‘Governo não se herda. Se conquista’, diz Geraldo Alckmin


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PROMESSA - Durante a sabatina do GCN Comunicação, o candidato do PSDB ao governo do Estado, Geraldo Alckmin, prometeu acabar com as cadeias públicas em quatro anos
PROMESSA - Durante a sabatina do GCN Comunicação, o candidato do PSDB ao governo do Estado, Geraldo Alckmin, prometeu acabar com as cadeias públicas em quatro anos

*Clique aqui para assistir a sabatina.

O candidato do PSDB ao governo do Estado, Geraldo Alckmin, líder em todas as pesquisas eleitorais, foi sabatinado pelo GCN Comunicação na última sexta-feira, 24 de setembro. O tucano diz que vai tirar todos os presos das cadeia públicas do Estado e aumentar em 6 mil homens o contingente da Polícia Militar. O candidato defendeu o sistema de progressão continuada implantado nas escolas públicas do Estado e ainda disse que o modelo de concessão das rodovias estaduais é bem sucedido e constitui uma política de justiça social. “Quem usa mais paga mais. Quem usa menos paga menos”.


PRIMEIRO BLOCO

GCN Comunicação - Por que o senhor quer ser governador do Estado de São Paulo?
Geraldo Alckmin - Sou candidato a governador para servir a população de São Paulo. São Paulo tem avançado. Um fato importante: o Estado de São Paulo vem, desde 2004, crescendo acima do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro. Se o PIB cresce 3%, São Paulo cresce 3,5%. Se o PIB do Brasil esse ano crescer 7%, o de São Paulo deve crescer mais de 8%. Os estudos mostram que onde os salários mais vão crescer nos próximos 10 anos será no Estado de São Paulo . Aliás, Franca é um grande exemplo porque lidera a criação de empregos no Estado de São Paulo. Acumulamos experiência para a gente servir ainda mais a população, avançando na saúde, na educação, na segurança, na infra-estrutura e logística, enfim, nas políticas públicas em benefício da nossa população.

GCN - Caso o senhor seja eleito, o PSDB vai completar 20 anos à frente do Estado de São Paulo. O senhor não acha que é muito tempo? Por que o eleitor deve votar pela continuidade?
Alckmin - Governo não se herda, se conquista. O PSDB conquistou a confiança da população de São Paulo. O governo do Estado foi recuperado. Eu confio muito no julgamento popular. O povo não se deixa enganar. A população amadurece e o eleitor confia, vê que são governos sérios, que respeitam o dinheiro público, que não fazem loteamento público e que prestam um bom serviço à população.

GCN - De acordo com as últimas pesquisas eleitorais (Datafolha e Ibope), o senhor lidera com folga a corrida pelo governo do Estado, com cerca de 51%. Ainda assim, seu adversário direto, Aloizio Mercadante, vem subindo nas intenções de votos. Saiu de 14% em julho para 23% agora em setembro. O crescimento de seu principal adversário preocupa?
Alckmin - No dia de ontem, foram publicadas duas pesquisas. No Datafolha, ele tinha 23% e continua com 23%, não teve nenhum crescimento. No Ipesp (Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas), publicado hoje no Diário de São Paulo, ele caiu dois pontos, de 25 para 23. E nós crescemos três pontos, de 46 fomos para 49. Agora, pesquisa é pesquisa. O que vale é o dia 3 de outubro, que é o dia das eleições. E vou com humildade e trabalho. A gente acorda cedo, dorme tarde, pede o apoio da população, pede voto, pede empenho para gente poder chegar lá e trabalhar.

GCN - Apesar da definição vir no dia 3 de outubro, é evidente que o senhor, que é um veterano de várias disputas, sente o clima e tem percepção. O senhor acha que essa eleição se decide no primeiro turno?
Alckmin - Devemos ter humildade, pé no chão. Eleição só se decide depois da apuração. Hoje é óbvio que nós teríamos mais de 50% dos votos válidos. Mas seja no primeiro turno ou no segundo turno, estamos trabalhando para poder ter o voto da população e, se Deus quiser, fazer um governo ainda melhor.

GCN - Nos últimos programas eleitorais na TV, o PT vem subindo o tom dos ataques, chegando a insinuar que o senhor foge de um embate direto com Mercadante. Como o senhor vê essa estratégia?
Alckmin - Olha, os adversários não vão falar bem de nós. É uma coisa natural. Eu não vejo nenhum problema nisso. Aliás, acho até que dependendo do tom da crítica, ela é negativa para quem a faz. Aprendi com o meu pai uma vez, que dizia: “Olha, os possíveis equívocos dos seus adversários não aumentam em nada as suas qualidades”. Eu não acredito em campanha falando mal. Nós falamos de projetos, de propostas em benefício da população.

