem: “foram só 11,5 mil votos”. Vai contar de um em um para ver. É muito voto.