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O candidato do PV ao governo do Estado de São Paulo, Fábio Feldmann, foi sabatinado pelo GCN Comunicação na última quarta-feira, 30 de setembro. O ambientalista foi o último candidato sabatinado pelo GCN Comunicação nestas eleições. Feldmann demonstrou absoluta franqueza e desenvoltura durante toda a sabatina, inclusive com relação aos temas mais polêmicos. O candidato defendeu a união civil de homossexuais e o direito da mulher ao aborto. Fábio defende uma visão mais contemporânea na política, o estímulo às novas economias e o espírito inovador nas práticas empreendedoras.
PRIMEIRO BLOCO
GCN Comunicação - Por que o senhor quer ser governador do Estado de São Paulo?
Fábio Feldmann - Eu quis ser candidato a governador porque o Partido Verde representa hoje uma força política nova no Brasil. A nossa candidata (à Presidência), Marina Silva, provavelmente vai chegar ao segundo turno. Com isso, nós vamos poder contribuir na discussão, no debate, com uma agenda de século XXI para São Paulo. São Paulo tem grandes desafios. Eu acho que a candidatura é a oportunidade que você tem de debater os temas, de discutir uma agenda nova para o Estado.
GCN - De acordo com as pesquisas eleitorais feitas pelo Instituto Datafolha, o senhor mantém 1% das intenções de voto desde o mês de agosto. Não houve nenhuma evolução nos índices atribuídos à sua candidatura. O senhor acha possível chegar ao segundo turno?
Feldmann - Sou uma pessoa muito franca. Me candidatei para ter a oportunidade de construir ideias. A nossa candidatura é muito diferente das dos demais candidatos por várias razões. A primeira delas é que meus dois principais adversários representam duas máquinas poderosas. Um representa a máquina do Estado e algumas prefeituras importantes. E o outro vem com o apoio do governo federal. Nós representamos, nestas eleições, ideias. Quero construir uma terceira via, uma força verde em São Paulo e no Brasil. Por essa razão, estamos tentando focar essa campanha, por exemplo, no programa de governo. Não tenho nenhuma humildade em dizer que considero o nosso programa de governo o mais bem elaborado, o mais avançado. 1% realmente não é muito, mas, diante da opulência de recursos dos meus adversários, acho que esse 1% representa uma campanha com dignidade.
GCN - Por que é tão difícil fazer com que essas propostas, como o senhor disse, bem estruturadas e consolidadas no programa de governo, cheguem à população ou sejam percebidas por ela? Qual seu maior desafio?
Feldmann - Eu acho que o Brasil mudou muito em termos de política. Fui candidato pela primeira vez em 1986. Durante o processo de eleição para a Assembléia Nacional Constituinte, em 11 meses, participei de 140 debates. Naquele momento, o País discutia. A política era feita com uma outra dimensão. Acho que a política esvaziou muito no Brasil. É inacreditável, mas ninguém lê programa de governo. Em debates políticos, muitas vezes, programa de governo não vale. Tem candidatos que têm programas de governo de cinco páginas.
GCN - Na última prestação de contas entregue à Justiça Eleitoral, o senhor declarou receita de pouco mais de R$ 839 mil, cerca de 10 vezes menos que o candidato do PT, Aloizio Mercadante, e 15 vezes menos que Geraldo Alckmin, do PSDB. A falta de recursos dificultou a sua campanha? Como superar os seus adversários que têm mais dinheiro, mais tempo de rádio e TV e ainda são mais conhecidos pelo grande público?
Feldmann - Realmente, a nossa campanha, em termos de recursos, é quase uma campanha para vereador. Há uma dificuldade sim! Quando se tem muito pouco recurso, muito pouco (tempo) de televisão, é difícil se tornar conhecido pelo eleitor. E eu falo isso porque fui deputado por três legislaturas e, às vezes, estou andando na rua e alguém me diz: ‘Fábio, eu vou votar em você para deputado federal’. Eu digo: ‘Muito obrigado, mas sou candidato a governador’. O importante para o Partido Verde é eleger uma grande bancada. Nós temos aqui candidatos como o José Alexandre. Temos uma excelente candidata à Presidência da República. A Marina Silva tem um menor tempo de televisão. Ela está crescendo nas eleições, já está com 16% dos votos. Isso mostra que realmente há condições de fazer política com ideias e com conteúdo.
