Nas ondas do rádio


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Ouço o rádio. Para mim, o rádio é bem melhor do que a televisão. Não produz imagens.Ora, delas não mais preciso. Construo-as na minha fértil imaginação. O rádio é uma fonte permanente de informações e conhecimentos. O grande problema está na recepção. As interferências são demasiadas, indevidas e inoportunas. Não raras vezes, logo após a narração de um gol do “poderoso timão”, entra uma voz irritante atrapalhando o comentário:

“Aleluia , irmão! Aleluia!”

As rádios religiosas invadiram as ondas curtas, as médias e as de freqüência modulada. Querem vender o Senhor Jesus de qualquer jeito e acabam nos irritando com suas constantes intervenções.

Sempre ouvi rádio. Gostava de sintonizar a Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Seus programas eram insuperáveis. De manhã, as novelas que minha avó escutava com toda a atenção num aparelho Invictus ( o qual possuo até hoje ). Algumas delas foram escritas pela Janete Clair, irmã do saudoso Ricardo Emer, mineirinha que veio para Franca e trabalhou na Rádio Hertz. Ao meio dia, era a Lúcia Helena, com seu programa dedicado ao Chico Viola, isto é, ao Francisco Alves, cognominado Rei da Voz. Lúcia nasceu e morreu em Franca, tia do Dr. Marcelão. Encantava com sua dicção perfeita e sua voz linda e inconfundível. De noite, aos domingos, podia encontrar-se na Rádio Nacional o Nada além de dois minutos, apresentado pelo Paulo Roberto e o Balança mais não cai.

Em São Paulo, na Record, lá pelas 6 da tarde vinham “os três batutas do sertão”( Torres, Florêncio e Nininho ). Na Rádio Bandeirantes, pontificavam os aquinenses Vicente Leporace e Pedro Luís Paulielo. Formaram-se profissionalmente em Franca, na PRB5, Rádio Club Hertz, uma das mais antigas emissoras do país. De Pedro Luís, dizem que ele foi despedido da Rádio em virtude de, numa transmissão esportiva, ter dito:

-Cabeceia com a cabeça.

O diretor da Rádio o exonerou com as seguintes admoestações:

-O Sr. queria que ele cabeceasse com o pé, com o nariz, com a barriga? Fora! O Sr. está fora do nosso cast.

Pedro Luís foi embora e se tornou um dos melhores narradores desportivos do Brasil. Vicente Leporace era completo. Fazia de tudo e muito bem: rádio, jornal, teatro, cinema,, shows, etc. Eu não deixava de ouvir o seu Trabuco. Velho amigo de meu pai, de vez em quando ele lhe mandava um abraço.

Na radiofonia francana permaneceram excelentes valores. O saudoso Otávio Cilurzo foi um deles. Se tivesse ido para a capital, poderia ter a mesma projeção do Leporace. Seu filho, o Bruno, foi e alcançou grande destaque.

Vivo, forte, saudável e simpático, reside em Franca um dos remanescentes da fase áurea do rádio. Trata-se de José Reinaldo Nascimento Falleiros. O prezado leitor conhece-o? É bem provável que não. Isto porque nas lides radiofônicas ele adotou o nome de Garcia Neto. Não sei se o Museu da Imagem e do Som já gravou uma entrevista com ele. Se não, faça- o, faça-o o mais rápido possível. Não porque ele esteja doente ou se esquecendo das coisas. Muito ao contrário. Garcia, como disse, está forte e lúcido. Mas é bom gravar logo. Garcia Neto tem histórias para contar. Histórias que precisam ser gravadas, guardadas e reproduzidas para que todos tenham a exata dimensão e a enorme importância da radiodifusão.

Neste Dia do Rádio, quero prestar uma homenagem ao Garcia Neto, eterno surfista das ondas hertzianas, homem do rádio que viveu, cresceu e se destacou na radiofonia nacional e que, agora, rememora as suas lutas e sucessos recolhido ao seu velho ninho, junto às suas raízes, na sua inesquecível Franca do Imperador.

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