A questão da falta de mão de obra para a indústria calçadista necessita ser tratada de maneira mais profunda, não apenas de forma quantitativa. A maior parte das manifestações sobre o assunto parte das premissas erradas de que, primeiro, sempre haverá mão de obra disponível (e qualificada) para atender ao humor do setor calçadista que hora contrata, hora demite e, segundo, professam desconhecer a evolução do pensamento e dos desejos da juventude brasileira que recebe, diariamente, um volume enorme de informações e que provoca um redirecionamento constante nas suas aspirações profissionais.
Só quem conversa e participa do momento dos jovens consegue entender que a indústria calçadista não oferece perspectivas de crescimento para eles. Temos um setor produtivo que pensa e age como há trinta anos. Quais as medidas tomadas nos últimos tempos que levaram, efetivamente, o setor calçadista a ter seu futuro projetado de forma mais dinâmica e atrativa para os jovens?
Nossa juventude, independentemente da classe social, tem acesso a modernidades e desafios que acabam assimilando como inerentes à sua vida futura profissional. Só teremos um setor crescentemente competitivo se formarmos mão de obra desafiadora. Os programas de qualificação que temos em funcionamento são programas que ensinam apenas a ação reprodutiva profissional. Não estimula o jovem a pesquisar, desenvolver, criar e inovar.
O jovem que cresce com um computador, seja próprio ou de uma lan house, que observa todo o desenvolvimento tecnológico veiculado pela televisão e pelas diversas mídias, tem e terá uma dificuldade enorme em se adaptar à lerdeza de uma função específica da linha de produção de calçados. A indústria calçadista é, como me dizem alguns jovens, ‘devagar demais’.
Essa característica, que é interessante, torna-se grande problema porque não há um equilíbrio na oferta de empregos em outros setores que poderiam, hipoteticamente, serem mais atrativos para a juventude. A indústria calçadista precisa se modernizar urgentemente e discutir seu perfil tecnológico, pois a falta de mão de obra não será resolvida só com ‘profissionalização’. Continuaremos a ter na procura por esses cursos, contingente de jovens menor do que o necessário e, mesmo assim, quanto mais informações passarmos a eles, mais despertaremos suas vontades de voar, profissionalmente, mais alto. Isso é positivo.
Portanto, resta à indústria investir em produtividade e para isso, o setor possui alguma tecnologia que ajuda a aumentá-la. Isso resolveria a questão da demanda atual e, ao mesmo tempo, daria competitividade no mercado internacional. É urgente, também, que as autoridades políticas e setoriais busquem recursos para pesquisas em desenvolvimento tecnológico na indústria local de máquinas. Interessante que sempre há algum político falando da necessidade de desenvolver um design nacional e francano, como se isso fosse o único aspecto a ser considerado na estratégia de crescimento do setor, mas ninguém destaca que o setor de equipamentos e máquinas precisa urgentemente, desenvolver-se tecnologicamente.
Cassiano Pimentel
Agente de exportação e professor universitário
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