SEGUNDO BLOCO
GCN - Uma das áreas que mais preocupam a população paulista é a segurança pública. Alguns de seus adversários chegam a afirmar que pretendem, caso sejam eleitos, acumular a função de secretário de segurança ou assumir pessoalmente o comando das polícias. Se eleito, quais são as principais propostas do senhor para resolver os problemas desta área?
Feldmann - Penso até em convidar esse candidato a ser secretário de Segurança no meu governo (risos). Mas eu tenho tentado colocar a questão da segurança com uma abordagem um pouco diferente. Temos que melhorar as condições das Polícias Militar e Civil, temos que melhorar as investigações. Enfim, temos muitos desafios. Mas nós temos que entender um pouco o crime organizado, o tráfico de drogas e de armas. Compreender essa economia que eu chamo de economia do mal. Se alguém rouba um celular, alguém está comprando esse celular. Se alguém está vendendo crack, esse dinheiro está circulando na economia de uma determinada maneira. Temos que compreender como funciona isso e usar a inteligência na polícia para combater. No ano de 2010, no século XXI, a polícia não pode estar desprovida de condições de entender a criminalidade e combater o crime organizado. Portanto, tenho falado muito em tolerância zero em relação ao crime organizado.
GCN - E como desarticular essa economia? São bilhões de reais gerados por uma indústria poderosa, que é a indústria do crime organizado.
Feldmann - Primeiro, tem que haver uma articulação entre a polícia de São Paulo, as outras polícias e a Polícia Federal. Segundo, temos que discutir. Esse é um papel do governador, porque é um papel extremamente político. Mudar a legislação sobre lavagem de dinheiro. Nós temos uma legislação já de alguns anos e acho que ela não resultou no que seria necessário. A polícia de São Paulo também investiga muito pouco. Menos de 5% dos boletins de ocorrência chegam a identificar os autores de crimes. Isso significa permitir que esses autores não sejam levados à Justiça. Hoje, muitas vezes, você tem o seu carro roubado e faz o boletim de ocorrência com o único propósito de levar para a companhia de seguro. Essa cultura, essa mentalidade tem que mudar radicalmente.
GCN - O senhor é a favor ou contra a unificação das polícias?
Feldmann - Essa é uma discussão que já vem há muitos anos. Nós temos que pensar em uma polícia única. Mas essa é uma discussão muito difícil. Ela depende de uma mudança constitucional. Esta seria a proposta ideal. Mas como ela não está no campo do governador, temos que encontrar mecanismos de integração da polícia que permitam uma melhor sinergia. A Polícia Civil e a Polícia Militar têm muitas dificuldades de integração. Por que esperar essa mudança constitucional? Acho que significaria perder muito tempo. Defendo uma miniconstituinte há alguns anos, que permitiria repensar muita coisa. Mas acho que essas questões serão melhores debatidas com uma miniconstituinte com uma agenda muito específica.
GCN - O senhor foi deputado federal, participou da elaboração dessas legislações todas e alguns itens como, por exemplo, tolerância zero, dependeriam necessariamente de uma reformulação da legislação penal. O senhor acha possível? O governador paulista tem força para pressionar para que se faça essas mudanças?
Feldmann - São Paulo tem a maior bancada na Câmara dos Deputados. São 70 deputados. A articulação do governador com a bancada federal é muito importante. São Paulo sofre muito preconceito de outros Estados que se unem e que atribuem os seus problemas a São Paulo. Acho que o papel do governador, além de gestor, é exercer liderança e nessas questões acho que o governador tem peso. Ele tem densidade política para liderar alguns processos. Afinal de contas, ele governa o maior colégio eleitoral do Brasil, governa o PIB que é maior do que o da Argentina. O governador, além de gestor, tem que ser um grande líder.
GCN - As cadeias do Estado vivem problemas graves de sucateamento e superlotação. Segundo dados citados pelo ex-governador e hoje também candidato ao governo, Geraldo Alckmin, São Paulo tem hoje 168 mil presos, o que corresponde a 41% da população carcerária brasileira. Como o senhor pretende resolver a questão?