GCN - A candidata petista à presidência, Dilma Roussef, manifestou publicamente em SP apoio a dois candidatos. Além de Mercadante, defendeu também a candidatura de Paulo Skaf (PSB). Como o senhor avalia essa estratégia? É um vale-tudo para levar a disputa em SP para o segundo turno?
Alckmin - A lógica (da vitória no primeiro turno) é ter mais que a soma de todos os candidatos. Como em São Paulo nós temos nove candidatos, eu tenho que ter um voto a mais do que a soma dos oito. Eu acho natural. Cada um apóia o candidato do seu partido, da sua coligação. Não vejo nenhum problema nas pessoas exteriorizarem o seu apoio, declararem o seu apoio.


SEGUNDO BLOCO

GCN - Uma das áreas que mais preocupam a população paulista é a segurança pública. Alguns de seus adversários chegam a afirmar que pretendem, caso eleitos, acumular a função de secretário de segurança ou assumir pessoalmente o comando das polícias. Se eleito, quais são as principais propostas do senhor para resolver os problemas desta área?
Alckmin - Segurança pública é uma área que a gente tem que lutar todo o dia. É uma guerra em que tem que se vencer batalhas diariamente. Nós avançamos. O Estado de São Paulo tinha 33 homicídios por 100 mil habitantes e hoje nós temos 10 homicídios por 100 mil habitantes. O Brasil tem 25 homicídios por 100 mil habitantes. Quando eu assumi São Paulo, ele era o quarto estado em número de homicídios por 100 mil habitantes. Hoje é 25º. O que eu pretendo fazer no próximo governo? Fortalecer a investigação com a Polícia Civil. Do outro lado, ter um efetivo da Polícia Militar maior para ter polícia na rua, para prevenir o crime, para proteger a população. Fortalecer o patrulhamento rural. As cidades menores no mínimo com 12 policiais militares. Nós deveremos ter 6 mil policiais militares a mais. Não ter nenhum preso em cadeia. Nós tínhamos 43 mil presos em cadeia. Hoje, são apenas 8 mil. Nós vamos zerar isso em quatro anos. Vamos ajudar a Polícia Civil, que vai deixar de tomar conta de preso para cumprir seu papel de polícia investigativa. Então, é polícia bem equipada, valorização salarial e condições de trabalho.

GCN - O senhor anunciou que pretende contratar policiais no seu período de folga. O seu plano de governo define isso como “atividade delegada”. O que é isso exatamente?
Alckmin - O policial trabalha 12 horas e tem 36 horas de descanso. Nessas 36 horas, ele acaba fazendo o chamado “bico”. E aí ele não está fardado, não pode estar armado e, às vezes, acaba até perdendo a vida. A “atividade delegada” nos permite, nesse período, contratá-lo por 8 horas. Na capital de São Paulo, isso está acontecendo. Temos 5 mil policiais militares que estão satisfeitíssimos, porque todo mundo parou de fazer o bico. Trabalha oito horas a mais, fardado, armado. O homicídio já tinha caído, mas caiu agora roubo e furto. O soldado inicial lá em São Paulo, que ganhava R$ 2.380, passou a ganhar R$ 1,1 mil a mais.

GCN - O senhor falou na resposta anterior sobre as cadeias do Estado, que vivem problemas graves de sucateamento e superlotação. Segundo dados citados pelo senhor em entrevistas, São Paulo teria hoje 168 mil presos. Como o senhor pretende resolver os problemas do sistema penitenciário?
Alckmin - O Estado de São Paulo tinha, quando Mário Covas assumiu, 55 mil presos. Hoje tem 168 mil presos. Nós temos 22% da população brasileira e 40% da população carcerária. Por isso, os índices de criminalidade caíram. Você pegou o bandido e prendeu. O que estimula o crime? A impunidade. Se o ladrão de automóvel tivesse certeza de que seria preso, ele não roubaria o carro. Então, São Paulo trabalhou.

