Castelinho vende patrimônio para contornar problemas financeiros


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NOVO HORIZONTE - O empresário Clóvis Alberto de Castro assumiu a presidência da AEC Castelinho com um projeto de saneamento do clube que, segundo ele, estava com uma “estrutura financeira pesada”
NOVO HORIZONTE - O empresário Clóvis Alberto de Castro assumiu a presidência da AEC Castelinho com um projeto de saneamento do clube que, segundo ele, estava com uma “estrutura financeira pesada”

Três escritórios de contabilidade, mulher, dois filhos e a presidência do Castelinho. É entre estas paixões e responsabilidades que o empresário Clóvis Alberto de Castro, de 43 anos, presidente da AEC Castelinho, se divide. Formado em Ciências Contábeis, foi tesoureiro do clube por dois anos e agora está prestes a encerrar - em dezembro - seu primeiro mandato como presidente. Ele se prepara para uma possível reeleição. Quando assumiu a presidência do clube há dois anos, Clóvis diz que foi o escolhido para um “projeto de saneamento” do Castelinho, que estava “com uma estrutura financeira pesada”. O grande desafio para o presidente é sanar as dívidas do clube, estimadas em R$ 3,8 milhões.

Por meio de uma assembleia, foi autorizada a venda de imóveis para a quitação dos débitos. Parte deste montante - R$ 1,5 milhão - será paga até janeiro com o valor arrecadado na venda da sede da AEC Castelinho no Centro. Restam R$ 2,3 milhões. Para arrecadar este dinheiro está sendo negociada uma área de 47 mil metros quadrados, além da desapropriação pela prefeitura de parte da área do clube. “O dinheiro será destinado ao pagamento das dívidas da entidade, que hoje somam R$ 3,8 milhões”. A responsabilidade pela atual situação financeira do clube, Clóvis imputa a antigas diretorias. “Aqui tinha um histórico do grupo que coordenava a entidade se abastecer de alguma forma dos benefícios dela. E um dos motivos de agora o clube estar dando certo é a seriedade desta diretoria nesse aspecto”. O patrimônio do clube, segundo o presidente, é de aproximadamente R$ 30 milhões.

Casado há 18 anos com Naiara, Clóvis é pai de Mariana, 10, e Yuri, 14. Seu dia começa às 5h20 da manhã. Ele vai à academia, depois participa de uma missa e segue para o trabalho. O empresário comanda os três escritórios de contabilidade que possui na cidade e ainda se dedica à presidência do Castelinho. Questionado sobre o que o motiva a trabalhar no clube, ele é categórico: “Faço por ser desafiador”.

Há 15 dias, o clube foi alvo da ação de vândalos. Durante uma festa open bar, a bebida acabou. Revoltados, os participantes do evento quebraram vidros, portas, geladeiras e furtaram um malote do clube. “Tivemos um prejuízo de R$ 40 mil”. A festa não foi promovida pelo clube, que tenta reaver dos organizadores pelo menos parte do prejuízo. Mesmo com o quebra-quebra, o Castelinho não parou. “Bola para frente. A agenda não teve nenhum prejuízo e está lotada até o final do ano”, disse o presidente. É com este otimismo que Clóvis anuncia investimentos importantes na área social do clube com o intuito de atrair o maior número possível de novos associados. A intenção é dobrar a receita mensal, de R$ 130 mil, até fevereiro de 2011, auge do verão, e equilibrar as contas do Castelinho, que tem uma despesa estimada em R$ 200 mil mensais.

Mas nem tudo é problema no comando do Castelinho. Clóvis anuncia que no mês de novembro, a entidade concorre ao prêmio “Casos de Sucesso”, na Ilha de Comandatuba, Bahia. A ação inovadora é a academia do clube, em parceria com a Unimed. “Unimos dois conceitos - saúde e lazer - e é com esses conceitos que vamos tentar ganhar esse prêmio”.

Comércio da Franca - O senhor é presidente do Castelinho há dois anos e seu primeiro mandato vence em dezembro. O senhor pretende continuar no cargo?
Clóvis Alberto de Castro -
Devo continuar se assim o associado quiser. Isso aqui é uma função voluntária, sem remuneração... Aqui a gente só gasta. Até a água que eu bebo aqui eu pago, para não dar mau exemplo. Quando assumi a presidência, o clube tinha uma estrutura financeira pesada e demos início a um projeto de saneamento. Nós não nos beneficiamos da entidade, nós somos colaboradores voluntários. A forma com que eu trabalho aqui é a mesma como se eu trabalhasse em uma igreja ou em um asilo: trabalho 100% voluntário.

Comércio - A sede da AEC no Centro foi vendida recentemente. Qual foi o valor da negociação?
Clóvis -
A venda foi por R$ 2 milhões. A negociação foi demorada, porque o prédio é um patrimônio histórico, mas transcorreu tranquilamente. Nós recebemos somente R$ 900 mil até agora. Esse dinheiro nós destinamos todo ele para o pagamento de dívidas trabalhistas e tributárias. Provavelmente até janeiro devemos receber o restante.