Feldmann - Essa é uma questão que está muito ligada à questão da segurança. Tendo uma polícia eficaz, ela prende mais. 168 mil presos é uma população expressiva. Portanto, para combater a violência, temos que ter programas que permitam esses presos voltarem (à sociedade), serem ressocializados e, com isso, sair do que eu chamo da “economia do crime”. A questão carcerária do Brasil é fundamental. Tive uma experiência pessoal inesquecível. Tinha sido candidato, em 1992, a prefeito de São Paulo, quando houve a invasão do Carandiru. E fui ao Carandiru que foi explodido. As condições do Carandiru eram inacreditáveis. Uma parte da resolução do problema de segurança passa por criar condições para que esse cidadão que está preso possa se reinserir na sociedade.
GCN - Um dos temas que mais têm sido debatidos nestas eleições é a tarifa de pedágio cobrada no Estado de São Paulo. Quase todos os candidatos a utilizam como fonte para críticas ao governo do PSDB. O senhor acha justo o preço que se cobra nas rodovias paulista?
Feldmann - Eu não acho justo. O pedágio tem que ter um valor razoável. Defendo o princípio “usuário pagador”. Aquele que usa o bem público paga, mas o pagamento tem que ser justo. Acho que o justo, em relação aos pedágios, é você pagar exatamente pelo que você usa. E eu acho que, com tecnologia, é perfeitamente possível você fazer isso. A tendência nos próximos anos no Brasil será todo automóvel ter um chip. Se esse o automóvel tem um chip, posso estabelecer barreiras eletrônicas nas rodovias e eventualmente nas cidades. E vou, com isso, poder cobrar pelo uso do automóvel. Mas quero insistir, o pagamento tem que ser justo. Não sou contra os pedágios. Sou contra os valores abusivos praticados pelos pedágios.
GCN - Alguns dos seus adversários na disputa sinalizam com ruptura de contrato, revisão de contrato. O senhor acha isso possível?
Feldmann - Eu acho possível. Não defendo a quebra de contrato, mas existe um grande espaço de negociação. Até porque, nesses contratos tem uma cláusula que chama equilíbrio econômico e financeiro do contrato. O que o governador tem que fazer é abrir uma negociação permitindo que os contratos sejam mantidos e que, a partir dessa negociação, se consiga reduzir as tarifas de pedágio. Mas não sou aqueles candidatos que dizem que vão acabar com os pedágios. Defendo o pedágio, mas também defendo valores justos para os pedágios.
GCN - O senhor é um dos críticos do sistema rodoviário paulista e defende a implementação de outros meios de transporte, ferrovias e hidrovias, e de outros tipos de combustível. Como isso funcionaria na prática?
Feldmann - São Paulo investe muito em rodovia e seria vital que nós pensássemos, por exemplo, em hidrovia. Na região metropolitana de São Paulo, estamos defendendo a implantação de uma hidrovia usando o Tietê e o Pinheiros, porque a tecnologia já permite isso. Tem barcaças que poderiam, inclusive, servir para transporte de carga. Só no caso da região metropolitana, estaria retirando em torno de 1400 caminhões por dia. Então, eu acho que nós temos que pensar com uma visão de século XXI.
TERCEIRO BLOCO
GCN - A progressão continuada, instalada nas escolas públicas do Estado de São Paulo, é um dos temas centrais destas eleições. Como o senhor avalia este sistema?
Feldmann - Nos debates, a polarização política se dá em cima dos pedágios e da progressão continuada. O grande debate que temos que fazer é como melhorar o desempenho dos alunos. Os alunos têm que estar motivados e os professores bem preparados. Defendo a progressão continuada com a seguinte premissa: se o aluno tiver alguma dificuldade, nós temos que criar condições para que ele supere essas dificuldades. Inclusive, para mostrar como o debate está ‘eleitoralizado’, a progressão continuada foi criada na gestão da Luiza Erundina, que era do PT, por sugestão do Paulo Freire. Depois foi incorporada pelo PSDB e agora virou o grande tema. A educação é crucial e o grande desafio é como nós podemos melhorar o desempenho dos alunos das escolas públicas para que eles tenham condições de serem inseridos em um local de trabalho com igualdades de oportunidades.