GCN - O senhor também disse que pretende acabar com todas as cadeias, manter presos somente em penitenciárias. Em abril, em Franca, foi inaugurado um CDP, com a perspectiva de nunca mais ocupar a cadeia do Jardim Guanabara para a manutenção de presos. Mas agora, cinco meses depois de desativada, por conta da superlotação da cadeia feminina de Batatais, ela foi reaberta. A cadeia do Guanabara voltou a receber presos. Como o senhor pretende evitar que situações assim aconteçam?
Alckmin - Embora a gente tenha uma população carcerária eminentemente masculina, praticamente 95% dos presos são homens, realmente há falta de vagas para o sistema penitenciário feminino. Nós vamos abrir essas vagas rapidamente. E para não haver o que você falou, o que devemos fazer? Nós vamos tirar os presos das cadeias para os CDPs e derrubar a grade para que os prédios não sejam mais ocupados por presos. Então, é fazer as unidades prisionais para as mulheres e tirar a grade para não ter risco de amanhã a cadeia voltar a ser ocupada.

GCN - Policiais paulistas, especialmente os delegados, reclamam que são muito mal pagos e que recebem salários menores do que os seus colegas do Piauí, um dos Estados mais pobres da federação. Como o senhor analisa essa situação?
Alckmin - Eu não sei quanto é o salário do Piauí. Em São Paulo, o salário inicial de um delegado, em uma cidade com menos de 500 mil habitantes, é em torno de R$ 5,4 mil. Nas cidades acima de 500 mil habitantes, é R$ 5,8 mil. O salário médio dos delegados de São Paulo é R$ 8,4 mil. O salário médio dos delegados aposentados é de R$ 11 mil. Certamente não é o ideal. Nós vamos procurar, na medida do possível, dar aumentos superiores à inflação, de tal maneira que os nossos funcionários públicos tenham ganhos reais de salário. Estimular carreira. Aqueles que estão em situação mais desfavorável, ajudar mais. Fazer justiça. Sou filho de funcionário público. Meu pai trabalhou 40 anos na Secretaria da Agricultura do Estado. Nós vamos ajudar o máximo que pudermos.


TERCEIRO BLOCO

GCN - Os seus adversários utilizam os pedágios como fonte para críticas ao seu governo e ao PSDB paulista. O senhor acha justo o preço que se cobra nas praças de pedágio paulista?
Alckmin - Nós tivemos em 1998, no tempo de Mário Covas, 12 concessões de rodovias. E em 2008, 6 concessões. São 18 concessões. Qual foi modelo do governo de São Paulo? Foi o modelo de grandes investimentos. As rodovias que eram simples foram duplicadas sem nenhum centavo do governo, tudo através da concessão. O modelo da manutenção e do conceito de rodovia viva, com atendimento médico, ambulância, mecânico, guincho, sistema de acompanhamento. Por isso, das 10 melhores rodovias do Brasil, 10 são estaduais de São Paulo. Das 10 piores do Brasil, nove são federais. E quem ganhou a concessão paga para o governo. A chamada concessão onerosa. O governo usa esse dinheiro que ele recebe do pedágio para, por exemplo, recuperar as vicinais. O governo federal optou por outro caminho. Se você pegar a Fernão Dias, o governo primeiro duplicou com dinheiro público para depois fazer a concessão. Segundo, não tem obra nenhuma. A única obra que teve na Fernão Dias foi a construção de praça de pedágio. A Régis Bittencourt, do governo federal, a mesma coisa. Até hoje não foi duplicada a região da Serra dos Cafezais, ligando São Paulo a Curitiba, a chamada rodovia da morte. Então, são modelos diferentes. O nosso modelo foi bem sucedido, gerou grandes investimentos. As estradas paulistas são as melhores do país. Caíram 39% os acidentes. E o governo, com esse recurso, está recuperando a malha estadual que não é pedagiada. Nós vamos analisar os 18 contratos e ver o equilíbrio econômico e financeiro. Se tiver espaço, ao invés de exigir mais obras, a gente pode avaliar a hipótese de redução de tarifa, mas respeitando contrato.

GCN - O senhor disse que pretende rever os contratos. Mas quando foi governador, não o fez. Que garantias tem o eleitor agora de que o senhor fará a revisão e a análise desses contratos?
Alckmin - Não é que eu não fiz. É que naquele momento não tinha esse espaço (de redução). Você faz o contrato por 20 anos. É claro que ele pode e deve ser permanentemente avaliado. Quando você analisa o equilíbrio econômico e financeiro, ele pode ser favorável ao governo ou pode ser favorável à concessionária, depende. Nós não tivemos espaço para redução. Por que? O governo do Estado não tem nenhum imposto sobre concessão. O único que não tem imposto é o Estado. Nós vamos analisar os 18 contratos, verificando se há algum espaço para redução.

