O segundo turno das eleições para a Presidência da República, cuja campanha vai colocar a petista Dilma Rousseff e o tucano José Serra frente a frente, é uma grande chance para que o eleitorado busque informações e obrigue os dois candidatos a apresentarem claramente os seus programas de governo. Até aqui, nada disso aconteceu: os dois exibiram apenas promessas e não houve discussão de planos e idéias que permitissem ao brasileiro saber claramente o que cada um deles pretende. Desta forma, Dilma terá que ser mais transparente e deixar de colocar-se apenas como a continuidade do governo Lula. Ao mesmo tempo, Serra terá que apresentar as linhas que pretende imprimir num eventual governo. O eleitor mais esclarecido já sabe: Dilma não é Lula e nem Serra é FHC. A continuidade — que houve quando Lula assumiu seu primeiro mandato, mantendo as linhas básicas da política econômica tucana, além de investir na rede de proteção social que o seu antecessor já tinha criado - é hipotética.
Quando assumiu a Presidência da República, repetindo à exaustão que havia recebido uma ‘herança maldita’, Lula abdicou de todas as suas convicções mais à esquerda e manteve a espinha dorsal do que vinha sendo feito no governo de Fernando Henrique Cardoso. Foi a decisão acertada. Grande parte do que se conseguiu foi graças à política neoliberal do governo anterior. Mas não é possível garantir que essa situação será mantida. Quanto a Serra, faltam-lhe contundência e direção clara no discurso. Ele não conseguiu deixar evidente qual será o enfoque de um virtual governo tucano. O ex-governador paulista se habituou, no primeiro turno, a fazer promessas. O fato é que até agora a sociedade brasileira não conhece o seu programa de governo, nem o de Dilma. Talvez isto ajude a explicar por que muitos brasileiros preferiram apostar no discurso neoverde de Marina Silva, que teve uma campanha mais modesta que os dois mais votados no primeiro turno mas nem por isso apresentou menores apelos. Ela disse a que veio e explicitou propostas que sensibilizaram quase 20 milhões de eleitores, o que provocou o segundo turno. Agora, os dois candidatos precisam apresentar seus planos e suas idéias não só ao eleitor mas também a Marina Silva, cujo apoio será fundamental para determinar os resultados das urnas a 31 de outubro.
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