GCN - O senhor ressaltou que defende o sistema de progressão continuada e que precisa melhorar a qualidade dessa educação. Mas o fato é que os governadores têm enfrentado muita dificuldade com esse assunto. Por mais que tentem, alunos chegam à oitava série, muitas vezes, sem saber rudimentos da língua portuguesa, sem saber conta. Os professores, todo mundo concorda que precisam ser valorizados. Como equilibrar essa equação?
Feldmann - Primeiro, as duas matérias que merecem atenção especial são português e matemática. No ensino fundamental, é a matemática que permite o desenvolvimento de pensamento crítico. A nossa proposta é que nós tenhamos, para os alunos, a partir de um determinado momento, uma espécie de um padrinho que vá acompanhar esse aluno. Acho que é preciso trabalhar nas escolas, com os pais dos alunos, com metas para poder avaliar a escola. Agora, eu queria fazer uma observação. Nós temos que pensar qual deve ser o currículo e qual o conteúdo de ensino do século XXI. Temos esse mundo digital pela frente, que é desafiador, e não vejo as escolas terem esse compromisso com a modernidade. Eu, no meu plano de governo, defendo o que se chama economia criativa. Um dos temas principais, por exemplo, na Inglaterra, é como você coloca criatividade nas escolas. Como você faz com que os alunos sejam efetivamente criativos. É óbvio que eu tenho que melhorar a escola, os investimentos em educação. Mas não acho que é só recurso. Acho que é discutir a fundo qual é o conteúdo da educação que nós queremos para os nossos filhos.
GCN - Uma das maiores reivindicações do SindiFranca (Sindicato da Indústria de Calçados de Franca) é a redução gradativa do ICMS de 12 para 7%. O senhor acredita que seja possível esta desoneração?
Feldmann - Acho que é possível. Inclusive, acompanho a questão dos calçados de Franca há muitos anos, quando eu ainda era secretário de Meio Ambiente. Nós temos que criar uma condição que garanta a competitividade da indústria de calçado em Franca. Um dos itens que estou discutindo em relação a São Paulo é como nós vamos enfrentar o que eu chamo de invasão chinesa. O Brasil, hoje, é um grande parceiro comercial da China. Nós exportamos basicamente commodities, minério de ferro e soja e a contrapartida que os chineses querem é a abertura do mercado brasileiro para os produtos chineses. Nós vamos ter que nos preparar para enfrentar essa situação. Temos o desafio de manter a competitividade para a economia de São Paulo e os instrumentos tributários são importantes. Temos que estimular a inovação e agregar valor em relação à indústria.
GCN - Outro tema muito discutido nestas eleições é a guerra fiscal entre os Estados. Qual a posição do senhor a respeito?
Feldmann - A única maneira de nós enfrentarmos questões como essa é com uma reforma tributária. Não tem sentido você ter uma guerra fiscal no Brasil. Aliás, existe no Brasil uma guerra ambiental também. Lembro que alguns anos atrás o governador de Goiás estava atraindo empresas para serem implantadas lá, dizendo: ‘Pode vir que aqui não haverá controle de poluição’. No caso da guerra fiscal, não tem outra solução senão discutir a reforma tributária. Insisto mais uma vez, o governador de São Paulo tem densidade política para levar essa discussão, para fazer uma agenda de transformação. Nós temos uma carga tributária muito grande, irracional.
GCN - O senhor defende a redução da carga tributária, mas o fato é que em 16 anos, oito anos de Fernando Henrique e oito anos de Lula, distintos ministros, partidos diferentes, ninguém consegue avançar nesta questão. O senhor, que foi secretário de Estado, acha possível fazer uma redução da carga tributária?
Feldmann - Acho que é necessária uma redução da carga tributária e mais do que isso. O presidente eleito tem que fazer essa reforma tributária no início do seu governo, quando ele tem um grande capital político...
GCN - Se não perde as condições?