GCN - Entre as propostas dos seus adversários, um deles propõe a devolução do valor pago por meio de IPVA. Outros propõem tarifas variáveis conforme o período do dia, de madrugada mais barata... O senhor acha que essas propostas são viáveis?
Alckmin - Acho que são totalmente inviáveis. Estimular as pessoas a andarem de madrugada é aumentar acidente. Uma das principais causas de acidente é a pessoa cochilar no volante. Segundo, metade do IPVA é dos municípios, você não pode tirar o dinheiro dos municípios e devolver. Terceiro, você vai tirar dinheiro da educação, da saúde. O IPVA é imposto, não é contribuição. 30% dele vai para educação, 12% vai para a saúde. Então, a dona Maria que não tem carro, que não anda nas auto-estradas, vai pagar a conta. A lógica do sistema de pedagiamento no mundo inteiro é quem usa, paga. Quem usa mais paga mais, quem usa menos paga menos. É uma justiça social. Acho que esse não é o caminho. Nós vamos analisar se nos contratos tem a possibilidade de redução.

GCN - A progressão continuada, instalada nas escolas públicas do Estado de São Paulo, é um dos temas centrais destas eleições e motivo de críticas dos seus adversários. Como o senhor avalia este sistema?
Alckmin -Eu tenho ouvido o candidato do PT falar mal da progressão continuada. Mas ele não fala que quem criou a progressão continuada foi o PT. Ela não foi introduzida pelo Estado, foi introduzida pela prefeitura de São Paulo, pelo governo do PT da Luiza Erundina, pelo educador Paulo Freire. Depois veio o Maluf em seguida e não mudou. Depois veio a Marta Suplicy (do PT) e também não mudou. Das 64 cidades governadas pelo PT, 63 têm progressão continuada no primeiro ciclo. É interessante isso. É crítica de véspera de eleição. Ele fala que a progressão é uma aprovação automática. Não é. O aluno que completou 25% de faltas, ele está reprovado. Agora, se ele não falta, ele tem que aprender. Por que ele não está aprendendo? A escola é para o aluno aprender. Vamos aumentar o reforço escolar. Se eu pegar as escolas particulares mais ricas, quase todas têm progressão continuada. A escola pública reprova quatro vezes mais do que a particular. O filho do rico não é reprovado. Se ele tem dificuldade, você dá uma mão para ele e procura ajudá-lo.
E eu te pergunto, a criança que repete fica melhor? Não. Ela piora. Ela fica mais velha do que o conjunto da classe do outro ano e acaba saindo da escola. Acabou de ser publicado na semana passada que entre os países do Mercosul, o Brasil é o pior em termos de evasão escolar. Criança fora da escola. Eu não quero por a criança para fora da escola. No final da segunda série, 92% das nossas crianças estão plenamente alfabetizadas. Boletim já existe hoje. Os pais recebem. É bimestral. Nós vamos ter um segundo período. Eu fiz 500 escolas em tempo integral. Nós vamos ampliar e ajudar os nossos alunos. Se você pegar de primeira a quarta série, o Estado de São Paulo é o segundo melhor do Brasil em desempenho no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica). Se você pegar da quinta a oitava série, o São Paulo é o primeiro. Se você pegar o ensino médio, é o terceiro lugar. O Ideb é um exame federal, feito pelo MEC no Brasil inteiro. Os outros estados que estão conosco do primeiro ao terceiro lugar, todos têm progressão continuada. Se você pegar os últimos colocados do Brasil, nenhum deles tem progressão continuada. O que mostra que essa discussão não tem cabimento. Melhorar a educação é qualificar o professor. O que nós vamos fazer? Fortalecer o professor, valorizá-lo e oferecer capacitação continuada.

GCN - Outro item da política educacional vigente em São Paulo que é bastante criticado por seus adversários é o sistema de concessão de bônus financeiro aos professores da rede pública estadual. Qual a avaliação do senhor sobre esse sistema?
Alckmin - Eu defendo carreira. Professor tem que ter carreira, promoção, salário, aumento. Em 2005, dei 30% de reajuste. 15% de aumento para todo mundo e 15% de gratificação. 30% em um ano! Agora, eu sou favorável ao bônus. Com o bônus, você aumenta o estímulo baseado no resultado. Ora, se os alunos vão bem, se a assiduidade dos professores é boa, se a escola está indo bem, você tem um 14º, 15º, 16º. Quem ultrapassou a meta que foi estabelecida, teve 2,9 salários a mais de bônus. Não são incompatíveis carreira e estímulo pelo mérito.


