Quando deixar a Presidência da República, no dia 1º de janeiro de 2011, certamente Luiz Inácio Lula da Silva sairá do Palácio do Planalto nos braços do povo. Um dos governantes mais carismáticos da história do País, contando com a aprovação de cerca de 80% dos brasileiros - por conta da coragem em manter a política econômica de seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, além de ampliar programas de distribuição de renda que hoje garantem mais comida na mesa de milhões de brasileiros -, Lula poderia ter tido uma passagem mais memorável pelo poder, caso houvesse aprendido a exercitar a tolerância em relação a tudo de que discorda. Mas as suas críticas a adversários, à imprensa e aos jornalistas acabaram por eclipsar os bons momentos nos dois mandatos. Os seus discursos causaram estranhamento por conta de afirmações insólitas ou inoportunas, especialmente ao sabor do improviso. Em outras ocasiões, suas opiniões (e as de alguns de seus colaboradores mais diretos) despertaram perplexidade ao tentar imputar a terceiros os erros de seu próprio governo.
Num momento em que a democracia brasileira se consolida e se destaca diante da praticada em alguns países da América do Sul - onde as liberdades são cerceadas e o direito à informação torna-se uma luta diária - o presidente Lula tenta transferir para a imprensa os desacertos de algumas áreas de seu governo. A poucos dias das eleições que vão reconfigurar o poder em níveis federal e estadual, temos garantias de livre acesso à informação e de que os eleitos serão empossados e cumprirão o mandato. A República brasileira teve períodos em que nenhum destes direitos eram garantidos e muito menos defendidos, como depois do golpe de 1964, que culminou em vinte anos de ditadura militar. Foi nestes momentos que a imprensa teve atuação importante no País, lutando de forma criativa contra a censura e as injustiças, denunciando os porões do regime que torturava e assassinava aqueles que se colocavam contra a ordem vigente. Mesmo amordaçada, a imprensa lutou contra os que a censuravam.
Se hoje desfrutamos de uma liberdade plena, os jornais e os jornalistas brasileiros têm parte do mérito. Por isso, quando o presidente Lula busca atirar sobre esta mesma imprensa a pecha de ‘partidária’, deve-se olhar para trás para que os erros de antigamente não se repitam. Quando é o presidente da República que lança suas ‘verdades’ contra os meios de comunicação do País, defendendo um controle do que se publica, tem-se a impressão de que Lula se alinha a Hugo Chávez, na Venezuela, e Fidel Castro, em Cuba, onde a imprensa não é livre, não é independente e muito menos serve para defender os seus leitores. Nossa principal razão de existir é justamente a preocupação com o que divulgamos todos os dias, de forma imparcial e livre, ouvindo as partes envolvidas, checando dados, apurando declarações. Isso compõe a essência de um trabalho que busca desvelar a verdade, desde a mais simples informação sobre a deficiência de um serviço público até as reportagens investigativas que mostram facetas menos ridentes da sociedade que compomos enquanto cidadãos de um mesmo espaço urbano. A busca desta transparência parece incomodar nosso presidente, de forma como nunca o havia demonstrado, o que leva a mídia como um todo, neste momento, a contestar e revidar ameaças veladas de censura, que, se efetivadas, a curto prazo podem acarretar danos à liberdade e à autonomia que até agora permitiram ao Brasil amadurecer nos processos democráticos.
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