Feldmann - Se não perde as condições. O presidente eleito, especialmente no primeiro mandato, tem um enorme capital político e não pode desperdiçar. Todo mundo promete a reforma tributária e, quando chega ao poder, esquece. No caso do Partido Verde, estamos colocando a reforma tributária como uma das principais reformas. A minha candidata, Marina Silva, tem dito que no primeiro ano de governo vai conduzir o processo de reforma tributária.
GCN - Na última Francal, realizada em julho, ficou claro que uma das maiores preocupações dos calçadistas é em relação a um possível apagão de mão de obra na cidade. Como o senhor vê esta questão?
Feldmann - Capacitar a mão de obra é essencial. Temos que ter uma preocupação de enfrentar o apagão de mão de obra. E estou fazendo uma proposta também de capacitar em áreas que normalmente são esquecidas, negligenciadas e onde está o valor econômico, o agregado econômico. No caso dos calçados, associar a fabricação de calcados às tendências da moda é essencial. E é aí que está o agregado econômico e a garantia de ascensão no mercado brasileiro e no mercado internacional.
QUARTO BLOCO
GCN - O debate sobre o avanço das drogas ilícitas, como maconha, cocaína e, especialmente, crack, é intenso. Há quem defenda a liberação do consumo de algumas drogas como meio de combater e enfraquecer o tráfico. Qual sua opinião sobre o tema?
Feldmann - Nós temos uma proposta de tolerância zero com o tráfico de drogas e o tráfico de armas, porque são atividades muito associadas. Mas eu defendo, em algumas situações, a descriminalização. Sigo, inclusive, a opinião do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que presidiu um painel das Nações Unidas e propôs a descriminalização como um instrumento eficaz de combate às drogas. Temos que ter a coragem, no Brasil, de entender que, à medida em que nós pudermos descriminalizar determinadas condutas, nós estaremos ajudando a diminuir o tráfico de drogas.
GCN - Muito tem se discutido sobre as possibilidades abertas para a cura de doenças através do uso de células-tronco embrionárias. Nos EUA, o presidente Barack Obama autorizou as pesquisas. No Brasil, a questão segue controversa. Qual a sua opinião?
Feldmann - Sou favorável. Inclusive, temos que ter mente aberta para isso. Sigo a linha do presidente Obama. Essa foi uma grande discussão nos Estados Unidos, porque o antecessor do presidente Obama, George W. Bush, proibiu e deixou de financiar essas pesquisas. Acho que elas são cruciais, porque podem permitir a cura do câncer, alzheimer, doenças importantes. E toda a família que tem um problema como esse sabe como é importante ter esperança que nós vamos encontrar solução médica para esses problemas.
GCN - O senhor acabou de citar o governo do ex-presidente George W. Bush. Foi um governo profundamente marcado por dogmas religiosos e por essa razão cortou os financiamentos importantes para as pesquisas com células-tronco embrionárias. A questão é tão complexa que agora, apesar da autorização do presidente Obama, houve uma decisão judicial que impedia uma nova autorização. Agora está liberado nesse instante. Como o senhor vê essa questão dos dogmas religiosos interferirem de maneira tão intensa na agenda política? O senhor vê com bons olhos ou com resistência?
Feldmann - Eu vejo com maus olhos. O estado é laico e nós temos que continuar insistindo que ele seja laico. Posso ter as minhas crenças pessoais, minhas convicções pessoais e acho que muitas questões são de foro íntimo, mas nós temos que ter abertura com relação a isso. A gente tem que ter mente aberta, coração aberto para avançar em questões que são importantes para a sociedade. E são questões que vão surgir cada vez mais em um mundo que tem muitas transformações tecnológicas e um potencial imenso para a ciência.
GCN - Qual opinião do senhor sobre o projeto de lei que proíbe palmadas, beliscões e castigos físicos em crianças e adolescentes?
Feldmann - Sou contra qualquer violência doméstica e, portanto, acho a ideia de alguém praticar qualquer violência contra criança abominável. Eu só tenho um pouco de dúvida se nós devemos legislar e criminalizar condutas como essa. Confesso que nunca me aprofundei muito com relação a isso.
GCN - A Argentina aprovou há pouco mais de um mês uma legislação que autoriza a união civil entre pessoas do mesmo sexo. No Brasil, a questão segue muito polêmica. O senhor defende a regulamentação da união civil de pessoas do mesmo sexo?