QUARTO BLOCO

GCN - O debate sobre o avanço das drogas ilícitas, como maconha, cocaína e, especialmente, crack, é intenso. Há quem defenda a liberação do consumo de algumas drogas como meio de combater e enfraquecer o tráfico. Qual sua opinião sobre o tema?
Alckmin - Sou contra a legalização. Acho que o caminho é o combate ao tráfico de drogas. E aí, quero chamar a atenção para a responsabilidade federal. A gente combate aqui dentro do Estado, mas é preciso ter uma polícia de fronteira para combater tráfico de drogas, tráfico de armas e lavagem de dinheiro. Temos também que tratar os dependentes químicos. Vou ampliar muito as clínicas de tratamento de dependente químico. Há um princípio latino que diz: ‘Suprima a causa que o efeito cessa’. Se não tiver consumidor, vai cair o consumo. Então, tem que tratar quem é dependente e dar prisão para o traficante.

GCN - Sempre que crimes hediondos abalam o país, como os casos que envolvem Eliza e Mércia, supostamente mortas por seus namorados, ganha força a discussão da adequação das penas no Brasil. O senhor é contra ou a favor da pena de morte?
Alckmin - Sou contra. Primeiro, você tem casos clássicos na história de erros no judiciário que podem acontecer. Se você já matou a pessoa, como você vai reparar um erro do judiciário? Segundo, só deve tirar a vida quem dá a vida. O Estado não dá a vida para ninguém. Se alguém oferece risco à sociedade, mantém preso.

GCN - Hoje, ninguém pode ficar mais do que 30 na cadeia. O senhor acha que esse tempo é suficiente? O senhor acha que qualquer autor de crime hediondo pode ser recuperado?
Alckmin - Teoricamente, sim. Agora, você pode ter distúrbios mentais, pessoas que são psicopatas, doentes. Portanto, se forem colocadas em liberdade, seja 30 anos depois, elas podem voltar a cometer crime. Então, você mantém em privação de liberdade por conta desses problemas. Aí não tem prazo, porque essa pessoa está oferecendo risco à sociedade e um laudo médico atesta isso.

GCN - Qual sua opinião sobre o projeto de lei que proíbe palmadas, beliscões e castigos físicos em crianças e adolescentes?
Alckmin - Sou contra a agressão física. Não acho que esse seja o caminho para educar. O caminho dever ser o exemplo. Agora, também não sei se isso deve ser caso de legislação.

GCN - A Argentina aprovou há pouco mais de um mês uma legislação que autoriza a união civil entre pessoas do mesmo sexo, seguindo muitos países onde a situação já está regulamentada. No Brasil, a questão segue muito polêmica. O senhor defende a regulamentação da união civil de pessoas do mesmo sexo?
Alckmin - União civil? Não vejo nenhum problema. É um assunto contratual. As pessoas vivem juntas, querem estabelecer uma partilha dos seus bens, fazer um contrato. Não vejo problema nenhum.

GCN - O senhor acha que deve ser estendido aos casais homossexuais o direito de adoção de crianças?
Alckmin - Acho que a adoção é uma questão que exige muitos cuidados, não só para casais homossexuais. Você precisa avaliar muito bem e isso cabe à Justiça.

GCN - Dados oficiais indicam que se contam na casa dos milhões os casos de mulheres que já praticaram um aborto, quase sempre em condições precárias em clínicas clandestinas. O senhor é contra ou a favor da legalização do direito ao aborto?
Alckmin - Sou contrário. Eu não alteraria a legislação brasileira que já prevê o aborto em casos de estupro e em casos de risco de vida da mãe. O que nós precisamos é evitar a gravidez indesejada. Acho que nenhuma mulher faz aborto por querer. O que acontece é a gravidez indesejada. O que nós devemos fazer é informação, educação e métodos contraceptivos.

GCN - O governador paulista constantemente é obrigado a se posicionar quando há ações organizadas por grupos de sem-terra. Qual sua opinião sobre a reforma agrária? E sobre a invasão de terras?
Alckmin - Sou favorável à reforma agrária e contra a invasão de terra. A reforma agrária é de responsabilidade do governo federal e só ele pode desapropriar para fazer reforma agrária. O Estado pode fazer em terras devolutas. São Paulo tem feito um bom trabalho. Agora, invasão de propriedade privada, não. Em São Paulo, invadiu tem que desinvadir.

