A hora do trabuco


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Houve tempo em que se fazia guerra com pedaços de pau. Pouca gente morria vítima de uma porretada mais bem dada. Quando muito o desafeto saía com alguns hematomas pelo corpo, mas continuava sua vida normal, sem grandes sequelas.

Com a invenção do trabuco, espécie de máquina usada para arremessar pedras à longa distância, a guerra passou a ser mais mortífera. Numa contenda, o gladiador corria o risco de levar vários projéteis ao mesmo tempo. Isso podia fazer com que morresse lentamente, depois de sofrida agonia.

Criada a pólvora, o trabuco se transformou em espingarda de um cano só. O grosso calibre da arma a tornou temida. Todo contendor sabia que o tiro saído do curto artefato era letal. Uma vez ferido, dificilmente haveria possibilidades de recuperação.

Vicente Leporace (desse o Garcia Netto tem saudades!) criou o seu ‘A Hora do Trabuco’, programa apresentado pela Rádio Bandeirantes de São Paulo até a morte do radialista na década de 1970, para atirar verdades por todos os lados. A bala do Leporace era a palavra. Todos temiam a munição de seu trabuco, principalmente autoridades e governantes.

Faz falta ‘A Hora do Trabuco’. O resultado das eleições seria alvejado sem dó nem piedade pela voz do homem do trabuco. Aliás, até mesmo o escrutínio pudesse ser outro por conta da saraivada que a campanha política teria levado durante todo o seu transcurso. Todos teriam oportunidade de ver o lado de dentro dessa travestida democracia de agora.

Se ainda existisse alguém com a verve do Leporace, a posse de arma de fogo sem registro também seria proibida de verdade. Não haveria tanta facilidade para uma pessoa circular com um revólver. E, o mais engraçado, o indivíduo vai preso por porte ilegal, somente para ser ouvido na delegacia. Depois, acaba liberado!

Semana passada, este jornal noticiou a prisão de um rapaz por porte de arma. Solto de novo, a polícia descobre que o indiciado possuía outro revólver na sua casa. Mais ainda, já havia baleado um desafeto passional, dias antes. O ferido, por sua vez, após receber alta hospitalar tentou também atirar no seu algoz. Foram três armas de fogo em ação pelas ruas da cidade, num típico bangue-bangue à ‘francana’.

Até parece que revólver virou brinquedo. Não bastasse a facilidade para estar nas mãos dos assaltantes que atemorizam a vida do mais pacato cidadão, ou de jovens enamorados pela mesma mulher, agora acaba indo também para a escola junto com as crianças. O resultado não poderia ser outro. Morre quem não tinha nada a ver com o inusitado.

Quem imaginaria que uma escola de ensino fundamental da pacífica Embu das Artes, cidade conhecida mundialmente por sua produção escultural, fosse se tornar palco da brutal morte de um garoto de 9 anos? O menino foi baleado em plena sala de aula de forma gratuita.

Antônio Araújo
Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br

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