Acompanhei pelo Comércio as notícias referentes à venda e reforma(?) do prédio que recebeu, por muitos anos, a sede social da AEC. De certa forma, as notícias me deixavam curioso quanto ao destino que poderia ser dado àquele prédio, mas, confesso que somente me conscientizei do ocorrido – ou seja –, da perda de mais um patrimônio histórico da cidade quando, dias atrás, passei por lá e notei o que restou dele.
Ao iniciarem a reforma retirando paredes, derrubaram mais do que tijolos. Derrubaram a própria história. A minha história e a de tantos outros que tiveram suas adolescências e mocidades embaladas pelas brincadeiras dançantes dos domingos, pelos bailes com conjuntos famosos da época e pelos bailes de carnaval.
Não pretendo, nesse artigo, questionar os interesses econômicos de quem comprou o prédio e, muito menos, questionar porque o mesmo não foi tombado como patrimônio histórico, pois já me disseram que o prédio não tinha valor arquitetônico, mas realmente isso não me interessa. Seu valor cultural era muito maior.
Tenho certeza que a grande maioria das atuais autoridades francanas, políticas ou não, tiveram na antiga AEC o palco dos seus entretenimentos. Tenho certeza que o atual Prefeito, homem do rádio e do teatro, deve ter frequentado muito a AEC. Por isso, não entendo porque não houve algum tipo de acordo para preservar aquele imóvel como um espaço da cidade e da nossa história.
Achei inconsequente a entrevista do novo proprietário do imóvel dizendo que ‘a estrutura do prédio não passará por mudanças, o que permitirá a preservação das colunas e da rampa de acesso aos pisos superiores’. Ora, não é preciso ser engenheiro para deduzir que se tirarem as colunas (pelas fotos é o que restou), o prédio cai. Portanto, só faltou um pouquinho para ser demolição completa como a que atingiu o antigo Hotel Francano.
O empresário falou também sobre revitalizar o prédio, mas revitalização em prédio antigo não se faz com obras de demolição e com descaracterização arquitetônica, e sim, com objetivos e utilização apropriados. O que ocorre ali é mais um ato de mutilação da nossa história. Destruiu-se o prédio da AEC sem ao menos ter se definido qual será seu destino. Chamam isso de ‘modernizar e revitalizar’.
Quando vejo a história coletiva ser apagada com tanta facilidade, fico pensando no que nós estamos deixando registrado para as futuras gerações. Eu tive bons momentos na sede destruída da AEC. Curti amizades, paquerei muitas meninas nos bailes, dancei pela primeira vez com a minha esposa e sei que o empresário de imóveis não tem nada a ver com isso; mas me reservo o direito de manifestar minha tristeza e lembrar, com saudosismo, daquelas épocas alegres.
Já não bastassem as perdas pessoais e individuais que temos ao longo da vida, é triste vivenciar as perdas históricas. É por isso que eu lamento o fato do Prefeito, para agradar certa parcela da população, gastar cerca de 30 milhões com asfalto no recapeamento de ruas (asfalto que em 5 anos estará cheio de buracos) e não ter 2 milhões de reais para comprar o prédio, preservar nossa história e até, possivelmente, implantar o projeto de espaço cultural proposto pela universitária Maristela. O prédio destruído da AEC era um forte registro material da expressão cultural de várias gerações francanas.
Cassiano Pimentel
Agente de Exportação e Professor Universitário.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.