GCN - O que o senhor acha da proposta da CNBB que pretende limitar em 1000 hectares o tamanho máximo da propriedade rural no Brasil?
Alckmin - Não acho que seja criterioso, em um país de dimensões continentais, como o Brasil, tratar de maneira igual situações diferentes. Você tem estados que são menores, como Santa Catarina, que é um estado que tem muitos minifúndios, o que é uma coisa muito boa. Você não precisa nem limitar, porque raramente vai ter propriedades maiores. E tem estados continentais, como o Pará, o Mato Grosso. Você tem atividades de pequena agricultura e tem atividades que têm que ser extensivas. O Brasil, por exemplo, é o maior produtor de carne bovina do mundo.

GCN - Qual a opinião do médico e candidato Geraldo Alckmin sobre as pesquisas com células-tronco embrionárias?
Alckmin - Acho que pesquisa você pode fazer. Aliás, você não precisa fazer pesquisa só com embrião. Você pode fazer pesquisa com células-tronco sem utilizar embriões. Neste caso, sou totalmente favorável.


QUINTO BLOCO

GCN - A saúde pública de São Paulo é alvo de muitas críticas. Consultas demoram meses para serem realizadas, exames podem demorar até um ano. O também candidato ao governo do Estado, Paulo Skaf, disse neste auditório que o grande problema da saúde do Estado não é falta de recursos, mas a falta de uma gestão eficiente. Por que a saúde pública do Estado de São Paulo ainda enfrenta tantos problemas?
Alckmin - A saúde é um desafio no Brasil inteiro. Nós fizemos uma pesquisa. A primeira prioridade da população é a saúde. Eu fui constituinte e a Constituição Federal estabeleceu que a saúde é um direito do cidadão, não precisa pagar nada. Diferentemente do que diz o candidato, o problema é financiamento. Nós investimos 7,5% do PIB em saúde, sendo que metade disso é de Seguro Saúde para 40 milhões de brasileiros. E a outra metade é para 150 milhões de brasileiros através do SUS. Então, é sim uma questão séria de financiamento, além das questões de gestão. Por exemplo, as Santas Casas. Por que elas passam tanta dificuldade? Porque a cada paciente que elas atendem aumenta o prejuízo. Porque a tabela do SUS, que não é corrigida pelo governo federal, cobre apenas 60% do custo. Quanto mais a Santa Casa atende, mais ela vai se endividando. É preciso melhorar o financiamento e melhorar a gestão sempre. Na saúde, o atendimento primário é dos municípios. É o posto de saúde, Programa de Saúde da Família. O atendimento secundário é do município e do Estado. Franca vai ter um AME, que é o Ambulatório Médico de Especialidades, ainda este ano. Nós vamos ter 25 especialidades, exatamente para diminuir essas filas. 25 mil consultas mês, 35 mil exames por mês. Isso vai ajudar muito. E de outro lado, vou expandir os hospitais e apoiar as Santas Casas, especialmente como a de Franca, uma Santa Casa que é uma referência para a região.

GCN - No dia 1º de setembro, Maria das Dores, uma senhora de 47 anos, morreu no pronto-socorro municipal depois de esperar 17 horas pela autorização de internação que viria da Crue, a Central que regula as vagas no Estado de SP. Como o senhor vê essa ocorrência e o que é possível fazer para que casos como este não se repitam?
Alckmin - Sempre defendi a tese de que o pronto-socorro tem que estar muito ligado ao hospital de retaguarda. Em casos de emergência, você tem ter a retaguarda hospitalar. A Santa Casa sempre é retaguarda. A central de vagas é importante porque você procura hierarquizar esse sistema e dar agilidade. Não tenho detalhes sobre esse caso, mas, no meu dever como médico, vamos trabalhar muito para poder avançar ainda mais, reduzindo as filas através dos AMEs. E melhorar a questão do atendimento com a ampliação dos leitos hospitalares.

GCN - Franca tem enfrentado uma dificuldade, e as cidades da região por conseqüência, por uma certa falha de comunicação entre a Crue e a Santa Casa. Na verdade, as pessoas vão para o pronto-socorro, a prefeitura atende. Aí, elas precisam de internação, a Crue assume o sistema e, pelo sistema, a Santa Casa diz que não tem vaga. Essas pessoas ficam esperando horas para serem internadas. Como esse sistema pode ser melhorado para que, em uma Santa Casa ou em um outro hospital qualquer, as pessoas não morram à espera de atendimento?
Alckmin - Hoje, ninguém quer atender o SUS porque o governo federal não corrige a tabela. O governo federal está saindo do financiamento da saúde. Até oito anos atrás, era 51% o financiamento (federal) da saúde. Hoje é 41%. No Estado de São Paulo, é 31%. Ou seja, o governo está passando para as prefeituras e para os estados. Nós precisamos rediscutir essa questão federativa. Quem mais fica com o dinheiro dos impostos é o governo federal. Ele não pode, em uma área central como a saúde, deixar o financiamento.