Comércio - Qual é a situação financeira do Castelinho?
Clóvis -
Nós pagaremos até o início do próximo ano R$ 1,5 milhão em dívidas. Com este pagamento, ainda vão sobrar R$ 2,3 milhões. Mas essas dívidas são das gestões anteriores e não da nossa. Hoje o clube deve impostos, possui dívidas tributárias. O dinheiro da venda da sede do Centro foi usado para sanar parte da dívida que o clube possui. Quando recebermos o resto, que deve acontecer até janeiro, vamos sanar mais uma parte. A intenção é que consigamos guardar cerca de R$ 200 mil para fluxo de caixa, para serem usados em uma obra emergencial ou algo parecido.

Comércio - Como o senhor pretende pagar essa dívida?
Clóvis -
Estamos buscando alternativas para pagar esse montante. Alternativa como a venda de patrimônios, porque o clube não consegue gerar fluxo para pagar uma dívida milionária dessa. Por isso, a assembleia (de diretores) autorizou a venda de patrimônios para sanar as dívidas. Uma área de 47 mil metros quadrados e a desapropriação de parte da área do clube para a prefeitura são algumas dessas alternativas. Nós já possuímos um contrato de compromisso de compra e venda, mas não posso dar mais detalhes. Poderei falar somente em 2011.

Comércio - Quais são os patrimônios do clube?
Clóvis -
O clube tem aproximadamente R$ 30 milhões em patrimônio. São 13 alqueires de terra dentro da cidade. Temos o salão nobre que vale R$ 10 milhões. A área dos fundos do Castelinho, a mata, tem aproximadamente 60 mil metros quadrados. É um bom patrimônio.

Comércio - Qual é o faturamento do Castelinho hoje?
Clóvis -
Nossa receita mensal é de R$ 130 mil. A nossa meta é dobrar até fevereiro, com o ápice do verão. Nosso objetivo é que nós alcancemos uma receita de R$ 260 mil mensais. E estamos trabalhando muito para isso. Somente neste mês de fevereiro, conseguimos fechar 200 contratos. E estamos lutando para que a cada mês fechemos mais e mais contratos.

Comércio - E o quadro de sócios do clube?
Clóvis -
Tem aumentado gradativamente. Hoje nós temos aproximadamente 1.700 pagantes. É o mesmo número de 2006. Saem sócios e entram outros. É muito rotativo. Até fevereiro de 2011, a intenção é que ganhemos mais 1.500 sócios.

Comércio - Qual o valor das despesas do Castelinho?
Clóvis -
O custo é de cerca de R$ 200 mil por mês, dentre manutenção e pessoal. Há quatro anos o clube possuía 110 funcionários. Hoje nós estamos com 37 nas áreas da manutenção, administração, limpeza, segurança patrimonial e a equipe comercial.

Comércio - Há 15 dias, um evento foi realizado no clube - a Festa da Flavinha -, que era open bar. A bebida acabou e pessoas que estavam na festa voltaram sua raiva para o prédio do Castelinho: destruíram portas e janelas de vidro, freezers e chegaram a furtar um malote com dinheiro do clube. Foi um acontecimento atípico, o que o senhor fará para que isso não volte a acontecer?
Clóvis -
A primeira coisa que eu tenho a falar é reafirmar o que você disse: foi um fato atípico. Em segundo lugar, o clube é muito maior que isso. Esse clube é centenário e não vai se curvar perante a isso. Pelo menos enquanto eu estiver aqui, pois eu sou muito persistente. Eu sou um cara que não me curvo diante da dificuldade. É um clube que já teve tantos embates políticos, mas problema dessa ordem nunca teve. Não é isso que vai mudar o rumo do clube.

Comércio - E a promotora do evento?
Clóvis -
Eu tive contato com ela, mas existem versões variadas sobre o que aconteceu. E eu prefiro ficar com a versão das pessoas simples que estavam ali no dia. A versão que eu tenho é que faltou bebida e começou a ter um tumulto. Nessa hora a segurança era pouca, tinha um terço da segurança necessária. Em função disso, não conseguiu conter esse tumulto que assumiu proporções que fugiram do controle e foi para a quebradeira. Mas isso foi relacionado à falta de estrutura do evento. Estávamos despreparados para receber aquele público, que era de mais ou menos 4,5 mil pessoas.

Comércio - Quantas pessoas o evento comportava?
Clóvis -
O alvará vai até 5.020 mil pessoas, não estava fora da quantidade. O que estava fora do contrato é que a Flavinha não poderia fazer open bar. Ela não estava autorizada a fazer open bar. Ela fez à revelia do contrato. Além de fazer isso, ela não abasteceu o open bar, que gerou a confusão e deu no que deu.

Comércio - Como está a reforma do salão?
Clóvis -
Trocamos o piso, vamos colocar os vidros, estamos pintando, vamos fazer jardinagem na frente do clube... O salão daqui a 40 dias vai estar bem melhor do que estava antes. A parte de vidro, que não eram vidros temperados, já foi trocada. As pias, as portas, os banheiros já foram consertados. Os vidros da porta de entrada também foram colocados.