Feldmann - Eu defendo. Na minha vida parlamentar, sempre fui muito aberto com relação a isso. Na Assembléia Nacional Constituinte, defendi uma emenda que proibia a discriminação por orientação sexual. Portanto, tenho uma posição muito aberta. Sou a favor de legislação no Brasil que trate dessa matéria. Eu acho que é justa, é legítima e é contemporânea. Não tenho nenhuma dúvida sobre isso.
GCN - Qual a opinião do senhor sobre a questão da adoção? O senhor acha que esses casais homossexuais devem ter o direito de adotar crianças?
Feldmann - Creio que sim. Eles estão formando famílias em um sentido amplo. Eles têm uma relação que permite e que cria condição para que eles possam adotar crianças e tratar essas crianças como casais heterossexuais. Portanto, não vejo porque preconceito em relação à família de homossexuais. Defendo que eles possam, efetivamente, adotar crianças e que sejam usados os mesmos critérios que você tem para famílias de casais heterossexuais.
GCN - Nesse mesmo auditório, outros candidatos, principalmente a deputado estadual e federal, em outros momentos, disseram que acreditam que a base da família é “Jesus, Maria e José” (a frase foi citada pelo candidato a deputado estadual pelo PV, Cristiano Rodrigues, durante sua sabatina no dia 31 de agosto), para condenar a união civil de homossexuais e a adoção de pessoas de crianças por pessoas do mesmo sexo. O senhor acha que esse é um comportamento contemporâneo ou retrógrado?
Feldmann - Eu acho que é um comportamento absolutamente retrógrado. Até porque, sou judeu, pratico judaísmo. Sou judeu liberal e tenho muito medo de que a intolerância possa vir ao Brasil. O Estado é laico. Cada um tem o direito de adotar a crença que quiser. Portanto, defendo o pluralismo e a tolerância. Em relação a essas questões, não tenho nenhuma dúvida. Posso perder voto aqui ou ali, mas essas são as teses do Partido Verde. Estou aqui defendendo teses do meu partido que sempre foi aberto em relação a essas questões e já defendia essas mesmas posições antes mesmo (de ingressar no PV), em toda a minha vida parlamentar.
GCN - Dados oficiais indicam que se contam na casa dos milhões os casos de mulheres que já praticaram aborto, quase sempre em condições precárias em clínicas clandestinas. O senhor é contra ou a favor da legalização do direito ao aborto?
Feldmann - Sou a favor. Acho que é um direito da mulher. Acho que a proibição do aborto prejudica os mais pobres. Há alguns anos, vivi uma experiência em que uma moça que era babá do meu filho tentou praticar uma curetagem em casa com gilete. Nós verificamos isso e a levamos para o pronto-socorro. Ela quase morreu. Sou a favor do aborto, acho que é uma questão de foro íntimo. Se a mulher é contra o aborto, acho que tem que ser uma decisão dela.
QUINTO BLOCO
GCN - A saúde pública de São Paulo é alvo de muitas críticas. Consultas demoram meses para serem realizadas, exames podem demorar até um ano. Por que a saúde pública do Estado ainda enfrenta tantos problemas? E quais são as propostas do senhor para resolvê-los?
Feldmann - Temos que melhorar muito a saúde, melhorar o atendimento primário nos ambulatórios. Temos que ter hospitais que possam atender casos de maior complexidade. Mas o que nós estamos colocando em relação à saúde é que temos que trabalhar muito na prevenção. Trabalhar em prevenção em saúde é trabalhar em saneamento básico, em alimentos. Os alimentos têm que ter pouco açúcar, pouco sal, pouco pesticida. Se não trabalharmos a prevenção, nós vamos estar tratando da doença e não da saúde. O diesel praticado no Brasil é de péssima qualidade. Qual é a conseqüência de um diesel de péssima qualidade? É que, na época do inverno, as mães têm que levar seus filhos para os prontos-socorros para fazer inalação, especialmente na região metropolitana de São Paulo. Temos um problema também em relação à poluição da água. Isso gera maior mortalidade infantil, diarréia e disenteria. Tenho uma proposta muito clara em relação a alimentos. Regulação. Se eu tenho um alimento que está proibido fora do Brasil, não vejo como nós podemos ter esse alimento na prateleira do nosso supermercado. Estou defendendo claramente regulação, legislação em São Paulo para que os alimentos sejam saudáveis e, com isso, tenho certeza que estou cuidando da saúde da população de São Paulo.