GCN - Há anos, um dos maiores pleitos de Franca junto ao Governo do Estado, em termos de saúde pública, é a regionalização da Santa Casa de Franca, que convive constantemente com a falta de recursos. Por que o governo estadual, inclusive durante a gestão do senhor, não promoveu a regionalização do hospital?
Alckmin - Não. Regionalização nós promovemos e vamos fortalecer. Acho que você está se referindo à estadualização, virar um hospital estatal. Acho que uma das coisas importantes que nós temos é a organização do terceiro setor. O que nós vamos fazer é apoiar as Santas Casas, fortalecer o chamado pró-Santa Casa.

GCN - No caso específico de Franca, o termo regionalização é aplicado para uma demanda dos políticos e da própria Santa Casa que se ressente de uma contrapartida das prefeituras dos municípios pequenos. A Santa Casa não é pública, mas ela atende 95% do SUS. E as cidades de toda a região mandam os pacientes para cá, mas os prefeitos não dão nenhum tipo de repasse direto para o hospital. Essa é uma discussão que não sai do papel. O senhor vê alguma possibilidade de aumentar os repasses em função do atendimento aos pacientes da região que a Santa Casa faz?
Alckmin - Quem financia o SUS é o governo federal. Nós precisamos corrigir a tabela. Se nós não corrigirmos a tabela, as Santas Casas vão quebrando, elas vão ficando inadimplentes. Porque quanto mais paciente elas atenderem, mais prejuízo vão ter. A primeira coisa é corrigir a tabela. Aliás, aumentar o teto de São Paulo. Mas eu vou ajudar na medida do possível. Esse ano já investimos R$ 6,2 milhões. Agora queremos repassar R$ 8,5 milhões por ano.

GCN - Uma pergunta enviada pelo servidor público Carlos Gimenes, que é integrante do Conselho de Leitores do Comércio da Franca: Os servidores do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo encerraram recentemente uma greve que durou 127 dias, o que atrasou ainda mais as demandas ajuizadas e causou prejuízos à população. Uma das causas apontadas foi o corte feito no orçamento do Poder Judiciário. Diante disso, gostaria de saber se o senhor é a favor da autonomia financeira e orçamentária do Judiciário e se pretende implementar tal medida?
Alckmin - Sou favorável à autonomia. E não houve nenhum corte. O orçamento do Judiciário cresce todo ano. Agora, como se gasta, como se aplica o dinheiro, cabe ao Tribunal de Justiça decidir. E quem estabelece o orçamento é a Assembléia Legislativa. Ela que aprova o orçamento para o ano seguinte. Nós somos favoráveis à autonomia. O Judiciário dirige o seu orçamento como achar mais criterioso.


SEXTO BLOCO

GCN - Como o senhor vê as candidaturas cada vez mais comuns das ditas celebridades, como a Mulher Pêra e o palhaço Tiririca?
Alckmin - Muitas vezes, você tem candidaturas despreparadas. Os partidos políticos deveriam exercer esse papel de escolha dos seus candidatos. Aliás, hoje tem uma discussão sobre o projeto Ficha Limpa. A rigor, não deveria ser necessário ter uma lei para barrar aqueles que forem condenados por improbidade administrativa. Os partidos já deveriam ter, eles próprios, ter critérios na escolha dos seus candidatos. Eu queria dizer que sou favorável à reforma política. E um item já seria suficiente. Voto distrital. Se o voto fosse distrital, acabava tudo isso. Essas celebridades pescam votos no Estado inteiro. Então, não tem compromisso com ninguém. O voto distrital faz um vínculo entre o eleitor e o seu representante.

GCN - O senhor citou a votação do Supremo Tribunal Federal que acabou em empate de cinco a cinco e a aplicação de Lei da Ficha Limpa segue indefinida. Muito provavelmente, os ‘fichas-sujas’ poderão disputar a eleição normalmente. A dúvida ficará se eles tomarão posse ou não. O senhor acha que há clima para uma reforma política?
Alckmin - As reformas, seja política ou tributária, ou se faz no primeiro ano da nova legislatura ou não faz. Reformas estruturantes, mudanças constitucionais têm que ser feitas no primeiro ano. Se não fizer, perdeu o timing. Só no outro mandato. Mas tem que fazer. Não pode continuar nesse modelo. Agora, é óbvio que o Supremo, em minha opinião, deveria decidir favorável à Lei Ficha Limpa. O objetivo do legislador e da sociedade era valer para essa eleição.