Comércio - Com essa experiência, pensa em reformular os contratos de locação?
Clóvis -
Sim. Já contratamos um profissional para refazer o contrato de locação do clube, nos ajudar no planejamento de reestruturação. A pessoa que vai alugar o salão vai ter que atender algumas exigências a mais. Por exemplo, a equipe de segurança não vamos aceitar que seja menor do que manda o contrato - são 20 seguranças para cada mil pessoas. Não vamos admitir que o locatário contrate número menor que isso. E não vamos aceitar equipe de segurança que não seja legalizada. Vai ficar um pouco mais exigente para fazer evento no clube.

Comércio - Nesse novo contrato, o senhor pensa em coibir o open bar?
Clóvis -
Nós vamos tentar coibir o open bar de todas as formas. Só que não podemos esquecer que o salão é comercial e tem eventos de vários tipos. Dependendo do público, não vamos aceitar open bar dentro do salão.

Comércio - Qual foi o prejuízo que trouxe a Festa da Flavinha ao clube?
Clóvis -
Posso falar que ao todo, até com o malote (furtado), o prejuízo chega a R$ 40 mil.

Comércio - Esse fato prejudicou a agenda do clube?
Clóvis -
Não, de jeito nenhum. O salão continua. Bola para frente. A agenda não teve nenhum prejuízo. A agenda para o final do ano está lotada. Até novembro temos muitos shows agendados. A partir de dezembro até fevereiro, vai o embalo de formaturas. Temo espaço para shows, somente na segunda semana de fevereiro. Existem reservas para daqui três anos.

Comércio - Qual é a principal fonte de renda do clube?
Clóvis -
Não é o aluguel e sim os associados. O salão é responsável por 40% da nossa arrecadação. O clube vive de sócio. Estamos com planos de vendas de títulos, que está reagindo muito bem. Vendemos 200 títulos só em setembro e o mês ainda não acabou.

Comércio - O que a diretoria tem feito para melhorar a situação financeira da entidade?
Clóvis -
Começamos desmontando aquela estrutura de eventos que o clube tinha, que estava fora de foco. O foco é lazer, entretenimento, bem-estar das pessoas, isso é clube. O clube era uma máquina gigante de eventos. Desmontamos essa máquina, corrigimos as distorções, o que gerou um impacto muito grande. O clube começou a investir na estrutura que gera bem-estar para o associado. Estamos mexendo aos poucos. Conseguimos em parceria com a Prefeitura e o Estado, desassorear a represa, que estava quase perdida. Há duas semanas colocamos 17 mil peixes, a represa está cheia de vida de novo. Conseguimos mais de uma vez revitalizar todos os bosques. Procuramos manter a pista de caminhada limpa e iluminada. Os quiosques sempre limpos. Os filtros das piscinas que não funcionavam, trocamos todos. Toda a estrutura elétrica arrebentada, nós trocamos. Nós conseguimos uma parceria com a Ambev e reformulamos o salão há três anos. Reformamos a sauna. Agora nós conseguimos em parceria com a Unimed essa academia. Investimos R$ 600 mil na academia, R$ 250 mil na reforma do salão e R$ 130 mil no aquecimento da piscina. O clube investe em modalidades esportivas como judô, futebol, tênis, caratê, ballet, yoga, dança de salão, do ventre... Estamos com cerca de mil pessoas tendo aulas aqui em diversas modalidades, praticando alguma atividade física direcionada, com acompanhamento, com professores. Agora estamos reformando os vestiários. Estamos com um projeto de arborismo, com tirolesa sob a lagoa. O clube vem investindo em atividades que atraem o associado: lazer dentro da cidade. O francano está descobrindo aos poucos este espaço, que sempre teve fama de ser de elite, mas isso não é verdade. Este espaço é para a classe média.

Comércio - O clube tem passado por mudanças em sua infraestrutra. A academia montada em parceria com a Unimed é uma delas?
Clóvis -
Sim. Antes o clube era um centro de custo, hoje ele é um centro de receita. A parceria com a Unimed, uma empresa séria, está nos ajudando muito. Ver a cada mês que passa o número de associados aumentar é resultado de um trabalho bem feito e de uma parceria acertada. Em maio, quando a academia foi inaugurada, tínhamos 50 alunos. Hoje temos 500. É gratificante.

Comércio - Aonde o Clóvis, presidente do Castelinho, quer chegar?
Clóvis -
Eu não almejo nada que seja fora da possibilidade de acontecer. Busco no Castelinho um clube sem dívidas e com a estrutura física 100% revitalizada. Isso é mais um desafio pessoal que eu abracei por gostar de desafios.

Comércio - Qual futuro se projeta para o Castelinho?
Clóvis -
Além de todo o investimento, vamos em busca de ainda mais melhorias. No início de novembro, nós vamos para a Ilha de Comandatuba, na Bahia, para concorrer ao prêmio de melhor clube no Casos de Sucesso. A premiação homenageia clubes que tenham desenvolvido e colocado em prática um exemplo bem sucedido de gestão interna. O conceito que estamos seguindo hoje no Clube AEC Castelinho é inovador, com um plano de saúde. Unimos dois conceitos - saúde e lazer - e é com esses conceitos que vamos tentar ganhar esse prêmio. 

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