GCN - Há anos, um dos maiores pleitos de Franca junto ao Governo do Estado em termos de saúde pública é a regionalização da Santa Casa de Franca, que convive constantemente com a falta de recursos. Mas a regionalização esbarra na falta de acordo entre o governo estadual e os municípios da região. Ninguém quer ceder recursos para o hospital. Se eleito, como o senhor pretende resolver esta equação?
Feldmann - Não conheço em detalhes essa questão, mas tem que haver parceria entre o governo do Estado e dos municípios e o governo federal também. A saúde precisa de mais recursos. Eu, como governador, vou insistir muito para que haja uma boa articulação entre governo federal, estadual e as prefeituras. Não tem sentido fazer a população pagar o preço pela incapacidade política de se articular em favor do interesse público.
GCN - Nesses últimos anos, a grande queixa das Santas Casas, além da falta de recursos, é defasagem da tabela SUS. O governo federal não reajusta. E o que as Santas Casas alegam é que nem vale a pena atender, porque quanto mais atende pior fica. Há um déficit na remuneração paga pelo SUS. O senhor acha que existem condições políticas para pressionar para que essa tabela seja revista?
Feldmann - Essa resposta passa pela regulamentação da PEC que aumentou o financiamento para a saúde. Os valores praticados pelo SUS são muito baixos e nós temos que atualizar esses valores. Temos que melhorar investimentos de saúde no Brasil.
GCN - O senhor é contra todo e qualquer alimento geneticamente modificado ou o senhor acha que caso a caso tem que ser estudado?
Feldmann - Defendo o direito de informação do consumidor. Se vou consumir esse produto, tenho direito de saber o que compõe esse produto. O que eu defendo é regulação em nível estadual e o aparelhamento do Estado para que você possa fazer essa fiscalização. Não adianta eu ter lei se ninguém fiscaliza. Qualidade dos alimentos. Acho que isso é crucial. E direito de informação em relação aquilo que está consumindo.
GCN - O senhor criou o rodízio de veículos em São Paulo quando era secretário do Meio Ambiente na gestão Mário Covas. O candidato Celso Russomanno, seu adversário na disputa pelo governo do Estado, o acusou de criar uma indústria de multas que lesa as pessoas e não resolve o problema. O senhor acha que é adequado e democrático impedir as pessoas de utilizar seus próprios veículos?
Feldmann - Realizei o rodízio em São Paulo por uma questão de saúde, mais do que uma questão de meio ambiente. Após um dia de inversão térmica, o aumento de mortalidade em São Paulo atinge 16,9% entre crianças abaixo de cinco anos e idosos acima de 65 anos. Foi por essa razão que eu fiz o rodízio. Paguei um preço alto. É sabido que perdi uma eleição por causa de rodízio, mas o político tem que ter coragem de tomar medidas impopulares. E quero dizer mais. Se continuar esse aumento vertiginoso da frota de automóveis nas cidades paulistas, as prefeituras terão que fazer o rodízio. As cidades não têm capacidade de absorver essa frota. Portanto, tem uma única solução. Transporte público eficiente. O que é transporte público eficiente? Limpo, eficiente, barato. Eu acho que o candidato Russomanno tenta ganhar o eleitor de uma maneira não muito ética. Inclusive, nesse caso, ele fez esse comentário em um momento que não tinha a possibilidade de contestar, porque foi na tréplica de um debate. Mas eu defendo o rodízio. Fiz um rodízio voluntário no primeiro ano e não funcionou. De modo que a única maneira de fazer com que as pessoas atendam ao rodízio foi pela multa.
SEXTO BLOCO
GCN - As queimadas de cana-de-açúcar e pastagens constituem um problema para a população em nossa região. Caso eleito, o que o senhor pretende fazer para reduzir esse problema?