GCN - Uma das maiores reivindicações do Sindicato da Indústria de Calçados de Franca é a redução gradativa do ICMS de 12 para 7%. O senhor acredita que seja possível esta desoneração?
Alckmin - O ICMS do sapato era 18%. Eu reduzi para 12%. São Paulo já fez a sua parte. Uma redução para 7% precisa ser avaliada com mais cautela. Não estou excluindo não, mas tem que ser avaliada com mais cautela. O que eu pretendo fazer? Criar o chamado Via Rápida para o Emprego. Nós já temos aqui Fatec e Etec. Pretendo trazer o Via Rápida. E o que é? Cursos de 200 horas, 100 horas, que não precisam de vestibular. É de graça e capacita rapidamente para a pessoa conseguir um emprego. Você tem muita gente desempregada e, por outro lado, tem vagas sobrando por falta de qualificação.

GCN - O senhor citou a questão da reforma tributária. O senhor acha que como governador, caso seja eleito, conseguirá liderar a pressão dos governadores e tirar isso do papel? E segundo, o presidente Lula disse que julga a carga tributária brasileira adequada. O senhor concorda com ele?
Alckmin - Primeiro, a reforma tributária, no que eu puder, vou ajudar. Agora o sistema tributário brasileiro é caríssimo. O Brasil é o país, entre os emergentes, com a maior carga tributária no mundo. E o pior, o dinheiro fica em Brasília. É muito imposto e fica longe do povo. É um equívoco isso.

GCN - Na última quarta-feira, durante sabatina neste auditório, o candidato Aloizio Mercadante disse que seu programa de TV parece a Disneylândia, porque mostra tudo lindo, perfeito, mas que a realidade é muito diferente. Também disse que o PSDB faz algumas coisas boas, como as Etecs, mas que são poucas e para poucos. Como o senhor avalia esta crítica?
Alckmin - Procuro fazer o programa falando o que já foi feito e foi feito muita coisa. E falando do futuro. Não faço bate-boca. Também não fico só fazendo crítica. Nós não fazemos para poucos. O PSDB, através do governo do presidente Fernando Henrique, estabilizou a moeda. Não foi para poucos. Foi para o Brasil inteiro. E beneficiou mais a população trabalhadora, que pagava o pior dos impostos, que é o imposto inflacionário. Nós fizemos o Real, que o PT votou contra. Mercadante fez uns 10 discursos dizendo que o Real iria levar o Brasil à recessão. A história foi totalmente diferente. Hoje, eles têm os benefícios do Plano Real. É fácil falar mal dos outros, mas a gente precisa é trabalhar. Não tem mágica. É trabalho, seriedade e avanços permanentes. É assim que a gente vai melhorar esse País.

GCN - O senhor citou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Ele não aparece na campanha eleitoral do PSDB em São Paulo. Por que as imagens do senhor e do Serra não são associadas à de FHC? Existe algum temor?
Alckmin - Aonde eu vou, falo do presidente Fernando Henrique. Agora, o tempo de TV e rádio é pequeno, temos que aproveitar da melhor maneira. O que está se discutindo na eleição não é o passado. Estamos discutindo o futuro. Estamos discutindo quem está mais preparado para ser o próximo presidente da República para fazer o Brasil dar novos avanços. Quem está mais preparado para governar um Estado que tem tamanho de país. O presidente Fernando Henrique é um orgulho para nós. Ele deu uma contribuição ao Brasil extraordinária.

GCN - Apesar de olhar para o futuro, o senhor costuma dizer que as derrotas ensinam mais do que as vitórias. O senhor vem de duas derrotas. O que elas ensinaram ao senhor?
Alckmin - Uma vez, quando era estudante de medicina, eu fui a Goiás Velho visitar a poetisa Cora Coralina, com mais de 80 anos. E lá ela me disse o seguinte: ‘Todos nós estamos matriculados na escola da vida, onde o professor é o tempo’. A gente está aprendendo todo dia, caindo e levantando. O importante é levantar melhor, aprender e avançar. E a política não é uma corrida de cavalos. Ela tem que ter princípios e valores, isso não muda. Tem eleição que você ganha, tem eleição que você não ganha, mas tem que ter os mesmos valores.

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