Segundo um grande amigo, a memória foi feita para servir de contraponto à capacidade de esquecer, recurso que nos ajuda a superar a maior parte dos revezes da vida.
Já perdi anágua no meio do salão, dançando. Enquanto eu rodava com meu par, carregando a faixa de rainha do frango assado, ela caía. Sobrevivi. Já andei por um salão exibindo na parte de trás da roupa clara, claro que sem saber, uma enorme mancha de mestruação que desceu, sem eu esperar. Alguém me avisou, pensei que fosse pegar fogo de tanta vergonha, mas superei. Já gritei com quem devia ser mais gentil, já recebi gritos e falta de educação na mesma intensidade. Uma vez, num bar, um agiota, gordo feito o Jaba (aquele monstro da Guerra nas Estrelas) e badalado por acólitos que lhe deviam dinheiro a rodo, veio até onde eu estava protestando por causa de suas manifestações ruidosas e impróprias. Gritou comigo como se eu fosse da sua família, humilhando-me com sua superioridade corpórea. Momento constrangedor. Fiquei com ódio, mas consegui engolir a raiva. Dei a volta por cima.
Passando um pente fino na memória, venci montanhas de embaraços e reconheço ter sido difícil superar umas e outras situações. Se não consigo desfiar todos os vexames, uma cruel lembrança permanece: após a humilhação, o arrependimento ou a vergonha, tinha dificuldade de olhar meus olhos no espelho: mentir para os outros é até fácil, mas para nós mesmos é impossível; o espelho está ali para lhe devolver a verdade. ‘Não foi nada!, mas ele lhe diz: ‘Claro que foi, admita!’. Ou então, a gente justifica: ‘Mais um pouco, ninguém se lembra!’. E ele cutuca: ‘Isso é irrelevante: você vai se lembrar!’. (Não é à toa que morro de medo de espelhos desde que percebi sua importância através da história da Branca de Neve: eles não mentem...).
A maior vergonha que já passei? Bem, tento justificar minha atitude e não há argumentos que me façam esquecer. Passeávamos no Nordeste e um lojista, que era cliente, ficou sabendo da nossa presença na sua cidade. Recém chegados ao hotel tivemos provas da sua gentileza: deixara no estacionamento um jipe, novinho em folha, para circularmos com certa autonomia. Absolutamente desnecessário: tão logo ficou sabendo da nossa chegada, ligou avisando que estava passando para nos buscar. E assim ficamos quase uma semana: ele pessoalmente nos acompanhou aos restaurantes e bares; à sua casa para churrascos, para os almoços; à casa do compadre para eu ouvir um trio de forró; me fez ligar de lá várias vezes para amigos em Franca, em São Paulo só para ouvirem um clone do Luiz Gonzaga cantar. Resumindo: quase sete dias lá e eu não tinha visto nada da cidade, nem as praias! No domingo - viríamos embora na segunda, bati o pé e fiz meu marido recusar o convite para o almoço, alegando que eu queria conhecer a parte antiga da cidade, visitar um bairro distante, ir à feirinha de artesanato. Ele ainda insistiu dizendo ‘E o almoço? Já está pronto!’. Bati o pé, meu marido mostrou firmeza, agradeceu. Ele nos fez prometer que telefonaríamos assim que chegássemos de volta ao hotel. Emburrada, vi meu companheiro fazer a ligação. Quase morri de ódio quando o lojista chegou e nos empurrou para o carro. Entrei bufando, lutando contra os olhares de o-que-eu-posso-fazer? do marido. Quando chegamos ao destino final é que eu fui entender. Ele foi contando que chamara a família inteira para nos conhecer, aquele casal ma-ra-vi-lho-so do sul que não era nariz empinado: a mulher até sabia cantar as músicas de lá ... não! a família tinha que nos conhecer e homenagear. Tinham ficado lá o dia inteiro nos aguardando, só para nos apertar as mãos e agradecer nossa presença. A festa à qual não fôramos, era para nós.
VIRADA
Às vésperas da eleição, amigo evangélico envia duas declarações de Dilma em forma de mensagens: uma, sobre a impossibilidade dela perder as eleições: ‘nem Cristo – segundo ela –, poderia impedir sua vitória’; outra, seu ponto de vista sobre a possibilidade e urgência na liberação do aborto. Não carece ser expert em marketing político para sentir cheiro de virada no ar.
OSCAR 2011
O filme Lula, o Filho do Brasil, do diretor Fábio Barreto, foi escolhido, por unanimidade entre 23 outras produções, para representar o Brasil na disputa de Melhor Filme Estrangeiro do Oscar 2011. A comissão teve nove pessoas – quatro membros da Academia Brasileira de Cinema, dois membros da Agência Nacional de Cinema (Ancine), dois indicados pela Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura e um indicado pelo gabinete do Ministro da Cultura. A decisão é polêmica por ter sido tomada entre representantes do Ministério de Lula e organização subsidiada por taxas do Estado. Além disso, Lula, o Filho do Brasil não foi premiado em nenhum festival ou evento de cinema realizado no Brasil, e ainda, foi mal avaliado pela crítica especializada.
ASPAS
‘A Esperança tem duas filhas lindas, a Indignação e a Coragem; a Indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão; Coragem, a mudá-las’. (Gosto da proposição, mas desconheço a autoria).
CRESCIMENTO
Franca possui hoje uma gama variada de gente nova. Migrantes ou nativos, são tantas e em número tão elevado que atualmente aquela síndrome de cidade grande já nos assombra. Num restaurante, quase não reconhecemos quem divide o espaço conosco. Nos shoppings, uma ou outra pessoa nos cumprimenta e podemos retribuir, por reconhecê-la, ou vice-versa... A cidade cresceu, expandiu, aumentou, diversificou. Vizinhos quase não se veem mais. E já não se pode deixar a chave de casa no vaso de samambaia ou sob o tapete de entrada.
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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