Feldmann - Quando fui secretário de Meio Ambiente, fizemos um pacto com o setor, que seria dar um prazo de finalização das queimadas. Isso foi em 1997, seriam sete anos para a área plana e 12 anos para área inclinada. Depois veio uma legislação da Assembléia Legislativa que prolongou ad infinitum esse prazo. As queimadas dos canaviais têm uma solução a curto prazo. Ao invés de você queimar, você pode gerar, com o bagaço de cana e com a palha, energia. Para você ter uma idéia, se nós usarmos o bagaço de cana e a palha, nós podemos gerar energia equivalente a duas vezes e meia Belo Monte. Portanto, defendo a co-geração dessa biomassa para gerar bioeletricidade. Acho que isso é muito importante. É uma energia do futuro e acho que ela é viável. Em relação às áreas inclinadas, que a máquina não pode entrar, defendo que faça a recuperação da Mata Atlântica e crie corredores ecológicos, inclusive gerando crédito de carbono. O Estado de São Paulo pode se tornar um grande exportador de crédito de carbono e, com isso, poderemos recuperar esse bioma tão importante que é a Mata Atlântica.
GCN - A questão mais difícil, no caso da queimada da cana-de-açúcar, é o desemprego gerado, já que a cana verde tem que ser colhida via mecânica.
Feldmann - Se naquele momento que nós fixamos um prazo o decreto tivesse sido assinado, você poderia fazer a capacitação dessa mão de obra que colhe a cana em condições muito precárias e prepará-la para exercer outras atividades. A mecanização é irreversível, acho que ela traz benefícios e o papel do governo do Estado é capacitar essa mão de obra para que ela possa ser reinserida na economia da bioeletricidade ou em outras economias.
GCN - Em São Paulo, recentemente foram criadas leis que limitam as liberdades individuais, como a lei antifumo, que proíbe o cidadão de fumar em locais de aglomeração, a bem da saúde pública. Qual a posição do senhor a respeito?
Feldmann - Sou absolutamente favorável a essa lei. Defendo claramente. Essa legislação é importante. Até acho que o Serra, quando governador, acertou em cheio com relação a essa legislação. E estou reconhecendo isso de um candidato que não é o meu candidato à Presidência. Ele foi corajoso.
GCN - O senhor fala em incentivar a economia criativa. Fala em incentivar a inovação nas indústrias e empresas, com uma visão mais moderna. Mas tudo isso é muito abstrato. O que, de concreto, o senhor propõe para que haja uma modernização nas empresas do Estado e a ampliação da exportação de bens de consumo e de capital?
Feldmann - Reconheço que a economia criativa é um termo muito pouco conhecido no Brasil. Mas a economia criativa é fundamental. Ela é baseada em inovação, software, desenho de animação, videogames e moda. Inclusive, aqui em Franca, isso faz muito sentido. O que garante que você coloque no mercado o calçado de Franca é que esse calçado atenda uma tendência de moda e que ele seja inovador em relação a isso. Quando proponho a economia criativa, proponho exatamente que você comece a orientar São Paulo para que entre nessas novas áreas. Estou propondo gerar novas economias. Por que só tem que formar torneiro mecânico nas Fatecs e Etecs? Por que não posso formar um menino para ser um desenhista de animação?
GCN - Como o senhor vê as candidaturas cada vez mais comuns das ditas celebridades, como a Mulher Pêra e o palhaço Tiririca?
Feldmann - Sou de uma geração que lutou muito pela democracia no Brasil, contra a ditadura. Eu acho que a solução para isso é insistir para o eleitorado tomar decisões mais corretas. Tenho assistido tanto a mulher Pêra quanto ao Tiririca. Fico impressionado porque o Tiririca tem uma previsão de 900 mil votos. O problema do Tiririca não é só que ele representa quase que uma zombaria política, mas ele vai trazer com ele seis deputados federais.
GCN - Isso significa que o Tiririca vai fazer 10% da bancada paulista no Congresso Nacional...
Feldmann - Isso é uma insanidade! A gente tem que fazer um esforço de fazer com que os tiriricas não tenham uma votação expressiva e não sejam eleitos.
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